domingo, 2 de dezembro de 2012

‘TE PEGO LÁ FORA’



        Ameaça é um dos agravantes do Bullying na escola


O nome ganhou sonoridade moderna, mas agressão na escola é algo que vem de longe. Os  que  hoje tem filhos na escola já foram vítimas ou presenciaram algum  ato de  violência entre colegas. Se, antes,  a frase “Te pego lá fora”  metia medo, hoje a prática da violência ocorre dentro dos muros das instituições de ensino. Deste ponto parte a preocupação de professores e educadores para identificar o problema e tomar providências para evitar maiores danos. Mas, não sei se pode-se comparar essas atitudes do passado, apesar de violentas, com as que acontecem atualmente. Ocorriam brigas, ameaças, mas quando elas aconteciam, surgia o "respeito". Parecia não haver o que ocorre hoje, quando o ódio é alimentado, que leva a perseguições continuadas. As vezes, o "te pego lá fora" só ocorria uma vez, e dificilmente havia revanche. O problema era resolvido. Se o caso era levado à direção da escola, havia respeito. Os pais se envolviam mais, eram mais participativos. As crianças dificilmente "respondiam" a uma correção ou a uma advertência dos professores ou dos responsáveis. 

Hoje, muitos motivos são encontrados para que uma criança enfrente violência psicológica, como ser levado à escola pelos pais, por exemplo. Crianças ainda com idade entre 12 e 13 anos, acham que é "pagar mico" ser acompanhadas pelos pais até a escola, exatamente pelo fato de que seu grupo de relacionamento escarnecem de tal atitude. Esses dias meu filho de 5 anos não quis deixar a mãe pentear seu cabelo no momento de ir para a escola. "Não quero que penteia meu cabelo. Os colegas riem de mim porque eles dizem que isso já era".
Na minha fase de escola era bem diferente. Eu estudei em escola pública. A merenda que eu levava de casa era pão com manteiga e não sentia vergonha por isso, pois era a realidade da maioria dos colegas. Meu material escolar, que se resumia num caderno de 8 matérias, inicialmente era levado num saco de arroz, daqueles de 5 quilos. Mais tarde, quando aumentou o número de materiais, meu pai fez um "imbornal" para mim, com um pedaço de tecido Jeans que antes foi uma calça. Eu nunca me senti discriminado nem "envergonhado" por causa disso. Talvez por ser a realidade da maioria dos meus colegas. 

Hoje, o  Bullying é praticado repetitivamente por aquele que é considerado o “valentão” da escola que intimida e ameaça principalmente os novatos, ou até mesmo aquele que parece mais fraco e inofensivo. O “valentão” acaba ganhando adesão de outros colegas  por exercer influência e acaba formando seu grupo que está sempre metido em confusão, muitas vezes sob seu comando.
Além das marcas físicas, o Bullying gera consequências emocionais e psicológicas muito fortes.

“Minha filha tremia, ficava inquieta, as vezes até chorava quando chegava a hora de ir para a escola” – disse Regina Louzada, mãe de aluno. Ela descobriu depois, que sua filha era ameaçada por  uma coleguinha que todos os dias queria seu lanche. Os prendedores de cabelo dela eram sempre puxados de sua cabeça por essa colega.  “Ir para a escola era enfrentar essa hostilidade todos os dias” – disse, acrescentando que comunicou o caso à direção da escola para que tomasse providências, até que a mãe da menina foi chamada pela direção para tomar conhecimento do caso.  “Esse  tipo de coisa não deve ficar entre os agredidos. Tem que haver participação dos pais e da escola para resolver o problema”. 
Apelidos pejorativos também são considerados Bullying pois  levam sempre à humilhação e danos psicológicos,  como lembra Alcy Romero, de 38 anos. “Eu tinha orelha de abano, e os colegas de escola me chamavam de Topo Gigio, que era um ratinho de orelhas enormes que aparecia em programa de televisão na época. Isso me deixava constrangido porque eu já tinha complexo por causa da minha orelha e só piorava a minha auto estima” – recorda, acrescentando que somente com a intervenção da professora que deu uma lição de solidariedade e respeito que a gente devia ao outro, que diminuiu a hostilidade.

FICÇÃO E REALIDADE
Richard Tyson e Casey Siemaszko 

Em 1987 foi lançado o filme ‘Te pego lá fora’ que mostrou  um duelo entre dois estudantes. Jerry Mitchell (Casey Siemaszko) é um tranqüilo e simpático colegial que vai entrevistar Buddy Revell (Richard Tyson), um colega recém-chegado, para o jornal do colégio Weaver, onde estuda.  Acontece que o cara é  um  brutamontes, tem fama de psicopata e, além disto, não suporta ser tocado. É exatamente isto que Jerry faz, assim Buddy o desafia para uma briga no estacionamento, às 3 da tarde. Até lá Jerry tentará de tudo para que esta "execução" não aconteça.  

A ficção retrata o que acontece na realidade. Não é raro séries e filmes na televisão retratar casos de violência na escola e como alvo dessa violência há sempre um estudante que parece mais fraco, fora dos padrões de beleza impostos ou que demonstre certas habilidades despertando inveja e acaba sendo alvo de Bullying.

Educadores tentam entender o que leva uma criança a tornar-se violenta na escola. Alguns consideram que crianças que são castigadas em casa podem desenvolver um comportamento agressivo. “Mas isso não é  via de regra apesar de ser importante” – diz o educador Enoc de Souza. Segundo ele, alguns alunos tornam-se agressivos por influência de fora, no âmbito de suas relações, por isso o educador defende que o papel dos pais é muito importante para corrigir isso. “As vezes a criança chega da escola com comportamento que não aprendeu em casa; com linguagem que os pais não usam; com atitudes agressivas que não correspondem ao que vê dentro de casa”.  Nesses casos, segundo Souza, é preciso que os pais procurem saber o que está acontecendo com seu filho fora de sua vista. 

Instrução religiosa pode ajudar a combater Bullying, diz educador


O capelão do Colégio Adventista de Londrina Pr. Edison Rossini Kreulich afirma que são desenvolvidos pela escola, projetos e incentivos de respeito ao próximo. Segundo ele, A concientização das diferenças entre as pessoas, em especial a religiosa faz com que seja desenvolvida a percepção espiritual, onde é enaltecida a dignidade única de cada ser humano.

"A imposição de limites é de maior relevância para a criança desde os seus primeiros meses".

De acordo com o Pr. Rossini é nesse período que a criança aprende até onde pode ir, aprende a respeitar autoridade, controlar impulsos e vontades, tendo comportamento adequado para cada ocasião. "Se ela vem à escola com esses elementos formados, o ensino acadêmico será cumprido com facilidade" - diz. 


Para o capelão, o comportamento agressivo seria reflexo da falta de amor, compreensão e respeito ao outro. "A instrução religiosa visa suprir essa deficiência tão comum na sociedade moderna, colocando o exêmplo de Cristo e Seus ensinos em evidência, fazendo surgir dentro do educando um sentimento de amor pelos semelhantes, como o que houve em Cristo que transmitiu que o próximo deve ser amado como se ama a si mesmo" - sugere. Segundo ele a agressividade poderá transformada em atos de amor e bondade a partir dessa consciência.