segunda-feira, 18 de agosto de 2014

NÃO É PRECISO SER PROFETA

A SOMBRA DO PASSADO
Eu era criança e não tinha entendimento ou noção do que se passava quando enorme fila se formava em frente a um armazém, como chamavam antes o supermercado, onde minha mãe também comprava. Por diversas vezes eu fui com ela para ajudar a carregar as sacolas de papel.
As pessoas não escolhiam a mercadoria como se faz hoje nas gôndolas dos supermercados: pediam no balcão o arroz, o feijão, o macarrão, entre outros alimentos e produtos da cesta básica. E a conta era feita ali mesmo, no balcão, com cálculos feitos a mão, quando o atendente tirava detrás da orelha a caneta para calcular o valor da compra. Os produtos eram vendidos e colocados em sacos de papel e pesados na balança e o preço era fracionado.  Era nos anos 70. Certa vez ouvi falar que estava faltando feijão. E a fila enorme se formava de mães e donas de casa para comprar uma quantidade reduzida do produto. A realidade era que os que podiam mais, compravam mais quando era permitido; quem podia menos, comprava o que o dinheiro podia pagar.
Mais tarde ouvia dizer sobre a inflação. Quando a inflação era grande o poder de compra diminuía e era necessário cada vez mais dinheiro para comprar os mesmos produtos quando precisasse deles outra vez. Ainda havia receio quando o salário mínimo aumentava. Não era motivo de comemoração, pois a população sabia que tudo ia subir de preço.Tudo aumentava também, e o poder de compra sempre inferior às necessidades. Ouvi falar em especulação. Os comerciantes estocavam produtos para lucrar mais quando os preços subiam, e por diversas vezes ouvi dizer que o mercado estava “escondendo” o feijão; o café; o açúcar. O café recebia o apelido de ouro preto por radialistas por sua supervalorização.
Meu  pai  chegou a vender a casa da família para comprar uma outra propriedade maior e até a venda se concretizar, o valor do outro imóvel que compraria subiu tanto, que teve perdas irrecuperáveis. Foi quando passou a morar de aluguel e o dinheiro foi suficiente apenas para comprar um  automóvel Variant ano 1976 no valor de CR$ 75 mil cruzeiros no ano de 1979.  

O país vivia uma crise, mas não tínhamos a noção nem informação de que o que vivíamos era uma crise econômica, porque de fato a população acabava por buscar alternativas de sobrevivência e nunca nos faltou alimento, roupa ou moradia; nunca nos faltou escola de qualidade, pois naquele período as escolas públicas não eram como é hoje. Mas tudo o que tínhamos era dentro do que era realmente o necessário, sem desperdícios; sem gastos excessivos, pois não havia nenhum apelo consumista, pelo contrário.  Quando se tinha o dinheiro na mão já se sabia o que fazer com ele. Não dava para planejar algo futuro contando apenas com uma fonte de renda que era consumida do dia para a noite. Poucas vezes vi mudança de móveis em casa, pois os que tinham duravam; a mesa  com  08 cadeiras lá de casa durou até pouco tempo; geladeira, acho que foram apenas três e lembro-me bem delas. Não havia grande necessidade de ostentar mobílias sofisticadas ou outros equipamentos supérfluos, mas havia fartura à mesa, mesmo com toda a crise de especulação e desabastecimento. Era tudo de qualidade e de durabilidade. Os produtos a maioria eram nacionais. O que hoje custa caro no mercado, era comum na mão das pessoas de baixa renda: Tesoura Tramontina; sandálias Havaianas; calçados Alpargatas; Conga, algumas marcas que se tornaram produtos da elite, que antes estava nas mãos de todos. Calçados e roupas dos irmãos mais velhos passavam para os mais novos; as roupas danificadas eram consertadas; os brinquedos eram feitos por nós mesmos e não havia ambição porque aquela era a realidade comum e ninguém reclamava da situação. A grande motivação para vencer a crise era o trabalho. Lembro-me vagamente de uma peça veiculada na televisão em que aparecia pessoas em vários tipos de trabalho. Um homem assentando tijolos; o padeiro amassando a massa do pão; o entregador de pão na bicicleta de carga com aquele cesto de bambu coberto com pano de saco branco; o homem do campo na lavoura, e no final de cada cena cada um olhava para a câmera e dizia o bordão: "Fé na gente, pau na crise." O trabalho era o único meio apontado para que a população enfrentasse a inflação e cada função tinha seu respectivo valor. Houve tempo em que o ganho era sobre a produtividade. Isso estimulava o trabalho. 
Não havia a diferença que se vê hoje, em que avalia-se o poder aquisitivo de alguém pelo modelo de carro que possui. Antes, escolhiam-se os veículos pelo gosto, pela marca, não pelos itens de série que apresentavam, ou o desejo por assumir profissões mais rentáveis que as outras. O engraxate conseguia construir casa e sustentar família com o dinheiro de seu trabalho. A costureira, idem. Havia pessoas que deixavam de estudar para trabalhar e ficavam bem de vida. Muitos começavam com uma banca na esquina e montavam seu próprio comércio depois, apesar das crises. Quem se dedicava ao trabalho ficava bem financeiramente e o trabalho era o grande estímulo para as pessoas saírem da miséria. O trabalho era valorizado e a população conseguia viver a vida com a função que exercia. Mas conheci brasileiros formados que preferiam lavar pratos para ganhar dinheiro nos Estados Unidos.
A volta da inflação é um fantasma que pode assustar de novo, devido a realidade em que vivemos atualmente, numa sociedade movida pelo consumismo, recebendo créditos e financiamentos do governo sem a devida capacidade de endividamento o que pode levar a crises futuras. O país está gastando mais do que arrecadando, exatamente por financiar programas sociais e agir em outras frentes populistas, de interesses escusos, tirando da população a consciência sobre economia e finanças;  esbanjando energias por algo que não se sustenta num momento de crise.

