sábado, 15 de novembro de 2014

LÍNGUA FERINA

“A boca fala do que o coração está cheio”.  Esta afirmativa bíblica pode nos levar a refletir se somos, de fato, verdadeiros em nosso discurso. Se falamos da maneira como procedemos. A frase “Faça o que eles falam, mas não faça o que eles fazem”, aponta que nem sempre a boca expressa realmente o que se sente no coração, nem sempre expressa as verdadeiras intenções seja de que lado for. Podemos usar boas palavras e um bom discurso, mas de maneira tendenciosa com o objetivo de que nossa mensagem seja aceita por sua beleza e poder de persuasão.
Há muitos que dizem o que não querem dizer, assim como muitos dizem exatamente o que querem que os outros saibam. Há muitos que são levados a refrear seus ímpetos e camuflar suas reais características para atenderem apenas a um comando, dentro de um contexto social. No fundo, o sentimento de desajuste como algo mal resolvido e uma espécie de conflito silencioso, acaba tornando a relação pesada e desconfortável, na tentativa de provar aos outros a todo tempo, que ele é o que requisitam de si, não o que é de fato.
Mas no aspecto cultural da educação, aprendemos que devemos ser maleáveis; falar a verdade com jeitinho, cuidar com o tom da voz, as expressões corporais entre outros aspectos que fazem parte do conjunto da comunicação interpessoal. Se considerarmos esses conselhos - não como fruto de um sentimento primário de amor ao próximo, mas como uma mera presunção por obter resultados pelo convencimento de que tivemos sucesso em nossas investidas -  naturalmente que em nós mesmos, diante do espelho da alma, estaremos em débito com a verdade.
A linguagem da comunicação é importante, mas o mais importante é acreditar no que estamos transmitindo, não apenas por ser conveniente sob o ponto de vista das boas relações, mas de que maneira nos relacionamos, por dentro, com aquilo que transmitimos.
Há um desafio muito intenso para que as pessoas sejam aceitas como são. As questões culturais e familiares exercem influência direta sobre a forma como seus membros se relacionam fora do ambiente costumeiro. Nem sempre devemos esperar que os outros nos comuniquem da maneira como esperamos, sob o ponto de vista do cuidado com as palavras; dos tons grosseiros ou de mal gosto. Neste caso, a reação é naturalmente de repulsa no aspecto convencional. Muitos se sentem magoados e atingidos por essas “agressões” verbais. Mas além de desenvolvermos a comunicação respeitosa com o próximo, precisamos criar em nós certa imunidade para que palavras “agressivas” não nos agridam. Isso não significa desconsiderar o que é dito, mas tentar entender por que foi dito e de que fonte veio. É importante entender que nem sempre recebemos de volta o mesmo tratamento que oferecemos. Aquele que consegue se entender, sem discriminar os demais por sua maneira diferente de agir, antes, desenvolvendo espírito de compreensão, possibilita a si mesmo acessar o indivíduo com dificuldade de relacionar-se e estabelecer uma comunicação menos traumática.


Se por um lado “a boca fala do que o coração está cheio” – pode nem sempre ser a verdade do que dizemos e sentimos. Há outro aprendizado que devemos obter. O coração pode ser mudado com o entendimento sobre a maneira distorcida como aprendemos a nos comunicar com base em nossas raízes e cujo comportamento se manifesta em nossas atitudes. O sentimento harmonizado entre o que pensamos, falamos e agimos, torna a nossa linguagem pura tal como somos de fato. Julgar  menos, informar-se mais; demonstrar interesse pelo outro e entender os pontos de suas limitações pode ser o começo para conhecer e fazer-se conhecido. Os mal entendidos ocorrem, em muitos casos, pela mensagem transmitida sem clareza, ou entendida segundo os julgamentos que fazemos, segundo o que interpretamos, de acordo com os nossos conceitos ou preconceitos. O importante é buscar o entendimento, perguntando no sentido de elucidar o que é necessário, evitando o confronto de maneira agressiva como uma forma de defesa.