terça-feira, 22 de julho de 2014

UM NOVO BRASIL



Achei graça de uma recente declaração atribuída ao ex-presidente Lula, de que “eles (quem?) ficam com ódio porque a empregada está usando o mesmo perfume da patroa e frequentando a mesma festa.” É muita mediocridade de um ex-chefe da Nação reduzir a discussão política do país com grandes possibilidades de crescimento e infraestrutura, ao uso de perfume pela empregada, como se fosse o ápice da realização de uma pessoa. Parece que afagar o ego dos “pobres” por discursos triunfalistas, pelo consumo de roupas e calçados de marca, de uma viagem de avião e idas aos shoppings tem funcionado. Sim. Funciona num país em que mais da metade é composta de analfabetos funcionais, sem a menor análise crítica do que lhe ocorre. “O que importa é ter dinheiro para comprar perfume.”



Esses dias fiquei surpreso quando precisei encontrar alguém para limpar um terreno. Era preciso fazer uma roçagem e poda de árvore. Onde encontrar? Perguntei pelas pessoas que antes faziam esse tipo de serviço. A resposta foi: “não está mais fazendo isso” – ele está ganhando o Bolsa Família. Melhoraram de vida? - não sei. O que há de concreto é que alguns andavam de bicicleta velha, e hoje sofrem com carros enguiçados na rua; outros que pediam um "servicinho" para comprar o leite das crianças, e que agora não precisam mais. Melhoraram de vida? Se governantes num país como o Brasil ainda  valorizam a política do arroz com feijão, é provável que não tenham feito a nação sair da base da pirâmide. Até quando?

Pode ser, como diz o Lula, que a empregada use a mesma marca de perfume da patroa, mas não se diz a que duras penas ela conseguiu isso, diferentemente da condição favorável da patroa que poderia comprar quantos perfumes desejasse. É uma discussão rasa. Muito rasa. Aliás, como disse certa vez o saudoso Brizola: "Lula é espuma; não consegue se aprofundar." Uma coisa é alguém conseguir crédito; outra coisa é a capacidade de endividamento. Uma coisa é comprar o mesmo modelo do carro do patrão; outra coisa é pagar seus impostos e manutenção. Pode até fazer uma "graça" jantando em restaurantes de luxo, mas pagar apenas a fatura mínima do cartão de crédito, deixando crescer a "bola de neve". Esse é o Brasil da "nova classe média" iludida pelos discursos oficiais; mergulhada em dívidas e inadimplência. 

Vivemos um Brasil assim, de aparência, de espuma, de superfície. Não tem saúde, mas tem celular para chamar a ambulância. Se ela vai chegar a tempo, não importa. Não tem educação, mas para quê, se a funkeira é pensadora e vira celebridade ovacionada por iletrados manipulados em nosso país?
 

Não sei se é um fato generalizado ou local, mas vivi época em que não faltava oferta de mão de obra. Alguém que batia em seu portão oferecendo algum tipo de trabalho. Aqueles meninos que precisavam ajudar em casa, gritavam para a minha mãe:

“Moça, tem algum servicinho aí para mim? Quer limpar o seu quintal?” – não eram crianças de rua, eram meninos, filhos de vizinhos que estudavam em escolas públicas, mas sabiam o valor das coisas. Onde eles estão? Subiram no degrau da escala social? Ou continuam surfando na espuma? Mas conheci muitos desses que se formaram e conseguiram ser alguém na vida, porque tinham sonhos. Pessoas honestas e decentes que aprenderam que a vida não é fácil; "nada cai do céu". 
As dificuldades podem levar as pessoas a buscarem um caminho para uma nova realidade. Foi o que muitos fizeram. De vez em quando o ex-presidente Lula aparece em público alfinetando as "elites." Ora, o que é elite para o Lula? É alguém ter alcançado com o trabalho pessoal e por mérito próprio alguma ascenção na vida? Esses são, de fato, os não manipuláveis pelos discursos populistas e paternalistas. Para eles isso não cola. A grande maioria dos ricos de nosso país cresceram na vida por seus próprios méritos, trabalhando duro, economizando; com projetos de vida e sonhos.

Mas parece que o patrocínio do governo tem levado a uma certa acomodação para aqueles que não conseguem sentir a fundo a necessidade, pelo menos no que diz respeito à comida. 

Ali ao lado, a mulher sem marido (ele morreu de ataque cardíaco por coma alcoólico em frente a um boteco) e com 7 filhos. A filha mais nova com 15 anos já é mãe; o menino mais velho vive na rua soltando pipa com os pequenininhos aos pés dele, descalços, mal vestidos, com remelas nos olhos e um pedaço de pão francês sem manteiga, mordido quase à metade. A mãe vociferando palavrões de baixo nível com os filhos, ameaçando-os com um pedaço de pau para saírem da rua, sem nenhum preparo para cuidar da educação de berço. A vizinhança diz que ela fuma e bebe e as roupas (boas roupas) e calçados que ganha para os filhos, vende em bazares e gasta o dinheiro com bebida.Ela também é assistida pelo programa social Bolsa Família do governo federal.

