sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CUMPRINDO ORDENS. DE QUEM?

Sob a perspectiva Bíblica, "servo infiel" é aquele que faz apenas aquilo que o seu senhor manda. Hoje, os senhores que mandam, pensam exatamente o contrário. É preciso seguir a cartilha à risca.  Assim vivemos num mundo cheio de servos infiéis, treinados exatamente para cumprir ordens. Ir além da cartilha é arriscar-se onde a mediocridade é a lei. Quem deseja dar um passo a mais, já é visto como uma possível ameaça. De fato, não é possível ser um "servo fiel" sob a perspectiva de Deus quando nos adequamos às ordens de "outros senhores" e seus domínios. 

"O código de ética da profissão" foi evocado para proibir um veterinário de realizar mutirão de atendimento gratuito a animais em sua clínica na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo. O caso virou notícia nacional e indignação de muitas pessoas. O veterinário, mesmo em sua clínica particular, está ligado a uma "convenção" cuja "ética" profissional, o impede de dar um passo a mais. Certamente, esse profissional estava ferindo interesses econômicos da "corporação" que sobrevive do atendimento aos animais que ele oferecia gratuitamente, um dia na semana. 

Há poucos dias conversei com um jovem estudante de uma escola naval, e ouvi dele uma declaração que me causou perplexidade. Não pelo que me disse, mas por estar diante de um jovem que se descobriu após uma "desilusão": "Eu pensava diferente sobre a carreira; agora vejo que não nasci para ser militar. O militar é inútil, não produz nada; só cumpre ordens das quais não tem que questionar, mesmo que não concorde" - disse. E completou ainda mais: "Eu não quero me sentir um boneco."

A liberdade de viver uma vida sem o controle de um "sistema" dominado por interesses maiores, muitas vezes ocultos, pode causar muitas dores e sofrimento. Não bastasse o sofrimento físico, o sofrimento mental de desinstalar os "programas" que nos imprimem no subconsciente é tamanho. 

Há muitos que se adaptam como passarinhos na gaiola, cujos donos não os deixam morrer para sua própria vaidade. A preocupação não é com a vida do passarinho, mas em beneficiar-se de algo que ele "diz" a seu respeito. Os animais adestrados são úteis enquanto respondem ao comando de seus donos. A utilidade do animal, não leva em conta o animal, mas as sensações que ele produz em seu dono. É como uma ovelha cortejada e protegida pelo pastor por causa do valor da lã que ela oferece, não por sua vida, seja qual for o estado em que se encontre. 

O sistema manipulador, do qual direta ou indiretamente estamos envolvidos, trabalha exatamente assim. "Para o passarinho que foi acostumado à gaiola, doentes são os que estão livres".

É preciso que cada indivíduo se reconheça onde está. Quem está no caminho errado não se sentirá errado enquanto estiver fazendo errado para corresponder ao que o sistema requer que seja feito como certo. O encontro com a luz e o conhecimento leva a uma desilusão. É preciso submeter-se ao banimento, aos apontamentos, à discriminação, à calúnias e difamações. Mas é uma desilusão produtiva se conseguir vencer os turbilhões de ataques, muitos deles silenciosos para não dar a chance para a verdade se estabelecer. Verdade é veneno para um sistema de manipulações e engodos. 

Desiludir-se, ao contrário da palavra que sugere algo ruim, apesar de causar dor pelo desenraizamento de um  longo aprendizado sem direito ao contraditório, ou até mesmo por uma vivência em escuridão, a desilusão leva à libertação e à busca de outros caminhos, sob uma perspectiva libertadora. 

Isso não significa rebeldia, revolta, nem fundamentalismo ou separatismo como o sistema que impera define.  Para o sistema, os errados são os que estão do lado de fora, os que questionam e até contestam, ou até os que romperam relações; que não comem de seu pão e não se assentam em sua mesa. Para o sistema que domina, os errados são os que saem do grupo. É preciso estar bem resolvido com os próprios sentimentos, para que a desilusão não se transforme em mágoas ou ressentimentos que, ao invés de libertar, levará a uma outra prisão: da paralisia.