terça-feira, 1 de abril de 2014

REVOLUCIONÁRIO É DITADOR ÀS AVESSAS



A “ditadura” está dos dois lados. É quando se revezam que podemos conhecer melhor a face de cada ditador. 

Não importa de que lado esteja.  É do ser humano o ímpeto de  buscar justiça por diversos meios. Até a criança, ainda incontaminada pelas percepções dos adultos, luta por aquilo que entende ser seu. Buscamos e tentamos provar nossas razões e levamos para o coletivo, argumentando nossas propostas e criando nossas bases de apoio por interesses comuns. 

Quando não há acesso ao diálogo com os que estão do lado de fora, outras maneiras de agir são adotadas. É assim que nasce o terrorismo, as lutas armadas, pois o poder que domina, valendo-se de sua legitimidade “tem sempre  razão” e se utiliza de todos os seus instrumentos para proteger-se e fazer valer sua soberania. Assim o diálogo não tem vez.

Os que lutaram por liberdades viam-se cerceados em seus direitos, enquanto os que eram acusados de cercear o povo da liberdade  apresentavam suas razões e as defendiam do alto de suas cadeiras. Há intransigência dos dois lados. Ninguém arreda o pé. São razões consideradas "inegociáveis." Dois lados opostos lutando e defendendo-se. Dois lados apresentando suas razões e a legitimidade do ataque ou do contra-ataque.

Quando  o "poder' não admite seus erros e faz valer sua vontade em detrimento da necessidade de quem representa, tem característica de um poder ditador. Por outro lado, os que lutam contra esse poder, tem característica de ditador às “avessas” por estar do outro lado arregimentando suas forças. Eles também querem o poder, valendo-se de instrumentos e argumentos legítimos que sustentem sua luta.


O que há, de fato, é ação e reação. Os que atacam, são contra atacados. E quem está com a razão?

Lembra  daquela  briga de garotos:

-Professora, o Tonico me bateu...roubou meu saco de pipoca...


-Quem começou a briga?
-Mas eu estava com fome, professora. 

Quando o outro lado da face é oferecido no âmbito dos poderes, não há justiça. Há domínio. E a reação contra esse domínio tem contra-ataques. O que esperar?

Os de esquerda dizem que o "diabo" é  de  direita; os de direita dizem que o "diabo" é de esquerda. Os nem de esquerda, nem de direita, dizem que o "diabo" é de centro. Enquanto discutem e disputam o poder  sob  acusações trocadas, o verdadeiro diabo continua à solta. É a mediocridade da luta pelo poder humano pobre e manipulável que cega a razão.

Não dá para defender que um sistema é justo, se o privilégio de alguns, representa o sacrifício de outros. Mas a quem cobrar, onde o "jogo de empurra" prevalece e nenhum lado quer assumir suas responsabilidades? Quem é o responsável pela construção de um sistema que funciona assim de maneira orquestrada e organizada com peças que se encaixam perfeitamente aos interesses aparentemente ocultos.  Contra quem vamos lutar? Quem é o inimigo oculto por trás das necessidades básicas de um povo; quem é o inimigo oculto por trás da fome e da miséria? Teremos que destruir nossa casa? Nossos vizinhos? Pensamos ser o rico que trabalhou duramente para realizar-se na vida o culpado pela desordem e a desgraça alheia? Não existe lei que obrigue sermos generosos e humanos em nossas ações. Não existe lei que obrigue a dividir o pão, a ser solidário com o próximo. Aliás, não vemos ninguém fazer campanhas de luta pela generosidade, pelo amor ao próximo, pela divisão de bens. Por que se assim o fosse, o amor, a generosidade com o próximo, perderia seu real sentido. Seria administrado por forças externas da imposição. O que ainda se faz é a busca pela identificação de um inimigo que tem cara. E se damos a cara pra apanhar, também queremos uma cara pra bater. É esse o senso de justiça que aprendemos. Tirar do rico para dar ao pobre entende-se por "justiça social", ao contrário de ofertar ao menos favorecido o que realmente o pertence. Por outro lado, o pobre que aceita ser receptador do que pertenceu ao rico como sendo a ele uma oferta justa de um governo, estaria ele (o pobre) sendo justo? Criam-se as lutas de classes, exatamente porque não aprenderam a identificar o real inimigo. O derramamento de sangue dos que martirizaram e dos que se tornaram mártires, não valeu o preço pago. Por que as causas são imateriais.


Os instrumentos da democracia são físicos e de ações paliativas. É uma justiça manca e cega. Não pode julgar o que está além de seu alcance. Mas quem poderá julgar os desejos do coração? Quem poderá julgar o aspecto imaterial que move nossas intenções? Mesmo com razão de lutar por uma causa justa, seria justa a luta? As motivações e intenções são irrefutáveis sob o ponto de vista humano?

Como podemos defender como justa as ações de um governo contra manifestantes da ditadura, tirando-lhes a vida? Como podemos defender como justa ações de manifestantes contra o governo, do mesmo modo ferindo, roubando, matando, mesmo sob o argumento da sobrevivência?

Quando lutamos apaixonadamente por justiça, esquecemos que existe dois olhares, dois pontos distintos; duas causas; dois poderes: um poder legitimado pelo povo para representar o povo; outro, legitimado pelo clamor dos que se sentem injustiçados por aqueles a quem legitimaram no poder para representá-los; em algum momento não veem outra saída a não ser pela instalação da guerra, da luta armada... do vandalismo. Um governo sempre se levantará armado contra a sociedade, se essa sociedade se manifestar e agir contra o governo. Isso não é característica apenas de governos de esquerda ou de direita, porque com a posse do poder, o poder passa a ser de quem governa e o  aparelhamento do Estado será usado em sua defesa, sempre que sentir seu poder ameaçado. 

Ao mesmo tempo em que defendemos que alguma coisa precisa mudar manifestando nossas razões, não concordamos com o vandalismo por entendermos que são marginais infiltrados no meio de pessoas de bem. Mas na luta contra a ditadura também houve vandalismo e em escala muito mais perigosa com ameaça e deflagração de bombas; assassinatos; assaltos. Hoje os que alcançaram o poder, muitos deles, dos tempos da ditadura, do mesmo modo, por instrumentos legais, tentam impedir o mesmo. Quem não pode ver pela televisão jovens sendo presos acusados de depredação? Outros, acusados por mortes e instalação do terror?

Os dois lados continuam. Eles se revezam, mas os fatos se repetem. Seja no regime democrático, seja no totalitário, a razão sempre está com o poder. E ele sempre defenderá sua soberania. A “ditadura” está dos dois lados. Houve até quem disse que "democracia é a ditadura da maioria."É quando se revezam que podemos conhecer melhor a face de cada ditador e suas prioridades. Não há revolucionários no poder. Os revolucionários no poder, trocam de lado.