A balança comercial brasileira, que é o resultado de tudo o que o Brasil produz tem fechado com déficit; o superávit primário, que é a economia que o país faz para arcar com suas dívidas internas, é cada vez maior para pagar os juros da dívida. É como se você tivesse uma dívida em seu cartão de crédito e pagasse o valor mínimo, criando uma bola de neve. Basta pesquisar nos índices econômicos para certificar que a população está de igual  modo  endividada e aumenta-se o número de inadimplentes. Isso reflete em todo o mercado que deixa de arcar com suas dívidas junto aos fornecedores porque não recebe de seus clientes. Não é preciso ser nenhum especialista em economia para entender que se o volume que sai do caixa é maior do que o  que entra, com o tempo os recursos tornam-se escassos e se não há outra fonte de recurso para reposição do rombo a bancarrota vem a cavalo. Por outro lado, é grande a taxa de juros e impostos, e o trabalhador trabalha cerca de três meses do ano só para o pagamento de impostos que não são revertidos em investimentos que a população carece em várias áreas, sobretudo saúde e educação. 


O Brasil não mudou. Ele está mascarado numa falsa aparência de progresso. Há esforços para manter essa maquiagem, pois a revelação pode custar interesses políticos eleitorais irresponsáveis, mas um dia a máscara cai e se o povo não cair na real, não há plano que segure o galope inflacionário que vem pela frente, exatamente por falta de uma política econômica austera que pense no longo prazo. Não podemos criar uma sociedade perdulária numa falsa sensação de prosperidade,  que aliás está com a dívida “pendurada no prego.”
 
Um fato que pode ilustrar essa questão é aquele homem que foi enganado com o resultado da loteria, e queimou todos os seus móveis, roupas e casa, com a euforia de ter se tornado milionário e que podia comprar tudo novo de novo. A conferência estava errada, e ele perdeu tudo. Como agora recuperar o que destruiu? Levaria bastante tempo de trabalho e esforço. É exatamente isso que acontece quando gastamos antes de ganhar. É preciso ter margem de segurança.


O plano real trouxe um fôlego inicial depois de muitas outras tentativas de controle da inflação, que foi construído de maneira consciente com interatividade e a participação da população que foi orientada como seria o processo de mudança da moeda.Foi uma ação de muita inteligência, estudo de viabilidade técnica e operacional. O atual governo aproveitou os ventos a favor da economia no momento em que tomou posse, mas como o filho pródigo desperdiça; não planeja; gasta desordenadamente o que já não tem mais em mãos; negocia o que lhe é essencial para cobrir outra necessidade essencial, como que equilibrando-se em corda bamba sem admitir o desequilíbrio. 

Feliz é aquele que acredita na força de seu trabalho e não espera do governo de pires na mão, mas que cobra desenvolvimento do pais com políticas progressistas, pois entende que o povo brasileiro é trabalhador; feliz aquele que planeja bem o seu futuro para não depender de aprovação alheia para se reerguer ou para manter-se firme em meio à crise; feliz é aquele que não está na fila do benefício social, mas aprendeu a sobreviver com seus próprios recursos. Feliz é aquele que sabe construir sua casa sobre a rocha, sem a ilusão da oferta da casa pronta sem saber de onde surgiu e quem a edificou.