quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O SELF SERVICE DA FÉ

O velho Pedro Campos caminhava comigo e com meu irmão, ainda adolescentes depois do culto de domingo à noite até o ponto do ônibus. Em passos lentos por causa da idade e fala pausada, dizia: "As igrejas hoje são como restaurantes. Oferecem comida para todos os gostos." Se você não gosta disso, pode escolher aquilo; se não gosta de um jeito, pede para lhe servir de outro jeito. "O cliente tem sempre razão, e o bom comerciante torce para todos os times, não discute política nem religião."
A conversa prosseguia quando chegamos à padaria para comprar pão para o dia seguinte. 

Mesmo na adolescência consegui entender bem o que ele dizia metaforicamente, mas disse a ele uma frase, em tom de brincadeira: "E se a igreja tiver para oferecer os frutos do espírito?"

Muitas igrejas tratam os crentes como clientes. E os mais especiais tem ala VIP. 

Andarilhos são expulsos das portas dos restaurantes para não espantar os clientes. Que valor também teriam esses nos "self services da fé", que não podem dar nada em troca, a não ser receber?


O irmão Pedro Campos tinha razão? Pelo entendimento dele as igrejas estavam se descaracterizando para servir aos gostos pessoais. Mas com que finalidade, se a igreja foi instituída para orientar e guiar pessoas à Jesus?

O assunto não girou em torno do bom trato com as pessoas, das boas relações entre os membros, pois como representante de Cristo, a igreja, que é personificada em cada indivíduo, deve agir como Cristo agiu com os todos os pecadores.  A igreja enquanto instituição de Deus na terra, feita por pecadores arrependidos de seus pecados, de igual modo, precisa solidarizar-se com o pecado das pessoas, mas sem perder de vista o seu propósito de instruir, ou seja: não deve ser condescendente com o pecado. 
A igreja é um lugar onde pessoas compartilham sua vida, seus anseios, seus medos, suas preocupações, assim como em todos os lugares onde se relacionam. É um lugar onde pessoas buscam ser amadas e respeitadas. O diferencial é que a igreja apresenta um rumo, uma direção aos indivíduos; ajuda a aperfeiçoar o caráter e a viver uma vida com esperança. E essa responsabilidade será cobrada de toda igreja enquanto instituição que assumiu a missão de orientar, ensinar segundo os planos de Deus. 

Igreja, de fato, não é restaurante para servir comida ao gosto do freguês, como disse o velho Pedro Campos, há quase 30 anos. Pode ser que essa ideia de conquistar "clientes da fé" tem levado muitas igrejas a se estabelecerem a fim de explorar um "nicho" de mercado. "Aqui você pode isso ou aquilo; pode vir, porque a mão de Deus está aqui; só aqui você vai encontrar Deus; aqui não proibimos nada", etc. Atualmente há universidades convencionais oferecendo curso de Teologia em sua grade, deixando de ser uma exclusividade de instituições ligadas a igrejas. A ideia é formar pastores teóricos, em série, como se fosse para atender a uma demanda de mercado. 

Assim como Deus é eterno, seu amor é eterno, sua palavra é eterna; seu ensino é para a eternidade. Isso se caracterizou no próprio Cristo quando esteve entre nós. Ele esteve junto aos pecadores, indo até eles, amando-os com a missão de ajudá-los, de transformar a vida daqueles, cujos traços de caráter os faziam sofrer. Com amor compadeceu-se dos pecadores, mas ensinava que eles deveriam deixar de praticar tais pecados para terem a vida. Ele não se aproximava dos pecadores para aplaudir ou fazer coro aos seus discursos, mas tinha a palavra que mudava o modo de pensar e viver daqueles que lhe davam ouvidos. Cristo mostrava uma outra direção, porque Ele era essa direção. Ele é o Caminho. "Ninguém vem ao Pai, senão por mim" - afirmou. 

Há uma receita, um modo de fazer. "Mas quem perseverar até o fim, será salvo" - Mateus 24:13. 
Perseverança requer um preço a pagar. Não há perseverança sem confrontos, obstáculos a serem vencidos. Perseverança requer fidelidade a Deus. É esse o ponto crucial. O exemplo bíblico da mulher que sofria de hemorragia nos dá uma luz sobre perseverança. Ela teve que enfrentar o cerco da multidão que a impedia de chegar ao Mestre. Se submeteu a um sofrimento para obter o alívio, que por sua fé, recebeu. 

Cada um julgue-se a si mesmo sobre o que busca, o que procura e o que quer. Mas diante de tudo o que pensamos- como seres livres-, de tudo o que buscamos e queremos, a vontade de Deus deve prevalecer em nossa vida. A salvação ou a perdição não está relacionada apenas à aceitação ou não da graça de Cristo, mas de viver em Cristo, de querer estar em Cristo. Ser nova criatura.  

"E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou".
Pode ser que a preocupação de muitos não é a maneira como estão sendo servidos, mas de que maneira estão dispostos a servir à Deus.