segunda-feira, 27 de outubro de 2014

SOU LADRÃO PORQUE TODO MUNDO ROUBA


Esses  dias  dei uma palestra numa escola e falava de valores com os alunos, considerando que na vida nós temos que fazer escolhas. Mas por causa disso, muitas vezes escolhemos algo que não dá o resultado que esperamos, porque nem sempre olhamos os exemplos à nossa volta e desejamos ter as nossas próprias experiências. Falei sobre as referências de honestidade, de falar a verdade; de não ser complacente com as coisas erradas.
Fui surpreendido por um aluno que levantou a mão pedindo a palavra e o concedi. Ele perguntou:
-Mas todas as pessoas não cometem erros? A Dilma disse na televisão que todos são corruptos!
Sim. É  um  outro tipo de referência.  E aquela que ganha maior destaque na sociedade, acaba tomando o lugar de outra. Passamos a justificar-nos diante dos erros que cometemos, porque o outro também erra. Aos poucos, essas reações se tornam tão comuns, que admitimos aquela frase de muito tempo atrás: “Ladrão que rouba de ladrão, tem cem anos de perdão.”
Se  temos a consciência de que podemos cometer erros, é essa mesma consciência que deve ser usada para avaliarmos nossas tendências e refrear nossas atitudes errôneas.

O que pesa nesse ponto são as referências e em que baseamos nossas escolhas. Há sempre o outro lado da moeda que precisa ser considerado.
Onde a injustiça opera, quem erra é quem busca a justiça; onde a desonestidade impera, o inimigo é o honesto; onde a mentira tem lugar, a verdade é rejeitada; para o ladrão, errada é a polícia que atrapalha seu "trabalho."
Que  referências  temos sobre os valores com os quais fomos instruídos e sobre as quais a sociedade foi construída? 




Há muita gente cansada de nadar contra a maré. Mas há outros conformados a ponto de dizer: “O que não tem remédio, remediado está,” ou: “ruim com ele, pior sem ele.” E assim caminha a humanidade.

Em se tratando de governo, é possível que a sociedade seja nivelada por baixo, quando não existe vontade de resgatar esses valores já com suas bases estremecidas. É mais fácil deixar que cada um seja entregue à própria sorte; que crie suas próprias leis e que cada um brigue entre si mesmo por seus "direitos" com base em suas referências, de acordo com sua própria realidade. 

A proposta é desqualificar a verdade, desacreditar a honestidade; pôr em dúvida a decência. O propósito é acusar de inimigo todo aquele que contraria seus interesses.  

É esse tipo de pensamento que leva a presidente da república dizer para uma senhora formada e qualificada em sua profissão, fazer um curso técnico para encontrar vaga no mercado de trabalho. 

É o tipo de mentalidade que levou o ex-presidente Lula criar preconceito contra outro ex-presidente pelo muito estudo que tem, criticando-o por ter um extenso curriculum. Essas são as referências de hoje para a nossa juventude. "Não preciso falar inglês para ser presidente da república", entre outras pérolas que desconstroem a ideia de capacitação, desvalorizando os que buscam o conhecimento e o mérito pelo esforço pessoal. 
Para onde estaremos caminhando se concordarmos com  as explicações e justificamos nossos erros, só porque todo mundo erra? O que dizer para uma criança que roubou o lanche do colega? Que ele pode roubar sim, se está com fome, e porque o pai do colega tem mais dinheiro? Basta ter uma explicação do erro para torná-lo menos errado?
Parece que hoje não precisa ser bom, competente, correto, basta mudar a regra do jogo.

Nossos jovens tem aprendido que o crime compensa e que criminosos são exaltados ao mais alto grau da sociedade e tidos como "heróis" respaldados por uma geração de valores desconstruídos. Nunca houve tanto esforço dos pais para apontar os bons exemplos a serem seguidos. 

As coisas erradas não devem ser aceitas como regra, só porque admitimos nossa tendência para errar.
Nossa sociedade vive uma crise moral nunca vista na história. Os escândalos de corrupção, enriquecimento ilícito de governantes, já não chocam. De cima para baixo acaba se tornando uma referência, legitimando seus atos, sob o argumento de que assim outros fizeram.
Caminhamos para um abismo moral. Este é bem pior que as necessidades sociais, pois sem a referência do que é moral, justo e decente, tornamo-nos escravos e manipulados. Somos fisgados com a isca que usam para obterem o poder sobre os mais fracos.