quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O SHOW DE MILAGRES

As apresentações de supostas curas e milagres  tornaram-se verdadeiro espetáculo na  tela  da televisão. É assim que líderes religiosos chamam atenção para levar pessoas a seus templos em busca da solução de seus problemas. Para eles, "a mão de Deus" tem um lugar certo para operar, e cada qual diz que é nas reuniões que realizam. Parece haver uma disputa entre eles para mostrar onde Deus estaria verdadeiramente operando sinais e prodígios, passando a ideia de que Deus inclina-se para uns, e vira as costas para outros, ou numa visão mais agressiva, Deus seria um objeto de uso exclusivo daqueles que gritam mais alto, que alardeiam sob demandas agressivas que  foram escolhidos para aquela missão, mas escondendo a intenção de fazer do evangelho e da exploração da fé, um meio fraudulento em busca da riqueza material de seus líderes.

Multidões vão em busca da cura de enfermidades físicas
“Ele vê a doença no corpo humano”. Assim era a frase de abertura do programa de um missionário chamado Alves Machado no final dos anos 1980 no Rio de Janeiro. O  programa, limitava-se a exaltar o poder de cura do missionário, onde pessoas que se diziam curadas davam testemunho do suposto milagre alcançado. Nessa linha surgiram vários outros, como o movimento dos padres carismáticos que, como esses pastores, prometiam oração, exorção e cura, chamando seus ouvintes para as reuniões em seus templos, porque lá, diziam eles, o milagre seria operado. Lembro-me ainda nos anos 1980 do programa do RR Soares, que diferentemente de hoje, não tinha emissoras de rádio, nem recursos para bancar investimentos milionários com programas em rede nacional de televisão. Os espaços dos programas eram alugados. E, por meio deles, atraía pessoas aos templos, divulgando o endereço da bênção. Do mesmo modo, esse mesmo estilo de programa foi adotado pela Igreja Universal do Reino de Deus. O enfoque era a cura de doenças; quebra de maldições e prosperidade. Os testemunhos veiculados nos programas em que pessoas contavam sobre sua vida antes e depois de conhecerem a  igreja, eram utilizados como “iscas” para levar o oprimido, doente e sem esperança á suas reuniões.

Sofredores buscam o alívio de seu mal
Mas este tipo de Marketing da fé não é coisa nova, apesar de atualmente o Apóstolo da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago alardear que está sendo copiado ao abrir espaço para testemunhos. “Tem muita gente me copiando por aí. Mas para fazer milagre de verdade, tem que fazer como eu faço; subir o monte, sacrificar pelas almas” – disse recentemente. Em outras palavras: o milagre acontece de verdade, mas só em seus templos. “A mão de Deus” operaria somente ali segundo o que sugerem. Por outro lado, atribui a operação do milagre que diz ocorrer em sua igreja, vaidosamente ao seu esforço pessoal do "sacrificar-se" pelos outros, o que Cristo já fez por todos. Analisando bem, essa "pregação" chama a atenção para o homem, ainda mais quando presunçosamente diz não ser nada e, por outro lado, contradizendo-se, coloca-se no pedestal da exaltação própria quando diz sofrer pelos outros; jejuar e orar no lugar dos outros; receber o poder no lugar dos outros, para tê-los como "clientes" da fé. "Eu vou subir no monte e colocar o seu nome lá. Eu vou buscar o poder para abençoar você". Esse discurso acaba fazendo as pessoas sem conhecimento da palavra de Deus, pensarem que aquele homem é diferente, um santo, que fala com Deus. Leva pessoas a buscarem nele a solução, que do contrário não conseguiriam. 
 
