segunda-feira, 16 de abril de 2012

O DIA QUE NÃO ESQUECEREI


“Eu sofro de artrite e meus remédios acabaram; minha mãe fez 100 anos  na semana passada e não temos nada para comer em casa”.

              Quando cheguei a Governador Valadares, jamais imaginei a importância do trabalho que eu teria a oportunidade de realizar nesta cidade do Leste Mineiro, através da Rádio Educadora Rio Doce. Foram nove horas e meia de ônibus do terminal rodoviário Novo Rio, no Rio de Janeiro, até lá, quando descarreguei a pequena bagagem com algumas poucas peças de roupa no quarto do hotel Panorama, que ficava atrás da prefeitura. Ali, sozinho, diante do desconhecido, sem saber o que viria pela frente, sem ao menos ter um lugar certo para morar, pedi a Deus que me ajudasse naquela nova etapa da minha vida profissional e missionária. Fazia muito calor naquela noite de Agosto, 1996. Abri a janela para ventilar o ambiente, mas o mormaço pairava no ar. Liguei o ventilador para ajudar a aliviar um pouco mais. Foi uma noite mal dormida. Além do calor, a expectativa do trabalho  a  ser  realizado, a idealização dos projetos, o programa que apresentaria em substituição a um radialista muito conhecido na cidade, que dividia seu trabalho com outra emissora. Foi um locutor herdado da emissora que a Igreja Adventista adquiriu. Além de trabalhar  em uma outra rádio da cidade em programa popular, ele era também locutor da prefeitura que atuava como mestre de cerimônia em eventos especiais, além de animar o trio elétrico em eventos festivos. Era momento de transição. A Rádio Educadora Rio Doce, que passou a ser Novo Tempo teve sua programação reformulada aos poucos.  


Naquela noite acontecia um evento da prefeitura na cidade, com trio elétrico em alto volume; o locutor fazia a apresentação com muito profissionalismo e domínio. E eu ali, deitado, com ouvidos atentos ao que ocorria do lado de fora. Eu não sabia, mas aquele era exatamente o locutor a quem eu substituiria na rádio, no horário da manhã, pois ele já estava de saída da emissora. Naquela  rádio, Deus me deu várias oportunidades para tornar-me  tornar útil às pessoas que procuravam ajuda. Alguns casos me marcaram bastante e, pude com isso, ter a confirmação que o papel da comunicação no rádio vai muito além de um trabalho profissional artístico, e que Deus havia me chamado para essa missão.

Ela já tinha seus 74 anos de idade. Andando com dificuldade, apoiada por uma bengala de madeira, chega à recepção da rádio Novo Tempo de Governador Valadares-MG e diz à recepcionista: “moça eu preciso de ajuda, não tenho nada em casa para comer”.

Era meu último dia na rádio, outubro de 1998. Estava de malas prontas e passagem comprada esperando a hora do embarque  para o Rio de Janeiro naquela noite. Quando fui chamado  à  recepção para atender aquela senhora, meu coração ficou apertado com sua declaração: - eu sofro de artrite e meus remédios acabaram; minha mãe fez 100 anos na semana passada e não temos nada para comer em casa. Ela  é cega,  e vive em cima da cama- disse com voz embargada. Naquele momento perguntei sobre os filhos dela e a resposta me doeu ainda mais: -estão todos em Belo Horizonte e  não mandam notícias há muito tempo; não temos condições  de procurá-los - explicou. 
Depois daquela breve conversa, não demorou muito para eu voltar ao ar, e fazer um apelo por dona Bárbara. O quadro “alguém precisa de você” entrou logo depois da propaganda eleitoral para prefeito extraordinariamente, pois eu já havia saído do ar.  Nesse dia, o programa não recebeu nenhuma ligação para ajudar aquela senhora. Fiquei muito preocupado com a situação dela. Desde sua estréia, o quadro do programa nunca havia deixado ninguém sem ter seus problemas solucionados, desde pedidos de cesta básica, remédios, empregos a enxoval de bebê. 

Depois de feito o apelo no ar, voltei à recepção para falar com ela novamente . - A  senhora pode ir para casa. Deixe seu endereço comigo que vou levar seus alimentos mais tarde - prometi.  Ela agradeceu, com lágrimas nos olhos, e, levantando-se da cadeira, apoiada em sua bengala,  foi embora.

Não pude aceitar o fato de aquela senhora continuar sem alimento em casa. Não descansei enquanto não surgia uma idéia sobre o que fazer, diante do apelo infrutífero que havia feito minutos antes.  Peguei uma lista de telefone de nossos ouvintes que participavam todos os dias; liguei para eles pessoalmente falando do caso da dona Bárbara; fiz contato também com um supermercado que patrocinava a rádio e, comovidos,  todos prontificaram-se em  colaborar.
Eu, apresentando o programa Manhã Total. 1997

Com a ajuda de um comerciante que tinha um restaurante em frente à emissora, passamos nas casas dos ouvintes e no supermercado; enchemos metade da Kombi e rumamos para o bairro Mãe de Deus, uma área carente e sem muita infra-estrutura; o esgoto corria a céu aberto e crianças se divertiam descalças e sujas entre porcos, cachorros e galinhas em plena rua.  Quando dobramos a esquina do endereço que dona Bárbara nos informou, o carro teve dificuldade em subir aquela rua esburacada, com covas abertas provavelmente pelas enxurradas das chuvas. Ao chegar no final da rua, num local plano, avistei dona Bárbara. Estava ela sentada com uma vizinha, com os braços apoiados em sua bengala, com expressão desolada como se aquele dia anoitecesse sem ter a resposta que precisava. Ao pararmos em frente ao portão feito de ripas velhas, entre cerca de arame farpado,  a reação daquela senhora não foi outra senão reunir forças nas pernas já debilitadas pela artrite e sair gritando no quintal, adentrando a porta da sala: -Mãe, o moço da rádio veio nos ajudar. 

Ao entrarmos no quintal com as doações, os vizinhos vieram auxiliar. Dona Bárbara já voltava saindo da porta da sala ao nosso encontro e me levou ao quarto de sua mãe, magra, cabelos branquinhos e, sentando-se com dificuldade, encostando-se na cabeceira da cama, naquele quarto em penumbra, úmido, janelas fechadas, onde uma lâmpada fraca iluminava o ambiente. Ao lado da cama um criado mudo, um copo dágua e uma Bíblia aberta com folhas amarelecidas, como se agarrasse à fé. Seus braços  se estendiam como quem oferece um abraço. Sentei ao lado dela, e  a  abracei forte, demorado. Minha  mão em suas costas, sentiam sua magreza e as mãos dela em meu ombro deixavam clara a sua debilidade. Com voz trêmula e fraca ela disse: -meu filho, que Deus lhe dê muita paz e muita saúde, eu não vou me esquecer desse dia.  Naquele momento não contive as lágrimas. O meu último dia naquela cidade me marcará  para o resto da vida e jamais esquecerei.