segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

DO LADO DE CÁ, DO LADO DE LÁ

Eu estou aqui, vendo a noite chegar. Ao meu lado, garotos como eu, do mesmo jeito. Sem banho, sem comida, sem fome, quase sem corpo. Estou quase sumindo dentro de minhas roupas largas, rasgadas e sujas. Mas eu tenho um sonho! Só tento pensar em coisa diferente das coisas que vivo agora. Eu tento encontrar força, e a busco do lado de dentro da janela. Já chutei minha latinha para longe, e joguei aquelas pedras amareladas lá dentro do rio. 
  As pessoas estão passando por aqui para irem embora para casa. Elas passam ao longe, apressadas. Acabaram de descer do trem e  agora atravessam a rua depressa. Ninguém parece me ver aqui. E os que veem, se desviam.
Algumas parecem ter voltado do trabalho. Outras devem ter voltado sem conseguir trabalho.  A  expressão no rosto delas não é das melhores. Deve ter sido um dia difícil. Vejo uma senhora, com uma criança de colo, contando moedinhas para pagar o ônibus. Um cadeirante é conduzido por alguém, no momento de atravessar essa avenida movimentada! Não vejo paz nos olhares.
 Puxa vida,  agora um idoso quase foi atropelado, bem na faixa de pedestre por uma moto que avançou o sinal bem ali na frente! O barulho da sirene do carro da polícia vem abrindo caminho, em alta velocidade perseguindo aquela moto. Eu não sei o que foi, mas  parece assaltantes em fuga.
 Eu estava cansado. De tanto observar tudo aquilo, minhas energias pareciam sugadas. Reclinei a cabeça no canto da porta de uma loja que acabou de fechar, depois de mais um dia de expediente. O último funcionário acabou de sair. Parecia ter medo de mim, ficou desconfiado. Passou rápido pela porta lateral falando ao celular, dando uma olhadela em minha direção; desarmou o alarme do carro, abriu a porta e foi embora.  
 Agora, exausto, eu fechei a minha porta sem nada comer, sem ninguém a me receber, a não ser eu mesmo; não sei se haverá quem se importe com isso. Talvez sim, talvez não. Três vezes  por semana vem um grupo aqui oferecer um sopão; eles falam de Jesus, me falam da luz, mas ainda não a vejo.  

O que eu quero, é que a noite passe logo e ver o dia amanhecer de novo, e que tudo o que vivo por aqui, seja apenas um sonho ruim.
 Eu fechei a minha porta agora, porque tem gente que acha que sou louco, mas o que eu quero é compartilhar um pouco do que sinto, do que acho, do que quero, do que imagino...Lá do lado de fora, há muita coisa confusa. 
Mas agora, estou fechando as janelas também. Ninguém mais entra por elas. Ninguém poderá abri-las, a não ser a minha própria vontade. Fechei as frestas da luz que ainda restam por aqui e que me furtam a  minha intensa e tão linda imaginação. Aqui do lado de dentro tem luz, mas do lado de fora, ninguém pode ver o que vejo agora!
 Aqui do lado de dentro, tudo é de verdade. Ninguém diz sim, quando quer dizer não; ninguém vende a consciência por um pedaço de pão; as pessoas são realmente aceitas do jeito que elas são; não existe cortesia somente para agradar. Por isso, aqui dentro onde estou agora, ninguém fala em diferença, em preconceito, em raça, em cor, porque tudo é perfeito, sem emendas ou rasuras; tudo se completa de verdade, sem arranjos. Porque todos são realmente iguais, aqui, dentro de minhas janelas!
     As crianças brincam na rua, sem medo dos carros, nem dos moços, nem dos velhos; correm, pulam e não se machucam; tem banho, tem comida, tem escola, tem lazer, prazer e sonho. Seus pais não se preocupam: daqui a pouco elas voltam para casa!
 Suas casas não tem grades nas janelas,  nem câmeras de segurança, porque  tudo ali é seguro. Elas  tem cobertores bem quentinhos, um sorriso, uma oração; um beijo, um queijo quente, um pai presente, uma mãe amorável! Enquanto estou com as janelas fechadas, eu me vejo nessas crianças, me transporto nas asas da imaginação. Eu poderia ser como uma delas, mas estou aqui, com as janelas fechadas, sonhando!
                                                                                           