Esses dificilmente mudarão de vida, exatamente por falta de estímulo, de programas que funcionem de maneira geral que atendam, principalmente, não a necessidade por comida, pois essa é a parte mais cômoda para um governo, mas trabalhar as estruturas sociais, no que se refere ao acesso à educação, ao trabalho; estabelecer nos bairros núcleos de atendimento psicossocial que atendam a famílias fragmentadas e desestruturadas nesses aspectos. Como será o futuro dos filhos dessa família? É uma incógnita. Pode ser que a dificuldade os desperte para um "estalo" de que precisam mudar. Mas são crianças, dependentes de alguém que os encaminhe na vida. Sem uma boa referência na família até que se torne pessoas livres para decidir o seu próprio futuro, pode ter perdido muitos anos de busca.
Sem trabalho não há fruto. Nem futuro.

O que estimula alguém a buscar algo melhor na vida, não é a fartura, é a escassez; não é a bonança, é a tormenta. Isso muita gente vive e que chega ao ponto de entender que precisa fazer algo por si mesmo e por sua família.

Conheci gente que trabalhava apenas em troca de cachaça. O que uma pessoa dessa fará ao receber ajuda do governo? 

Finalmente encontrei uma pessoa. Um homem, 41 anos. Se desdobra em trabalhos braçais como pedreiro autônomo e consegue espaço na agenda para limpar terrenos, mas com cortador de grama elétrico. Ele me procurou montado em uma moto, nova, com ferramentas que carregava num bagageiro. Ao tratar o serviço, fomos caminhando juntos para o local onde faria o trabalho. E no caminho falou de sua vida:

"Meu pai era muito durão. Um dia ele disse para mim que eu não seria nada na vida; mas ouvi aquilo como um desafio. Ele disse que eu não dava para nada e eu respondi a ele dizendo que eu ia conseguir sim. Hoje eu tenho a minha casa, eu trabalho muito. Já comprei carro zero e tenho essa moto aí; quando eu termino o meu trabalho durante o dia, eu estudo a noite; vou para a escola terminar o ensino médio, e quero entrar para a faculdade, com o meu suor. Hoje o meu pai se orgulha de mim. A oportunidade existe, a gente tem que aprender a correr atrás para mudar as coisas."



É notório que a educação, o estudo escolar, em que crianças e jovens deparam-se com outra realidade e passam a entender a realidade do mundo e do que é preciso fazer para alcançar coisas melhores na vida, principalmente quando os professores são pessoas experientes, bem preparadas e orientadas para instruir esses jovens nesses temas extracurriculares. Os professores de minha época falavam sobre política na sala de aula, mesmo fugindo um pouco do conteúdo programático. Eles conversavam com os alunos; perguntavam como tinha sido o seu dia; aconselhavam os que diziam ter problemas. Era um ambiente amistoso, e isso não era ordem da escola, era do professor que passava suas experiências de luta e dizia: “Eu cheguei aqui hoje, porque estudei muito; vocês podem chegar aonde quiserem se estudarem.”  



Mas o que querem fazer do nosso Brasil? Os professores se tornaram refém; não podem sair do programa; tem que cumprir agendas em outras escolas, entre outras atividades paralelas para se sustentar. O governo não pretende ser “O pai” dos pobres, mas o tutor. E sob sua tutela, esse povo acaba se tornando refém por causa de sua necessidade e dependência. Assim esse circulo vicioso continua. 

No fim dos anos 80, conversando com o dono de uma farmácia que fazia anúncio no alto falante em que eu trabalhava, fomos interrompidos por um garoto:

-Moço, me dá um dinheiro para eu comprar um pão? 
O Tião da farmácia parou a conversa comigo e olhando para o menino disse:

-Você quer lavar o meu carro? Se você lavar o meu carro você vai poder comprar até mais que um pão. Deixa eu te dizer uma coisa: dinheiro é fruto do trabalho. Se você trabalhar, você tem dinheiro. Eu só tenho dinheiro porque trabalho. 

O menino saiu de perto de nós sem graça. 

Tião continuou e disse: "Está vendo? A gente precisa ensinar que o dinheiro é fruto do trabalho; essas crianças precisam entender isso."


Mas no novo Brasil é assim: aquele que conseguiu comprar um carro novo, não consegue pagar o IPVA e tem dificuldade para abastecer; tem um carro na garagem, aparelhos de celulares, perfumes e roupas de marca, mas é uma espuma, é coisa de superfície, pois lhes falta dinheiro e recursos para remediar situações imprevistas. É uma “elevação” de status superficial, sem nenhuma orientação sobre economia e finanças. O que eleva uma pessoa não são as coisas que adquire, mas a agregação de valores em si mesmo, que não vem por outras vias que não a educação, a boa formação, o desenvolvimento do senso crítico e analítico da realidade em que vive.

Há muitos hoje, respondendo ao pai como aquele menino:



-Filho, você prefere um bombom ou uma caixa?

-Uma caixa, pai. Claro que eu prefiro uma caixa.



Desapontado ao receber a caixa de bombons, percebeu que ela estava vazia.