terça-feira, 18 de dezembro de 2012

“A IGREJA NÃO PAGA AS SUAS CONTAS”



             Antes de eu trabalhar no rádio, passei por muitas etapas. 

Fui locutor de serviço de alto falante, fiz liquidação em porta de lojas e tentei ser locutor de supermercado. 

Sempre com a cara e a coragem, sem indicação de ninguém. Foi assim praticamente em minha carreira. Apesar de ter sido bem recebido por onde passei e encontrado pessoas excelentes, o meu berço de relacionamento não foi de pessoas com influência que pudessem, de algum modo, me colocar em algum lugar, ou indicar-me para que eu iniciasse uma carreira, apesar de muitos demonstrarem interesse de me ajudar, se assim tivessem condição. Tudo foi com muito sacrifício, com persistência, vontade. Tentei ser locutor de supermercado por duas vezes. Primeiro num supermercado chamado Vistalegre. Passei no teste, mas não fui contratado. A segunda tentativa foi num grande supermercado, Sendas numa filial de Nilópolis na baixada fluminense. Passei no teste, mas não fui contratado. Não tentei mais, exatamente pelo mesmo motivo. Os supermercados precisam de locutores no sábado, e dificilmente liberariam um profissional neste dia, considerado pelos gerentes, como dia de maior movimento nas lojas.
Uma das filiais Sendas-RJ
Mas o teste  na  Sendas foi o que mais me marcou. Era uma loja enorme, um hipermercado, numa avenida principal  de Nilópolis-RJ. Quando soube que lá precisavam de um locutor, animei-me com a notícia. Procurei o gerente que me atendeu ainda num dos corredores da loja.  Me  apresentei  a ele como locutor e, enfaticamente, ele me disse: “Se você quiser tentar, pode tentar. Mas já adianto para você que reprovei todos os que passaram por aqui. Se quiser tentar, vamos lá em cima na cabine pegar o microfone”.  



Para mim não custava nada tentar. Apesar de ficar apreensivo com o que o gerente acabara de me dizer, eu havia saído de casa naquele dia com esse objetivo e não desistiria naquele momento, mesmo receoso pela exigência dele. O gerente pegou o encarte com as ofertas do dia e me orientou, também, que eu fizesse  promoções  relâmpago nas bancas de frutas na feirinha.

Alguns funcionários paravam perto de mim e me perguntavam: “de que loja você veio? Em que  filial você trabalhava?” – Na verdade eu estava em fase de teste, nunca havia trabalhado como locutor de Supermercado. O gerente de vez em quando passava perto de mim, andando devagar comas mãos entrelaçadas para trás, como  se faz  “revista numa tropa”. E eu continuava. Chegou a hora do almoço e subi com uma turma de funcionários para o refeitório da loja. Sentado ao meu lado, um dos funcionários me disse: “você está fazendo teste? Eu vi muitos passarem por aqui, e eu acho que você vai ser contratado”. Depois do almoço, o gerente me chamou em sua sala. Ao chegar em seu escritório, percebi que ele era um homem religioso e devoto. Sua sala tinha cheiro de incenso. Na parede, uma cantoneira com os santos de sua devoção, uma vela acesa e um copo com água. Bem atrás de sua cadeira, na parede, uma moldura com sua foto.

Sentei-me confortavelmente na cadeira em frente sua mesa, quando ele mexeu em alguns papéis, e começou. “Então... eu gostei muito do seu trabalho. Eu não fazia fé quando te vi, mas de todos os que passaram por aqui, eu gostei de você. Pode trazer seus documentos para você começar imediatamente”.



Fiquei feliz naquele momento. Seria uma grande oportunidade para mim. Mas tive que revelar a ele sobre a minha fé.


-Eu preciso então lhe dizer uma coisa.

-Pode falar, disse ele.

-É que eu preciso de liberação no sábado.

-Por quê? Sábado é dia de maior movimento na loja... eu preciso de você no sábado também.

-É por que eu observo o sábado como dia santo, como diz a Bíblia.

-Não é possível... se você me dissesse isso antes, eu não teria deixado você fazer o teste.



Ele parou um pouco, parecia pensar em alguma coisa. Pegou o telefone e ligou. Pouco tempo depois entrou na sala o supervisor regional.



-Eu aprovei o rapaz como locutor. Eu preciso dele aqui – disse ele  ao supervisor. Você não teria como remanejar um locutor só para fazer no sábado aqui?

-Preciso ver. Mas por quê?

-Ele não trabalha no sábado por causa de religião.

-Hum, isso é complicado. Mas vou tentar.



O supervisor saiu da sala do gerente e pouco tempo depois voltou dizendo:


-Não podemos fazer nada.

O gerente então tentou me convencer a ficar.


-Olha, tem tantas igrejas por aí, e você foi escolher logo essa que guarda o sábado? Por que você não vai para  uma outra que deixa você trabalhar no sábado? E se você pedir ao seu pastor para liberar você para trabalhar?



Fiquei ali ouvindo a argumentação dele, quando respondi:


-Não adianta, seu Damião. Eu poderia até mudar de igreja, mas o sábado como dia santo, está na Bíblia. Não é a igreja que ensina isso, é a Bíblia. Suponhamos que o meu pastor me libere, por exemplo, não vai adiantar, porque o sábado está na Bíblia, não é o pastor quem decide isso. É mais uma questão de fé e obediência ao que está na Bíblia do que de religião. 
A Bíblia revela a vontade de Deus para nós

-Sim, mas... quem vai pagar as suas contas? E se você estiver passando necessidade e não conseguir trabalho... a igreja não vai pagar as suas contas...
-Sim. Mas é apenas uma questão de fé, seu Damião.
Assim ele me despediu.
-É uma pena. Queria você trabalhando com a gente aqui.
Assim eu fui instruído pelo meu pai. Guardar o sábado é uma questão de fé e obediência a Deus. Está além da igreja. Eu, na prática, talvez não teria noção exata do que é o peso da responsabilidade de pagar contas, cumprir obrigações. Eu era solteiro, jovem, iniciante e certamente sem ter necessidade até então de um emprego a qualquer custo. Mas meu pai criou 9 filhos sem ter trabalhado um dia de sábado e nunca nos faltou o essencial para sobreviver. O gerente do supermercado argumentou corretamente, quando disse que há muitas igrejas que eu poderia escolher. E essa talvez seja uma inclinação humana, quando pretende se sentir bem, confortável numa igreja que se pareça consigo, onde pode fazer o que gosta, ou o que não pesará sua consciência pelo fato de estar seguindo as orientações de seus líderes. Mas fé e obediência aos mandamentos de  Deus, estão além da religião. A guarda do sábado não é "doutrina" exclusiva de uma Igreja como as vezes muitos são levados a pensar. A guarda do Sábado é uma orientação do próprio Deus e é tão importante que a Bíblia o descreve como sinal entre Ele e seu povo, em Ezequiel 20:12 e 20. O sábado é um sinal entre Deus e o seu povo. Por isso não é doutrina exclusiva de uma Igreja, mas a observância deste dia de guarda por um povo. Trata-se de um assunto interdenominacional, mas naturalmente, os que se baseiam na Bíblia para declarar sua obediência a Deus, tem no sábado um dia de deleite e de reconhecimento de seu Criador. É isso o que entendo hoje.