terça-feira, 7 de outubro de 2014

CORRPUPÇÃO É ASSUNTO VENCIDO

Deus não teria colocado em sua lei o mandamento “Não furtarás” – se Ele não conhecesse a estrutura humana e suas tendências. A simples consciência dessa lei pode refrear qualquer tentação que leve alguém a se apropriar de algo indevidamente ou rever suas atitudes quando incorrer nesse tipo de delito. O ensino é necessário, muito mais o exemplo, diante das tendências humanas que podem evoluir para atos ilícitos se aliadas às suas necessidades. Há muitos que se corrompem - não por serem corruptos inicialmente - mas por serem necessitados com o agravante da falta de instrução, que os levam a costumes errados,e muitas vezes esses costumes não combatidos se disseminam (idiotismo cultural) que ficam acima da lei, impedindo-os de recusar determinada oferta. Por outro lado, usar a necessidade de alguém para fazê-lo cúmplice de ações escusas de corrupção, ganha dimensão criminosa. Mas há muitos que, mesmo necessitados, pelo fato de observarem  princípios morais e de respeito ao próximo, não se submetem a esse tipo de ação. Exemplo disso é o jovem, que sem o dinheiro da passagem pede ajuda ao cobrador do ônibus; diferente daquele que pula a catraca de maneira desrespeitosa e ato abusivo de enfrentamento. Há diferença entre a prática corrupta por deseducação ou desconhecimento, e a praticada por mau caratismo - por isso é preciso avaliar e não tratar todos os casos de igual modo como pretende o governo para atenuar as críticas sobre a prática dos corruptos por "profissão". Não se pode institucionalizar a corrupção só porque a defendem como uma tendência do ser humano. Quando o governo não age no sentido de refrear os maus costumes sociais, esses costumes acabam se tornando uma regra acima da lei, pois perde-se o controle. Assim buscam explicações e justificativas para esses atos na tentativa de minimizar suas responsabilidades.

Mas não se pode ignorar o exemplo dos pais para os filhos; do professor para o aluno; do advogado para o cliente; do comerciante para o freguês; do político para seus eleitores. O exemplo vem sempre de quem dependemos, daqueles que atraem as atenções. É desses a maior responsabilidade, aos quais devem recair a maior exigência e prestação de contas de seus atos, apesar de cada pessoa -até mesmo os subordinados - terem a liberdade de escolha, mas não haverá liberdade de escolha sem conhecimento que é o elemento chave que leva o indivíduo a decidir conscientemente. 


A Controladoria Geral da União, subordinada ao Governo Federal sugere que todos são corruptos ao divulgar material sugerindo que pequenas ações do dia a dia são atos de corrupção, como furar a fila, colar na prova, fazer ligações clandestinas, entre outras coisas. Por outro lado, a campanha não levantou questão sobre apropriação do troco do pão da vovó que o netinho foi comprar na padaria; gastar dinheiro que não lhe pertence, entre outras coisas que fazem mal diretamente a outras pessoas, que afetam a vida de terceiros. Ou seja, o órgão do Governo Federal quer dividir a responsabilidade da corrupção praticada por agentes públicos com a população em geral. Sem dúvida, os que ocupam maior escala na esfera da atuação humana tem responsabilidades sobre os que se submetem aos seus cuidados. Não se pode comparar a corrupção - pensada, articulada por especialistas em negociatas para burlar os princípios e a legalidade, buscando meios para atender a seus interesses - com as pequenas ações erradas praticadas pela população que tem mais a ver com a educação que recebe, que acaba se tornando uma postura de defesa diante das dificuldades encontradas em questões que deveriam ser resolvidas se a raiz do problema fosse atacada.  Os crimes são tipificados. Não se pode dar a mesma punição a quem furta um pão porque está com fome, a quem assalta a padaria.

Não se pode avaliar, por exemplo, que “colar na prova” seja um ato de corrupção proporcionalmente ao desvio do dinheiro que seria o troco do pão que a vovó mandou comprar. Uma coisa afeta a si mesmo, como o colar na prova – que, sem dúvida, custará seu conhecimento; o outro ato é contra alguém.

