segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

“NÃO GOSTO DE PAPAI NOEL”



                       Até hoje não entendo a desconfiança que meu filho tem de “papai Noel”. Da primeira vez que teve contato com enfeites, iluminação, árvores e outras decorações, ele já tinha uns 8 meses. A chamada “magia e encanto” do Natal, ele via nas ruas, quando saíamos de casa, pois não tínhamos o costume de enfeitar nosso ambiente para essa comemoração como naturalmente ocorre nessa época do ano. Isso não fazia parte de sua realidade. Mas nunca falamos para ele algo que contrariasse os festejos.

Certo dia, numa loja de tecidos, estava o boneco do Papai Noel enfeitando o local, entre tanto colorido, luzes piscando; sons eletrônicos, árvores enfeitadas,  ele ficou com medo, ao mesmo tempo com olhar de espanto, ao mesmo tempo curioso como quem perguntasse: o que são essas coisas? Na verdade, estava fora de sua realidade, pois era seu primeiro contato com o que para ele era uma grande novidade.  Ao olhar para o boneco do papai  Noel, ficou assustado e quase chorou. A atendente da loja disse a ele: “está com medo? É  o papai Noel...”

"O bom velhinho" presença indispensável no Natal.
Com 8 meses, ele já pronunciava a seu modo algumas palavras, e disse para aquela moça: “Papai ias” – referindo-se a papai Elias, o nome de seu pai. Ou seja, do jeito dele, rejeitou aquele boneco como “papai”. Ele já sabia quem era seu pai. Papai Elias.




É uma lição surpreendente que podemos tirar de uma criança, praticamente um bebê. Todos nós nascemos livres, “virgens” de determinados conceitos, costumes e comportamentos. Para a criança, era uma novidade da qual rejeitou a sugestão de aceitar aquele boneco como papai. 


Pode ser algo simples e, obviamente como adultos, dizemos: “É óbvio que o boneco não é um pai de verdade”. E para a criança perceber isso, seria de igual modo óbvio. Mas escolhemos aceitar de maneira lúdica, na ilusão consciente. A gente cresce e acaba entendendo certas coisas, mas não importa ser de mentirinha. O importante é fazer parte. Com o tempo  amadurecemos, mas parece que temos necessidade de fantasiar, de nos apegar a algo que nos traga recordações, que nos enche de esperança e alegria; dos abraços, dos encontros, das confraternizações, da mesa farta, dos parentes reunidos, mas parece algo cada vez mais distante. Essa alegria perdura enquanto ouve-se os corais que encantam com seus  Jingle Bells na "santa noite"; a alegria é sentida, enquanto as lâmpadas das árvores enfeitadas continuam piscando, quando ainda se ouve os sinos das catedrais. No apagar das luzes, no recolher dos pratos à mesa; no recolher dos guardanapos ainda sujos do bolo de chocolate servido na ceia, a vida volta a sua cena real, no apagar das luzes de cores, no reclinar a cabeça ao travesseiro. É nesse ponto que voltamos ao olhar daquela criança. O olhar com simplicidade, mas real. Uma realidade que não dói, que  não ofende, que não machuca, simplesmente por reconhecer tudo o que de fato  faz parte de seu dia a dia. Mas crescemos e nos acostumamos. Todos os anos a mesma coisa. É cultural, é comercial, é algo que nos é familiar. Mesmo sendo uma grande fantasia, uma “magia”. Meu filho está crescendo. Hoje com 5 anos, ainda tem medo de papai Noel. Quando passamos perto de um boneco desses, ele desvia os passos, quer passar ao longe e perguntamos: “Filho, você tem medo de papai Noel?” E ele responde: “Eu não tenho medo, eu só não gosto dele”. 

Esses dias na escola um coleguinha perguntou: “Você acha que papai Noel não existe?” E ele respondeu:  “Eu  sei que ele existe, mas não é de verdade”.  

Período é rentável para "papais noéis" de Shoppings
Há muitas coisas nas quais acreditamos, mas não são de verdade. Precisamos, sentimos a necessidade de nos apoiar em algo que nos dê alegrias, mas não é de verdade.


Essa mensagem para mim é uma lição incrível. Como seres humanos temos uma tendência  de exaltar a criatura em vez de exaltar o criador. Valorizar o produto, não o produtor;  de dar honras a quem não honra.  Criamos estátuas, usamos amuletos;  nos apegamos a promessas de quem não as pode cumprir.  As vezes entendemos que tudo não passa de uma ilusão, mas não queremos deixá-la, pois ela nos faz bem. Alguns veem na ilusão algum motivo para acreditar, mas não em coisas de verdade. Mas são as coisas de verdade que nos  ajudam, que nos amadurecem, que nos ensinam a aceitar a nossa própria realidade a ponto de despertar em nós uma necessidade de mudança, de fazer diferente, de tentar de novo. Pode significar até mesmo andar na contramão, sem  atropelar os que vem em sentido contrário. Respeitando a todos, mas não deixando de revelar aquilo que realmente crê. Sem medo, assim como a criança, com sua sinceridade natural e com sua visão de vida sem os vícios que hoje muitos de nós alimentamos.  É um "vício" que parece não fazer mal. Mas é importante a recomendação de que não devemos trocar a verdade pela ilusão. E se não acreditamos na ilusão e vivemos nela, talvez não estamos sendo tão sinceros como um menino.