Quando abro a porta para dizer o que vejo, dizem que estou delirando...
  Aí, de novo, novo fecho a porta e as minhas janelas. Sinto a minha respiração. Ouço o raro cantar dos passarinhos que voam por aqui; os ruídos dos carros do lado de fora, aos poucos vão sumindo, os latidos dos cachorros, vozes e ruídos dos calçados daqueles que por aqui passam...
 Agora, estou num lugar diferente. Caminho lentamente pelas ruas,  ando sempre para frente. Não quero voltar.  O guarda da esquina me dá um sorriso, se achega e pergunta: 
 -De  que precisa, menino?
-Não preciso de nada, só estou dando uma olhada!
 Eu caminhava sozinho, mas não me cansava. Não vi mendigos nas praças e calçadas. Crianças abandonadas? Que nada! Os idosos que encontrava me olhavam sorridentes, pareciam bem contentes, sem bengalas nas mãos.
                   As vezes me dava vontade de abrir as janelas para ver o lado de fora, mas não tinha coragem. Lá fora tudo me assustava, me causava medo, espanto e pavor.  Do lado de dentro, era tudo calmo, tranquilo, diferente. Assim, preferia manter minhas janelas bem fechadas.
                      Do lado de dentro, o ar era puro; ninguém tinha medo do escuro porque a luz irradiava por todos os lados, refletindo em cantos dourados...
                                           
 Do lado de cá das janelas, eu não ouvia gemidos, nem choro; nem imagens de horrores nos corredores da dor  dos noticiários da televisão. Televisão? Lá, eles não tinham nada mais a dizer! Denúncias, não faziam sentido; fofocas e novelas não davam audiência! Por dinheiro ninguém matava, ninguém morria. Ninguém esnobava. Quem para isso ligava? Eram todos iguais.
 Por uma carteira ninguém era preso; ninguém prendia, ninguém soltava. Por justiça, ninguém lutava, todos viviam; porque todos aprenderam falar a linguagem do amor e da fraternidade.  Mas por que não acreditam no que eu vejo? Se do lado de cá posso ver tudo de novo acontecendo e, a cada dia, algo bom se fazendo...
                        Mas não estamos todos do mesmo lado? É que nem todos tem bom grado pra fazer tudo mudar. Se o que é bom pensamos, o que é bom façamos! Se tudo é possível aqui, é possível lá, porque lá e aqui, será o mesmo lugar!
Se eu pudesse, traria todos para cá, pegando-os pelas mãos e adentrando-os em minhas janelas, mas quem aceitará?  Assim, o lado de cá da janela, seria também o lado de lá, de verdade!
Quando eu abrir a minha porta outra vez, eu quero gritar, bem alto para todos que ouvem: se eu consigo imaginar, é possível viver. Tudo o que preciso já existe. Seja lá dentro ou aqui fora. Basta pôr as mãos em obra. O que se planta ainda nasce; o que se faz é o que  acontece. E há quantos ainda plantando vento e colhendo tempestade. Quero plantar amor para florescer a caridade.
                    Mas as luzes de fora, tentam apagar o que se passa do lado de cá das minhas janelas. E muitos ainda vivem dizendo:
                   -Cai na real, cara! Tem que matar pra não morrer; tem que roubar para viver; tem que mentir para crescer! Não é assim que funciona?
São luzes gritantes, são trabalhos constantes de muitos relutantes, brigando sem saber contra o que lutar!
                   Quem é o algoz? Já ouviu sua voz?
 Do lado de lá, eu entro em “parafuso”  por  discursos  difusos,  que de muitos esfriam a vontade de viver, vencer; de fazer diferente, de pensar em mudança que começa do lado de dentro.

-Não adianta fazer nada. Tudo é assim mesmo! – ainda dizem.

               Mas para que desejar? Para que sonhar se não praticar? Eu não posso viver sozinho do lado de cá das janelas num mundo ideal, sem torná-lo real... 
Vejo que não posso convencer. Quando mergulho aqui dentro, vejo tudo diferente, que do lado de lá, pode tornar-se permanente. Há alguém que acredite?Agora farei diferente. Não abrirei mais a porta. Não gritarei  aos outros sobre tudo o que vi.  Sairei pelas janelas para começar a agir.
Foi um sonho que vivi? Sim, mas agora eu preciso ir. Eu vou me levantar. Vou sair daqui! O que eu sonho é possível. O que eu preciso para alcançá-lo já existe. Está tudo aqui, e começa agora. Estou me levantando, eu preciso ir, para continuar!
Quero ser bom para mim mesmo e que, o que eu fizer, seja bom para todos ao meu redor.
  
                  Exercitar a paciência, agir com coerência, multiplicando minha crença em algo melhor existe. Eu já começo ver. Estou indo ao seu encontro. Tudo o que preciso, está aqui, do lado de dentro. Estou abrindo as janelas, deixo voar meus pensamentos, ganhando formas e cores, odores e sabores, porque a vida que imagino é assim, e para mim assim será. Estou voando pelas janelas, ganhando o mundo, construindo a minha vida, trazendo para mim o futuro que ontem a noite passou por aqui!