quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O QUE A CIGARRA LEVOU DE MIM

 
         Há uma crença dominante, até mesmo por constatações, de que o ser humano precisa de carinho. Mas, por outro lado, o ser humano parece o único no universo de seres criados, que se furta ao desfrute do amor pelo orgulho, arrogância e vaidades. Esse pode ser um forte sinal da marcha que a humanidade vem seguindo ao longo dos séculos: a rejeição do amor. Aprendem que tudo deve ser do seu jeito, da maneira que sua cabeça pensa e, assim, muitos correm o risco de se afastarem da “dimensão” do amor e caírem em suas próprias armadilhas.

          A presença de pessoa torna-se ameaça para outra em determinados locais ou situações. Os entreolhares mostram desconfiança e medo. Os acontecimentos violentos entre pessoas criam uma barreira onde o amor e a confiança não podem entrar, senão pelos canais que abrimos em nós, para que esse dom se manifeste. Enquanto estivermos envolvidos pelo medo, a rejeição torna-se um escudo de proteção, e a falta de amor fará parte da vida de maneira justificável, a tal ponto, de fazer com que, desejar mal àquilo que parece ameaça, ser razoável.

        Uma cigarra entrou pela janela do quarto e se fixou no lençol da cama, batendo as asas com aquele som característico. Peguei a cigarra com todo cuidado unindo suas duas asas para que não sofresse algum dano. Naturalmente ela se debatia, tentando movimentar as asas, e mexendo com rapidez suas patas para se desvencilhar de minha mão. Mas a virei frontalmente para mim, observei alguns detalhes que não tinha visto antes. Comecei a falar com ela. O dia foi quente, não é? E você cantou nos troncos de muitas árvores? Você é uma criaturinha de Deus, sabia?
        Certamente ela não me entendia, mas enquanto eu falava com ela, foi se acalmando. Meu filho observava ao meu lado e admirou-se quando a cigarra se acalmou.
Comecei a acariciar a cabeça da cigarra com o meu dedo indicador lentamente enquanto falava e ela se aquietou completamente. Logo depois, levei-a até à janela e soltei. 
        O que a cigarra levou de mim, eu não sei. Para a dimensão dela eu sou um gigante. Talvez seus olhos não me viram como sou, ou como as pessoas me veem. Pode ter sido uma experiência única para ela o que aconteceu. “O que aquele estranho tentava ao me tomar pela mão? Ele é de uma outra natureza, de uma outra camada; enxerga diferente". Certamente não teve a ideia maliciosa de que eu poderia esmagá-la, pois que noção teria dessa "ciência do mal?". Mas uma coisa ficou estabelecida entre nós: o amor e o carinho gerou confiança e entrega. O amor nos iguala a outros seres vivos, pois o amor a todos criou.