Uma coisa é alguém fazer uma cópia de música para ouvir porque não tem dinheiro para comprar um Cd; outra coisa é fazer cópias para vender e lucrar. Se colocarmos as “pequenas corrupções” como alega a Controladoria Geral da União, na mesma discussão da corrupção que o País reclama, a diferença é que a praticada pelas autoridades públicas beneficia a seus interesses, furtando o direito dos outros. Certamente o “fura fila” tem seu caso resolvido ali mesmo com a reclamação direta dos que se sentem lesados, o mesmo não acontece no âmbito da administração pública. 

Não é didática a campanha do CGU, nem colabora para que a corrupção seja combatida, pois acentua os pequenos atos, sugerindo que os grandes não poderiam ser cobrados pela maioria. Esses dias meu filho perguntou por que não conseguem acabar com os ladrões e os crimes, se a maioria da população não é criminosa? Ele perguntou isso ao observar as pessoas no supermercado, nas ruas andando tranquilamente em um cenário de harmonia. Por que uma minoria causa tanto medo? Se levar esse tema para o nível político, é um pequeno grupo que comanda grandes corrupções respaldado pelas atribuições do cargo que ocupa praticando desvios de finalidade de recursos que pertencem ao país, suborno para alcançar seus objetivos entre outras ações. Não se pode minimizar as grandes corrupções que afetam a vida de milhões de pessoas, de caso pensado, planejado, igualando-as aos que agem de maneira incorreta, até mesmo em momentos de desespero, como a tentativa de furar uma fila, por exemplo, pela demora no atendimento do serviço público.

Outra questão é a educação de berço; a educação escolar; os princípios religiosos e de valores humanos que o exemplo vindo dos governos tenta desconstruir, exatamente por suas ações que são vistas em larga escala, divulgadas pelos meios de comunicação, cujos atores se defendem, exatamente ao dizer que a corrupção faz parte da dimensão humana e que todos são corruptos, mas esquecem que essa consciência é o primeiro passo para combatê-la, não para justificá-la. Há muitos que se corrompem ou se corrompem por ignorância e entram em situações difíceis por falta de entendimento. Mas há os “profissionais” da corrupção, que tornam essas ações um meio de vida. Para esses há o rigor da lei, as determinações da justiça.

Não podemos permitir que os representantes do povo e seus órgãos representativos acusem o povo de corrupto para justificar seus atos de corrupção. Se a corrupção é levada de baixo para cima, como se sugere, aqueles que sabem o que estão fazendo, no meio do caminho é possível refletir e escolher desistir da intenção. Mas o interesse pelo poder é bem maior, a ponto de sacrificar uma nação inteira que é espoliada em seus direitos às custas da usurpação dos que exercem cargos públicos. Não podemos arrefecer nosso espírito combativo, mesmo tendo uma alma corrupta, pois quando – e se- isso ocorrer, estaremos irremediavelmente perdidos.

As “pequenas corrupções” do dia a dia são combatidas pela educação escolar, pela família, ao perceber traços de comportamento diferente nas ações dos filhos, mas todo esse trabalho é desconstruído quando as forças dominantes dão exemplos adversos em relação ao que se aprende e ao que muitos são levados a aceitar. Não podemos admitir governantes irresponsáveis, que chamam hipócritas os que ainda prezam pela moral e os bons costumes. Não podemos aceitar o nivelamento por baixo, sob o argumento de que temos que nos unir à minoria barulhenta, porque não podemos mais contra ela. Precisamos, sim, acatar os bons exemplos da lei, da ordem e da justiça, dos valores cidadãos, do respeito ao próximo para vivermos numa sociedade menos perturbada. A corrupção não seria discutida se os representantes do povo com a consciência que possuem de suas responsabilidades fossem um exemplo. Mas por não ser assim querem tornar o tema Corrupção um assunto vencido. Nós precisamos vencer.