Mas essa prática já era comum que eu me lembre. Já nos anos 1970, uma de minhas tias passava quase o dia todo ouvindo o programa de rádio “A Voz da Libertação”, do Missionário David Miranda, que diferentemente dos milagreiros atuais, nunca teve programa de televisão. Ela não era frequentadora da igreja,  mas era ouvinte assídua, inclusive atendia a todas as sugestões do pregador, como o pedido para colocar o copo com água em cima do rádio e bebê-la após a oração. Assim tornou-se colaboradora do programa, através de um carnezinho. A Igreja Pentecostal Deus é Amor, se autodenominava o “pronto socorro de Jesus”. Até mesmo na vinheta cantada do programa, na voz das filhas do Missionário, ouvia-se o refrão: “Igreja Deus é Amor, pronto socorro de Jesus, surdo ouve, mudo fala e o cego vê a luz”. O missionário atraía a todos pelo programa de rádio, onde se ouvia obreiros convidando os ouvintes para suas igrejas, divulgando os endereços onde eles receberiam a bênção. Grandes eventos eram anunciados. Caravanas vinham de todos os lugares. O líder da igreja chegou mesmo a ser acusado de charlatanismo. Houve até denúncias de que os "paralíticos" que andavam, na verdade não eram paralíticos, mas pessoas que representavam durante o evento. As "divinas" revelações, suspeitava-se que era algo combinado. Mas, muitas vezes, a cura se processava mesmo. O milagre acontecia mesmo e havia pessoas que receberam essa bênção. Mas o que mudou na vida delas? Ouvi certa vez o testemunho de uma mulher que disse ter sido curada de hipertensão. Segundo o que declarou, não podia comer sal. O médico a orientou a cortar o sal de sua comida completamente. "Agora eu como sal a vontade, posso comer sal quanto eu quiser" - disse ela, sendo aplaudida pela igreja. Ou seja: Ela foi curada, mas continuou usando sal em demasia, que segundo especialistas, retém líquido no organismo, podendo levar a problemas renais e a hipertensão. O que mudou? Recebeu o milagre para viver do mesmo jeito. Onde está a orientação: "Vá, e não peques mais" como Jesus disse à pecadora?

Mas era por promessa de que Deus estaria operando em suas reuniões, que muita gente sofrida, sem esperança, doentes e aflitas, iam  em busca da solução de seus problemas. Hoje, mesmo com a “concorrência”, a Igreja Deus é Amor segue a mesma linha: “cura e libertação”. Pelo que acompanhei, todos os outros movimentos de cura e libertação modernos, seguiram o estilo David Miranda, tanto por seu carisma, quanto pela linguagem simples que se identificavam com as pessoas comuns. 

Por um lado, percebemos a grande necessidade das pessoas, seja na área material ou espiritual. Não se pode negar que uma porta que se abre convidando a todos que sofrem e que querem ter uma vida próspera e abundante, certamente atrai os  que não encontram mais saída.  Por outro lado, a exploração  de líderes religiosos com a boa fé dessas pessoas. Eles se confrontam na tentativa de provar qual é o Deus que opera em sua igreja, como se Deus fizesse acepção de pessoas ou tivesse um representante exclusivo que intercedesse diante dEle. A verdade é que  nessas igrejas, “milagre” virou produto e, o nome de Jesus, garoto propaganda.



Jesus nunca alardeou as curas que realizava
Mas acautelai-vos. A palavra de Deus é clara. Só há um intercessor entre Deus e o homem: Jesus. Foi Ele quem disse: “Tudo que vocês pedirem em meu nome, crendo, recebereis”. Não há um lugar especial para isso, nem alguém autorizado a fazer isso por você. Jesus fala individualmente. “Se hoje você ouvir a minha voz, não endureça o coração”. Hoje, há tantos que se fazem ministros e se dizem necessários por suas ações, e por elas tentam dar legitimidade aos pedidos exorbitantes de dízimos e ofertas. Os milagres que apresentam, servem como moeda de troca, minimizando o impacto daqueles que de algum modo venham levantar alguma suspeita. E é esse o seu argumento. “Essa obra é de Deus. Ele nos aprova, veja aí os milagres” – defendem, e por meio desse discurso, emendam o pedido de ofertas para a obra ser mantida. E a pergunta é a mesma: "Quem te curou?" e mesma a resposta: "Foi Jesus" - contanto que seja o Jesus daquela igreja.  O Jesus da outra não funciona. É um show de supostos milagres e testemunhos que arrefecem o ânimo dos que tentam dizer que tudo não passa de fraude. Seria fraude mesmo?  Fica a dúvida cruel naqueles que não tem o conhecimento da palavra de Deus, nem o discernimento do Espírito Santo.

Ao olhar para a Bíblia e os milagres que Jesus operava, eu nunca li que Ele abria um salão para convidar pessoas para serem curadas. Nunca li que Ele pediu dinheiro, bens ou recursos de alguém para custear suas viagens ou manter seu ministério.  Jamais alardeou que resolveria os problemas das pessoas, mas fazia isso em silêncio por onde passava. Muitas vezes com a palavra, com o toque, com o olhar.

Acautelai-vos dos falsos pastores que tosqueiam as ovelhas sem nenhuma piedade, mas que fazem do evangelho fonte de lucros e negando a verdadeira fé.