domingo, 20 de janeiro de 2013

A SILENCIOSA FUGA DE UM ASTRO

“Acho horroroso ser um velho de Copacabana. A sociedade não aceita o velho; tudo tem que parecer saudável, vigoroso”. (Walmor Chagas numa entrevista à TV Cultura)

Walmor Chagas
Não faz muito tempo, muitos  puderam  acompanhar, orar e torcer pela saúde de Chico Anísio, que publicamente revelou seus problemas de saúde, cuja debilidade era notória em suas aparições na televisão. Atribuía ao cigarro o enfisema que trouxe consigo outras complicações durante o tempo em que lutou contra a doença. Sempre bem disposto, mesmo com aparente dificuldade, não se entregava. E foi assim até o fim. Amigos tiveram a oportunidade de dar o seu último adeus.



Com a apresentadora Hebe Camargo foi a mesma coisa. Sempre sorridente e otimista na maneira de encarar a doença, mesmo de peruca por causa da perda de cabelo pelo tratamento quimioterápico e mais magra, apresentava seu programa de televisão. O mesmo não aconteceu com o grande astro do teatro, cinema e televisão brasileiro  Walmor Chagas - que segundo laudo pericial residuográfico havia  vestígios de pólvora na mão do ator -  cometeu suicídio dentro de casa, atirando contra a própria cabeça com um revólver que mantinha para sua segurança numa fazenda onde decidiu viver solitário em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, distante da agitação da cidade. Quando não estava em gravações - que segundo o que declarou só aceitava participações em poucos capítulos – era para lá que se recolhia. “Acho horroroso ser um velho de Copacabana. A sociedade não aceita o velho; tudo tem que parecer saudável, vigoroso”.

Apoiado em bengala, dava mostras de sua debilidade
Walmor Chagas parecia mostrar sua  revolta com a velhice, supostamente pela exigência da sociedade de que o velho precisa parecer novo e bem disposto, o que não é privilégio de todos. Talvez, não queria viver escravo dessa mentalidade que se ramifica cada vez mais. Da fazenda onde morava, só saía para cortar o cabelo. “Só saio para cortar o cabelo quando ele chega no ombro” – disse numa entrevista, sempre com cigarro entre os dedos, tragando-o de vez em quando. O ator tinha um senso crítico aguçado, de um conhecimento e cultura de quem não só viveu, mas tirou lições de suas experiências.  Fez  duras críticas à televisão e às novelas. “Quando eu vejo novelas eu me pergunto como eu fui fazer isso?” – mas emendou dizendo que fazia novelas pra ganhar dinheiro e por isso, muitas vezes se sentiu prostituído. 
Uma repórter perguntou a ele faz algum tempo: "O que o senhor diria para os novos atores, os que estão começando agora?" - E ele respondeu: "Tudo o que eu disser não vai adiantar nada. Eles dirão: isso é pensamento de velho". Ele não escondia sua admiração pelo teatro e pelo cinema. Sua maneira  de  expressar, mostrava seu senso crítico e grande exigência consigo mesmo. Na solidão, recolhido, talvez passasse por sua cabeça todos os momentos de glória que viveu em sua carreira e, agora, tendo que conviver com uma doença que estava debilitando sua saúde. Informações dão conta  de  que  ele  já estava com dificuldade para andar, e quase cego. Fumante inveterado, o que demonstrava em suas aparições, sempre fumando um cigarro, sua doença pode ter sido agravada pelo vício. 
Diabetes prejudicou a visão do ator
Mas, o que seria de Walmor Chagas, se tivesse compartilhado com amigos o seu problema? Como seria, se ele tivesse falado sobre suas debilidades, abrindo-se para a vida? Como seria, se tivesse compartilhado o peso de suas preocupações? Talvez não curasse sua doença física, mas emocionalmente poderia ter tido mais força contra a depressão

Dele, não se ouviu nenhuma notícia de internação, nenhum boletim médico falando sobre seu estado de saúde; nenhum de seus fãs e admiradores  puderam orar por sua melhora ou recuperação. Ele mesmo, em silêncio, deu fim à própria vida. Assim como recluso e silencioso viveu seus últimos anos, assim foi sua despedida. Em seu velório, apareceu apenas a atriz Lucélia Santos, representando a classe artística.  Talvez por sua morte ter surpreendido a todos. Foi tudo tão rápido, num fim de semana, e fora do eixo que naturalmente gira os artistas. Walmor Chagas morreu em sua fazenda, numa cidade do Vale do Paraíba, velado e cremado na cidade de São José dos Campos. 

O que se passa na cabeça de um artista quando a doença o aflige ou quando não está mais em evidência na televisão e nos palcos de grandes espetáculos? O que se passa na cabeça de velhos atores, experientes, competentes, quando são substituídos por uma nova geração sem muito talento?

Seria vergonhoso ou constrangedor um “herói” aparecer debilitado para os que torcem por ele? Seria vergonhoso ou constrangedor um guerreiro permitir-se à substituição na guerra por dar sinais de cansaço?  Seria um ato de covardia ou de coragem admitir que não podemos mais lutar? Talvez assim pensemos porque aprendemos que temos que ser guerreiros o tempo todo e não admitimos que também podemos fracassar, mas isso não significa que fomos vencidos.
Infelizmente, todos vivemos numa sociedade de aparências. Criam-se padrões e critérios exigentes. Essa escravidão ideológica tem destruído a muitos, pois a tendência e a celeridade dessa mentalidade é muito maior do que a reflexão serena da importância da vida em detrimento das coisas que se cria e dos conceitos dominantes.  Esses conceitos, acabam despertando dentro de nós, o monstro do orgulho e do egoísmo, que nos fazem morrer silenciosamente, por não querermos admitir que não conseguimos, que não podemos mais. Por outro lado, não queremos aceitar o fato de  retomarmos o conceito simples da vida; de viver a nossa real verdade; encarar nossa realidade, nossas rugas, nossa fragilidade, nossa transitoriedade.Preferimos nos apegar a coisas ou a pensamentos, ou a conceitos que não nos sustentam na hora da verdade    

Talvez a crítica de Walmor Chagas faça sentido neste aspecto: “A sociedade não aceita o velho. Tudo tem que parecer novo e vigoroso”.

Isso pode explicar a vaidade e a busca pela “juventude eterna” de atores e atrizes veteranos; a mudança de linguagem e de perfil de comportamento para se adequarem à modernidade e ganharem admiração por estarem “antenados” com seu tempo. É preciso que todos nós estejamos preparados, não só para a velhice, mas para sair de cena também. É o caminho de todos nós, e esse caminho deve ser trilhado naturalmente com a consciência de que um dia a doença pode nos afligir, mesmo com os cuidados que tomamos; que o nosso padrão de vida pode ser alterado; que as portas pelas quais entramos não nos abrigarão por toda a vida. Na verdade, não queremos viver pensando que tudo tem seu tempo determinado debaixo do sol, quando o tempo é de chorar, não de sorrir. Quando é de derrubar, não de construir; quando é de morrer, não de viver. (Eclesiastes 3)

É preciso viver. Não devemos passar pela vida, absortos pela ilusão. Precisamos viver intensamente, sim, a cada momento, sem ansiedade, mas com pés no chão e olhar na eternidade, pensando no que vem depois. É preciso aceitar que a vida que vivemos nem sempre é a que gostaríamos de viver, mas é por ela que aprendemos e tiramos grandes lições, principalmente quando alinhamos nossos sonhos e projetos com os propósitos do Criador; é dela que daremos conta um dia quando teremos que responder: “O que você fez com o seu passatempo”?