sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

SEU DIREITO, UMA CONQUISTA




E assim, vivemos numa sociedade que hoje sabe cobrar seus direitos pelo grito, pelas manifestações, pelos “rolezinhos”, criando situações provocativas aos que não concordam com seus métodos de exigência, sem entender que direitos, de fato, sobrepõem àquilo que tentam nos fazer aceitar como regra. 

Método é “meio” que se utiliza para chegar a um fim desejado ou sugerido. Os resultados não são um fim em si mesmo. Há um trabalho, um desenrolar para se alcançar aquilo a que  nos propõem ou propomos a nós mesmos. Na biologia o ciclo vital se estabelece com o nascimento, crescimento, reprodução, envelhecimento e morte. Há um passo a passo, há etapas a serem cumpridas.Quando perdemos de vista o sentido de que na vida há etapas a serem cumpridas, e que na vida social, dos relacionamentos; na vida estudantil e profissional e em todos os campos, perdemos também a noção do que é nosso direito por direito, em relação aos direitos que entendemos ou nos fazem entender que temos. Mas direitos e obrigações são dois elementos fundamentais para não perdermos o senso do nosso papel e do resultado que ele pode nos trazer.

Estamos diante de um cenário de modernidade, de um “crescimento” social e até mesmo de distribuição de renda, em que os objetos tornam-se alvo de conquistas por direito; que um tênis de marca, um celular, roupas de grife e tv por assinatura, dão respaldo para os discursos do enriquecimento da população, assim como viajar de avião e ter uma mesa mais farta. Aprendemos que "o nosso desejo é uma ordem". Quando tratamos essas questões como um fim em si mesmo, sem considerar os métodos e as fórmulas utilizadas para a conquista daquilo que se deseja, passamos a correr sérios riscos, principalmente quando percebemos que os exemplos educam a essa nova geração cheia de expectativas e faltas de preparo e conhecimento de seus deveres como pessoa plenamente atuante e participante de uma sociedade organizada. Os mesmos que promovem a abertura do consumo para todos – como sendo um direito - deveriam estar preocupados de igual modo com a questão educacional, que começa, principalmente no lar, depois, reforçada pela que recebe no âmbito escolar. Hoje, discute-se se “rolezinho” em shoppings e ambientes privados, é ou não direito da juventude sem opção de lazer. Quando caso como esse é levado para a discussão no âmbito do “direito”, é provável que estejamos longe do crescimento e mudança social que perseguimos; quando nossa acalorada discussão, gira em torno dos que constatam e contestam a realidade social como os culpados das ações dos outros.

Em sociedade, somos afetados por tudo o que ocorre a nossa volta, porém, é preciso entender que a responsabilidade é individual. Essa conduta tem a ver com o amadurecimento espiritual e educação recebida que de certo modo ajuda o indivíduo a refrear sua ira, a canalizar o descontentamento e crítica para proposições. Isso faz parte da construção do nosso caráter, dos valores que imprimimos em nós mesmos, não para fazer justiça com as próprias mãos ou nos sentirmos justos diante dos outros, mas para que a nossa vida em comum não seja motivo para a desordem, a desagregação e desavenças entre pessoas. 



Os  governos  tem suas responsabilidades em questões de infraestrutura, não só de tecnologia, em alta no mundo. Procure observar, hoje, nos grandes centros, se os hospitais que funcionavam há 20 anos tem capacidade para atender de forma digna o número de pessoas que procura atendimento. Procure observar nas escolas públicas hoje, a diferença que há entre as que funcionavam 20 anos atrás? Assim ocorre com o transporte público, com a questão ambiental, entre outros setores.Compare o número de habitantes no pais há 20 anos e veja quantos hospitais foram construídos nesse período; quantas escolas foram inauguradas; portos, aeroportos, ferrovia, estradas.

Há crescimento populacional sem o planejamento proporcional para garantir a oferta do que é essencial. Trocar infraestrutura por tecnologia é uma maneira cômoda de mostrar algum avanço; estimular o consumo e distribuir renda, talvez seja politicamente mais viável do que se preocupar com trabalhos  a  longo prazo. 
Há muitos que criticam o fato de haver condições de uma família humilde possuir eletrodomésticos, tv por assinatura, reivindicarem o direito de comer e beber, e viajar, e que por outro lado se calam na busca do direito de não pisar na lama quando deixam os portões de casa; que tenham transporte que funcione; que do celular ligue para a assistência médica e tenha atendimento digno nos hospitais e postos de saúde; que seus filhos tenham escolas dignas e educação de qualidade. E assim, vivemos numa sociedade que hoje sabe cobrar seus direitos pelo grito, pelas manifestações, pelos “rolezinhos”, criando situações provocativas aos que não concordam com seus métodos de exigência, sem entender que direitos, de fato, sobrepõem àquilo que tentam nos fazer aceitar como regra. Daí criam seus próprios conceitos sobre o que é preconceito e afins e a manifestação do diálogo propositivo não tem lugar, a não ser a reação do mesmo modo, da outra parte. O problema não é superficial sobre os quais discutimos. A questão da educação, a formação de caráter, as decisões e escolhas que fazemos, tem muito a ver com o que absorvemos do meio em que vivemos, mas não podemos esquecer que temos "vontades" e a nossa vontade precisa estar pautada no respeito ao que nos é direito e o que é direito do outro. E quem está trabalhando para que os direitos constitucionais da Nação sejam garantidos?  Não importa o grau que alcançamos na escala social, seja em questões políticas, sociais ou profissionais. Levamos conosco o que somos, onde quer que formos.  Mas olhando as experiências afora percebemos que ainda “crescemos” pequenos. Resumimos nossas conquistas pelo fim, não pelos meios percorridos e pelo tempo que a caminhada requer. Queremos ganhar, mas esquecemos que precisamos investir. Ainda menores nos tornamos, quando somos levados a acreditar que vamos depender apenas que os governos nos ofereçam o pão, sem entender que desde que o mundo é mundo, o “pão” sempre foi fruto do trabalho e que o trabalho dignifica o homem. E se aprendemos e vivenciamos pelas experiências ao redor, que assim não é agora, precisamos  rever nossos conceitos. Mas para os governantes, ainda é tempo de fazer seu povo acreditar que o governo é seu provedor. E isso tem dado certo, pelo menos na "superfície". E se ainda reivindicamos o que já é direito constitucional em nosso país, é sinal que não alcançamos, sequer, a base da pirâmide social.