domingo, 15 de abril de 2012

A LIDERANÇA EQUIVOCADA


A liderança equivocada
Há os que vivem  mudando os móveis de lugar  para encobrir os buracos na parede

         Lembro-me bem de uma história contada pela professora de comunicação e expressão quando cursava o ginasial.  Era a de  um tal de Américo Pisca-Pisca. Ele tinha o hábito de pôr defeito em tudo que estava à sua volta e criticava até a natureza. __Vejam só, dizia ele, apontando para uma árvore. _ Veja esse pé de jabuticaba enorme, sustentando frutas tão pequenas. Ao apontar para a aboboreira disse: _ Veja que frutos tão grandes esparramados pelo chão. Se eu pudesse reconstruir a natureza, eu faria o contrário.

Um líder jamais esconde seus defeitos
para forjar competência
É fato que todos desejam sair da mesmice, do que chamam de rotina e buscam por algo diferente. Certo dia eu estava zapeando os canais da televisão, procurando alguma coisa boa para assistir, algo raro ultimamente,  quando me deparei com uma cena de um desenho animado. Achei curioso o que estava passando e parei para assistir  a  cena  do personagem principal que havia sido colocado na máquina do tempo. Ao chegar no passado, esse personagem do futuro viu um homem pedalando uma bicicleta com muita dificuldade, com  “rodas” quadradas de madeira. Tentando ajudar, com seu próprio bico, começou a arredondar as duas “rodas” quadradas. Ao terminar, a bicicleta ganhou velocidade e esborrachou-se ao bater contra uma rocha, deixando seu ocupante ferido com estrelinhas circulando ao redor da cabeça. Minha esposa, que estava junto comigo assistindo àquela cena disse uma frase que me levou a pensar: “Ele conseguiu inventar a roda, mas esqueceu dos freios”.

Muitas vezes queremos fazer coisas diferentes e estar à frente do nosso tempo, queimando etapas que deveriam ser cumpridas. Em nossa vaidade,  queremos chamar atenção para as nossas propostas, sem considerar os desafios a enfrentar.  Fazer diferente só para sair da rotina e não ser igual aos outros, sem um propósito sólido e real, pode acabar em tragédia. Toda construção segura deve ser feita sobre uma base, dentro de seu tempo e espaço. É preciso responsabilidade nas ações. Em questões de liderança, são necessários cálculos sobre os riscos, e tudo o que for feito, seja feito sobre bases sólidas, observando as experiências à nossa volta. A roda já foi inventada; precisamos apenas faze-la rodar, mas não esquecer da manutenção dos   freios.
Há os que se equivocam nas ações.
Um líder não é aquele que é
servido. É aquele que serve. 


Todos os que têm o poder nas mãos de liderar, de promover mudanças devem ter objetivo, perseguir metas e há os que tomam decisões equivocadas, sem ao menos terem elaborado o plano B. Alguns são ousados, a ponto de correr riscos, e  realizarem  mudanças admiráveis em princípio. Mas isso não deve ser feito de maneira inconseqüente, sem calcular os riscos e planejar sobre como sobreviver caso suas investidas não funcionem como pretendiam. 

Há os que promovem mudanças superficiais; a preocupação é com a fachada, com a cor da parede, a disposição dos móveis, a aquisição de imóveis, e suas mudanças são até vistas, porém não levam, de fato, ao que é  importante, ou seja, o produto final, o que seus consumidores estão recebendo. As mudanças internas precisam ser percebidas externamente. E muitas, vezes, não conseguem sair porta a fora. Fica tudo em casa mesmo. Decisões erradas morrem no ninho; recursos são gastos em investimentos  que não alcançam os objetivos. Há os que trabalham como num laboratório de experimentos. Se der certo deu;  se  colar, colou.  Há os que mudam os móveis de lugar, por vezes, para encobrir os buracos na parede. O problema não é o local onde os móveis estão, são os buracos na parede.  Há os que vivem discutindo efeitos;  gastam-se  horas para tratar sobre o óbvio,  algo que só necessitaria de ações para acontecer.

Cada empresa tem seus líderes; cada líder tem seus liderados. É aí que começa o progresso e o crescimento de qualquer empreendimento. Primeiro, o projeto, as metas a serem cumpridas e uma equipe competente para fazer a roda rodar. Essa é a parte mais importante de qualquer empreendimento: o material humano. Todo investimento em máquinas e ferramentas não deve descartar a valorização da mão de obra. É ter visão para colocar seus liderados certos no lugar certo para desempenhar funções específicas que exijam conhecimento específico.   Todo crescimento desordenado não persiste. É como casa construída sobre a areia.

Tive a oportunidade de entrevistar um empresário do ramo da educação que atua na cidade de Campos dos Goytacazes no norte do Estado do Rio de Janeiro. À época, sua escola  completava  30  anos  de  atividades e somava 1.500 alunos. Perguntei qual a fórmula usada por ele para alcançar o sucesso no empreendimento.  Ele explicou que o crescimento começa fincando raízes. É com raízes firmes, profundas, que é possível crescer para os lados, para frente e para trás, para ganhar equilíbrio e estabilidade. Só depois, pode-se crescer para cima e construir com segurança. O empresário também revelou em sua entrevista que, quem começa grande, dificilmente ganha experiência para enfrentar os desafios  e  adversidades, a não ser que tenha um bom suporte ou parceria com empresas já consolidadas. É contratar bons funcionários, desde o faxineiro, valorizando-os. Ele encerrou dizendo que um time mal treinado pode derrubar o técnico. Para isso, ele precisa conhecer o potencial de cada um para que cada qual esteja em sua real posição.

