sábado, 6 de setembro de 2014

A LEI DE DEUS REVELA O NOSSO CARÁTER

Foi chocante quando um jovem  replicou a ideia de que a Lei de Deus revela o caráter de Deus.  O ponto de partida foi o fato de que Deus não se enquadraria nas determinações da lei que Ele instituiu. A lei de Deus não faz efeito em Deus, porque o seu caráter é justo, puro, santo e perfeito, diante do retrato que a própria lei mostra a nosso próprio respeito. Nenhum mandamento de Deus se aplica a Ele, mas a nós. Portanto, Deus está acima de sua lei, por isso seu julgamento não considera apenas o que está determinado na lei que Ele apresentou à Moisés no Monte Sinai, que foi uma forma direta e didática de controlar e regular as relações entre as pessoas, sem nenhuma perspectiva de mudança de caráter do ser humano. As bênçãos decorrentes da observância da lei é um fato que se resume unicamente pela obediência. Mas isso não torna o indivíduo espiritualmente mais elevado ou privilegiado diante de Deus, pois só a obediência sem o conhecimento da essência de sua observância, pode resumir-se apenas num comportamento condicionado. 
A lei não nos leva à Cristo. A condenação da lei é a morte. O que nos leva à Cristo é o seu chamado.  Foi exatamente isso que Ele tentou fazer os fariseus entenderem. O cumprimento dos ensinamentos de Cristo nos leva a cumprir toda a lei, não o contrário. “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles, porque esta é a lei e os profetas”. (Mateus 7:12). Nisto se resume o amor a Deus e ao próximo. A lei sem Cristo é morte eterna. E a lei, com Cristo, perde seu sentido real de condenação.
Por outro lado, o fato de Jesus ter cumprido a lei não significa que essa lei instituída por Deus fosse extinta. A morte de Cristo foi a chancela da graça. A lei nos mostra o que somos diante da graça, o nosso caráter pecador, e o que a morte de Cristo significou diante da condenação da lei, porém, não nos retirou a condição de pecadores, e por consequência, enquanto houver transgressor, a lei terá vigor. Podemos considerar a lei como  o “caminho da graça”, é antecedente, um trecho percorrido. A caminhada da fé e da justificação em Cristo, nos afasta cada vez mais da condenação da lei, e quem foi alcançado pela graça superou a lei como um meio de se chegar à salvação.
A condenação da lei, portanto, é aplicada aos que vivem praticando o pecado, logo, estão sob o jugo da lei. A Bíblia fala sobre os praticantes da iniquidade, os que vivem segundo a carne e suas cobiças. E quem está em Cristo é nova criatura e não anda segundo a carne, mas segundo o espírito.
Se não houvesse lei alguma, cada um viveria segundo seu entendimento e suas conveniências, tratando apenas de seus interesses. Imagine se não houvesse a lei que regula a propriedade e que todos os “sem terra” resolvessem invadir e cercar seu território? Imagine se no trânsito todos dirigissem do jeito que achasse melhor?
Certamente aqueles que escapassem das reações e dos acidentes poderiam aprender com a própria experiência de vida. E essa experiência acabaria por abalizar sua conduta. As leis são criadas por causa do caráter do ser humano que se contrapõe aos direitos dos outros. Elas vão surgindo de acordo com a necessidade.
A lei de Deus foi instituída para mostrar a condição do homem, não apenas com base em suas possibilidades e inclinações para o pecado, segundo sua presciência, mas para garantir proteção aos que tivessem acesso à ela e a condenação para os transgressores, mesmo por desconhecê-la. A consequência do erro ocorre mesmo sem o conhecimento do transgressor de suas regras. Qual seria a consequência para aquele que adulterasse contra a mulher do próximo? No mínimo um crime passional como reação ao ato imoral. Mesmo que não houvesse a lei de trânsito, aquele que dirigisse desordenadamente sofreria acidente de percurso. Por isso a essência da lei não se resume apenas em suas determinações. Aqueles que pecam sem lei, também perecem. Esse é o grave problema do legalismo. O legalista está mais preocupado com as letras, com o que a lei determina; até que ponto pode errar para que não incorra nos rigores previstos da lei; onde está a brecha?
Esse é um dos pontos cruciais cujo entendimento vem apenas com a maturidade espiritual, pois, é mais fácil estar adequado a uma determinação legal, o que a lei prevê, apenas, sem nenhum entendimento de sua essência que ultrapassa comportamentos convencionais.  Jesus foi categórico quando disse aos fariseus que aquele que odiasse a seu irmão era o mesmo que cometesse um assassinato contra ele.  Aquele que desejasse a mulher do próximo (não precisava necessariamente cometer o adultério físico), já teria cometido o ato de adultério.
Tornamo-nos legalistas quando desejamos nos autoafirmar pelo cumprimento da lei, de nos acharmos superiores sobre os transgressores. Ora, que mérito há em cumprir a lei?  Se cumprimos a lei, fazemos apenas o que ela determina e não há privilégio nessa ação. É preciso ir além. “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, jamais verão a Deus.”(Mateus 5)
 Conseguimos ver a Deus pela manifestação de seu amor, como Cristo ensinou: “Se lhe pedirem a túnica, dê-lhe também a capa; se lhe pedirem para caminhar  uma  milha, caminhe duas”. A justiça dos fariseus era fria, sem compaixão, mas eles estavam cumprindo seu papel ao fazer o que a lei rezava. Quem os poderia condenar? (Mateus 5:40). Quando de maneira autoafirmativa e exacerbadamente exaltamos a lei, ao mesmo tempo estamos exaltando a maldição que ela representa ao apontar o nosso estado pecaminoso, esquecendo-nos de que é a cruz que nos justifica e que é o sangue de Cristo que nos purifica de todo o pecado. 
O entendimento do que Cristo revelou torna-se grande lição para avaliarmos a nossa conduta diante do que é a lei e do que é a graça. A lei jamais perdeu seu valor, pois ainda não superamos a condição pecadora, porém do mesmo modo, a Graça de Cristo age paralelamente como uma válvula de escape que a lei não oferece: “Porque o salário do pecado é a morte” Mas a vida eterna é o dom gratuito de Deus.  Se estamos debaixo da Graça de Cristo, superamos a condenação da lei enquanto permanecermos sob seus cuidados.  
Pelo caráter da lei somos condenados. Pelo caráter de Deus,  o  amor  revelado  por sua graça seremos salvos. A lei terá seu vigor até o fim, até que a morte e o pecado sejam exterminados para sempre,  mas se estivermos em Cristo, a lei não terá poder condenatório sobre nós.