quarta-feira, 30 de julho de 2014

A FRAUDE DA NOVA CLASSE MÉDIA



As aparências enganam, diz o provérbio popular. Isso se aplica a muitas áreas da vida. Há muitos troncos de árvores bonitos por fora, mas podres por dentro, que se revelam apenas quando vem a tempestade.  
A sobrinha, precisando de dinheiro emprestado, procurou a tia que mora do outro lado da rua: “Tia, me empresta 100 reais?” Não é uma mulher de grande poder aquisitivo, mas conseguiu com sacrifício e planejamento financeiro, terminar sua casa, uma das mais bonitas do bairro; conseguiu comprar um carro zero quilômetro. Essa é a aparência que leva os vizinhos a pensarem que ela tem altos ganhos. Na verdade ela é diarista, e sempre teve em mente o sonho de uma vida mais confortável, coisa que seus pais não conseguiram. No fim dos anos 1970, sofreu a amargura do que é perder a casa própria. O pai vendeu uma casa para comprar outra, e a inflação galopante desvalorizou o dinheiro que não foi suficiente para adquirir o novo imóvel para dar conforto aos filhos. Ao chegar à casa da tia e pedir emprestado, ela responde: “Não tenho esse dinheiro, minha filha; o que eu tinha eu gastei fazendo os freios do carro.”

Lembro-me de um samba enredo que ouvia sem querer quando criança, brincando no quintal com o vizinho ao lado ouvindo sua vitrola. Não me lembro de quem cantava e qual era o nome do samba, mas o intérprete, já nos anos 80, desejava “o leite sem água; a gasolina barata.” Em outro trecho dizia que no passado “a vovó guardava a poupança no colchão” como quem dissesse que muitos anos antes, ainda se podia guardar dinheiro e ele não perdia o seu valor de compra, antes mesmo do mercado financeiro dominar a economia.  Do samba para cá, o leite continua com água, e a gasolina continua cara; a população de baixa renda tem conta em banco, mas não tem dinheiro.
Se hoje as pessoas conseguem adquirir bens materiais é por fruto do trabalho e planejamento financeiro, que hoje se torna possível pelo controle inflacionário dos últimos 20 anos. Isso não é dado estatístico. É a realidade. Mas não é com facilidade. O cidadão ainda vive a insegurança financeira, tendo que trabalhar pelo menos 150 dias do ano só para pagar impostos. Quando está envolvido com a prestação da casa, reza para ninguém na família ficar doente. A coisa na verdade pode ter melhorado em parte para a população considerada miserável que não tinha o que comer, e agora tem, por subsídio do governo. Mas nada além disso. Não há maiores consequências positivas, pelo contrário: é cada vez maior o número de pessoas assistidas pelos programas considerados sociais do governo Federal. Isso é um forte sinal de que a vida da população não melhorou da maneira como alardeia a publicidade oficial. A saída de muitos da condição de miserabilidade foi apenas pelo fato de ter o que comer, isso é, sem dúvida, o básico; a base da pirâmide. Não justifica o auto aplauso do governo.  

Uma coisa é aumento do rendimento do trabalhador; outra coisa é seu planejamento para trabalhar com os recursos que possui, contando com o papel do governo de criar empregos e manter a inflação sob  controle. Isso não quer dizer que a vida do povo está melhorando, pois, o que se vê é que as aquisições materiais são restritas. É possível que o cidadão compre um carro zero quilômetro, mas seu endividamento o impossibilita de fazer outra coisa enquanto paga as prestações.  Mesmo que hoje se diz que o salário mínimo é o maior de todos os tempos, se você comparar o seu poder de compra, não dá para fazer as compras básicas de supermercado, com o que era possível há 20 anos para uma família de 4 pessoas. O salário aumenta, mas não aumenta o seu poder de compra. Não se pode considerar como um resultado positivo na vida do assalariado, apesar de o governo utilizar os números para provar que hoje o salário é maior que o que foi pago anos atrás. Mas o que se deve observar não é a quantidade do dinheiro, mas a quantidade que o mesmo dinheiro é capaz de comprar no decorrer do tempo.
Esses dias, o ex-presidente Lula tentando exaltar seu governo e cutucar “as elites”, da qual ele hoje faz parte, - a quem atribui as mazelas do país – disse que “eles” ficam com ódio porque “a empregada doméstica está usando o mesmo perfume da patroa e frequenta a mesma festa”. O que não se fala é sobre o esforço ou planejamento que essa empregada faz para adquirir coisas ao mesmo nível de sua patroa. Não se faz  análise, por exemplo, de sua capacidade de endividamento e seu poder aquisitivo em relação ao da patroa, nem de outras agregações de valores, sejam eles materiais ou educacionais que, tem um peso tremendo para a realização na vida de uma pessoa, pois o que conta em questões de crescimento pessoal, não se limita apenas ao consumo e no poder de compra de  produtos de marca, mas deve se estender às condições de trabalho, educação, o nível de escolaridade, acesso à saúde de qualidade, entre outros, que são deveres do Estado que deve cumprir com suas obrigações, cujos elementos são fatores para a ascendência na escala social, muito mais que a possibilidade de viajar de avião e comer mais carne de frango. 
O Brasil já falou de fome, que afetava  aqueles que não possuíam condições para adquirir alimentos e viviam à margem da desnutrição; também tratou-se da segurança alimentar, que é a possibilidade de a pessoa comprar o alimento que quiser, consumir o que escolher, não importa em que dia do mês, porque possui recursos para fazer o que precisa. É poder comprar o iogurte do filho, sem precisar esperar chegar o dia do pagamento do salário. "O pobre anda de avião", como alardeia o Lula, mas não diz que a inadimplência do consumidor bate recorde. 


Isso acontece em outras áreas também. Uma coisa é o cidadão se planejar para adquirir objetos, assumir compromissos com uma prestação; outra coisa é ter dinheiro para outras necessidades, mesmo gastando em outras áreas.

Aparentemente está tudo bem, mas a casa em que mora não está quitada; o carro que comprou não está pago, e o IPVA atrasado. Certamente pesquisa como esta não é feita com a população, para, pontualmente saber o que é realidade, e o que é número numa escala estatística. No fundo, vivemos sob o alarde político, de matérias fantasiosas de que a vida das pessoas melhorou. O que existe, de fato, é a vontade individual e o interesse em mudar de vida e, não é de hoje, que o brasileiro vive dessa maneira. Se há ricos no Brasil, trata-se de pessoas que lutaram e trabalharam para esse fim. O povo trabalha e o governo erra em usurpar o suor do trabalhador em discursos que não dizem a verdade. É só observar a sua vida, a do seu vizinho; dos moradores do seu bairro. O que mudou? Não passa da superfície. Porque ainda não vivemos em um país desenvolvido, e que ainda se ilude pela aparência, mas vive numa crise de identidade, apesar do endividamento com as clínicas de cirurgias plásticas. 


-Tia, me dá um carrinho de controle remoto no meu aniversário?
-Puxa vida, deixa para o próximo? É que estou pagando a prestação da prótese de silicone.


É possível que aquela pessoa que se esmera no trabalho para pagar a prestação do carro novo, ainda “conte moedinhas” para comprar o pão.