Ouvi certa vez de um novo administrador que chegou para dirigir um hospital. Ao passar pelos corredores de UTI, percebeu que havia quartos vazios  com todos os equipamentos ligados, luz, ar-condicionado. Ele ficou bravo com  aquele desperdício.  Começou então a desligar os equipamentos o ar-condicionado e  apagou todas as luzes as luzes do local. Pouco tempo depois a enfermeira chefe chegou. Ao ver que os equipamentos estavam todos  desligados, ficou extremamente furiosa com o que viu e procurou saber quem havia feito aquilo. O diretor ainda estava no corredor e, com ar de supremacia respondeu: fui eu quem desligou, precisamos economizar energia. E prosseguiu - muito prazer, estendendo a mão para um aperto: Eu sou o novo diretor do hospital.  A enfermeira então respondeu: desculpe-me a franqueza, mas o senhor como  novo diretor do hospital, deveria saber que esses equipamentos devem estar ligados 24 horas.

Há certos equívocos em algumas escolhas de quem vai ocupar determinado cargo que necessita de pessoas com qualificação para a área, ou pelo menos humildade para obter informações sobre o funcionamento das coisas, que estejam fora de seu conhecimento. Pensar apenas em lucros e prejuízos, administrar uma empresa pensando apenas no fluxo de caixa, pode deixar outros setores desguarnecidos. Esse diretor de hospital poderia ser um bom economista.

Numa das campanhas para prefeito do Rio de Janeiro, um dos candidatos dizia: “Eu sei quanto custa a pedra, quanto custa a brita, o cimento e a areia. No meu governo não vai ter superfaturamento”. Ele era dono de uma importante construtora na época. Ter informações sobre o preço dos materiais é diferente de impedir um superfaturamento como ele sugeria em sua campanha. O candidato tinha conhecimento sobre construção, pois era um engenheiro civil e dono de uma empresa do ramo. Daí, a ser um prefeito bem sucedido em sua administração, há uma distância muito grande. Ele poderia ser um bom secretário de obras pela experiência adquirida.  

Há administradores de formação que nunca tiveram a oportunidade de dirigir uma empresa de verdade, onde precisam liderar pessoal; gerir e captar recursos para o desenvolvimento do negócio. Administrador que só trabalha focado  em  receitas e despesas de  recursos fixos, tende a estagnar-se.

Os que nunca tiveram que enfrentar o desafio de levantar uma empresa à beira da falência e resgatar seu crescimento  e  sua credibilidade, talvez não tenham experiência com as adversidades que circundam o empreendimento. As informações técnicas, na prática, podem funcionar de maneira diferente. É preciso mais vocação, visão e conhecimento do que o que se aprende nas apostilas universitárias.

Numa conversa que tive com um de meus anunciantes do programa de rádio, ele se mostrou preocupado com o futuro dos negócios dele. Ele tinha dois filhos e apostava no mais velho para dar continuidade aos projetos da empresa. Só que o mais velho mostrava-se um boêmio, já com seus quase 20 anos de idade. Vivia às voltas com as garotas, passeando de carro, torrando dinheiro nas sorveterias, restaurantes e bailes. Um fato curioso que ele contou: o filho mais novo, de 14 anos, era o seu braço direito. Era comum vê-lo na loja ainda de uniforme escolar e um jaleco sobre a roupa como todos os outros funcionários.  Ele saía da escola direto para  o comércio do pai. Sabia de cor os preços de todos os materiais disponíveis nas prateleiras; mostrava-se interessado em saber sobre fornecedores e preços praticados por eles e na ausência do pai ele tomava conta da loja com mais de 20 funcionários na época. Era ele quem estava na frente da porta, com sorriso reluzindo em seu aparelho ortodôntico, cumprimentando os clientes e encaminhando-os aos vendedores. Essa disposição estava no sangue, sem nenhum incentivo direto do pai, enquanto que as tentativas dele para que o outro filho mais velho se interessasse pelos negócios foram em vão. Hoje, esse menino é dono de uma rede de lojas do ramo de papelaria.


O líder está sempre disposto
a conduzir seus
liderados. 


Certa vez numa das empresas que trabalhei, houve mudança de um chefe de setor, e um dos colegas disse que o próximo seria como pipoca em chapa quente; faria a limpa onde tivesse gente sem fazer nada. Fiquei  pensando nesse  caso e  refleti. Não é necessário nenhum especialista para descartar o que está sobrando. Até nas brincadeiras infantis, os que estão sobrando, saem. É atitude óbvia. E um líder deve agir além do óbvio.  Por outro lado, uma empresa em crescimento contrata, não demite. É muito confortável demitir um funcionário sob o pretexto de conter despesas e, isso pode significar incompetência gerencial. O desafio que exige grande competência de uma liderança é fazer gerar recursos para que a empresa continue crescendo e contratando.  Um líder visionário, deveria, ao contrário, conhecer seus liderados, o potencial de cada um e como utilizá-los com sua força de trabalho e capacitação para desenvolver os projetos  da  empresa.

Se  numa empresa há gente ociosa, ou  atuando fora de sua especialidade,  é preciso rever  a  visão da liderança. A penalização de um trabalhador também pode ocorrer por omissão de seu líder em tomar atitudes para que a situação não chegue a esse extremo. Há muitos inocentes competentes  pagando o preço da inoperância gerencial e, uma liderança injusta nesse ponto, está fadada ao fracasso.