quinta-feira, 1 de março de 2012

“O ESPINHO NA ALMA”


A expressão dela estava sempre contraída. Não conseguia relaxar os músculos da face. Parecia um peso ocupando a região frontal da cabeça e,  com muito esforço,  tentava mantê-la erguida. Era a duras penas que se fazia parecer bem diante das pessoas, mas não conseguia convencê-las  de que estava contente. Ela sorria, mas seus olhos não brilhavam. Seu olhar parecia esconder grande sofrimento; por vezes parecia um grito silencioso de socorro.
Ela foi convencida a procurar tratamento psicológico, depois de tanto relutar, pois dizia que seu caso não tinha remédio e que sabia o que lhe causava esse sofrimento na alma, que a levava à depressão e uma dor profunda no peito que não passava.
O espinho só machuca quando o tocamos 
É preciso respeitá-lo.


Recorria a analgésicos, mas a dor não era física. Ela dizia que não precisava de acompanhamento de especialista, porque estava certa da causa de seu sofrimento, afirmando que preferia carregar esse peso como uma maneira de punir-se pelos erros que dizia ter cometido e, tudo o que sofria, fez por merecer. Mas mesmo assim, depois de muita insistência atendeu aos pedidos de pessoas queridas, que aconselhavam a ela procurar um psicólogo.
Começou a fazer terapia; e isso durou anos. Mas em si mesma, ela esgotava todas as possibilidades de mudança; ela não admitia perdoar-se a si mesma. Ela teve uma família linda; filhos; um marido dedicado; mas um caso extraconjugal, acabou com sua paz; engravidou e abortou para não trazer escândalo ao seu casamento. Ela tentou manter seu casamento após esse episódio, mas sozinha, em silêncio levava consigo o peso do erro cometido. Olhava para os filhos e o marido, mas não se sentia bem. O sentimento de culpa que sofria e a falta de coragem de falar sobre o assunto com o marido, tornava seu peso ainda mais insuportável. Não aguentou muito. Foi então que pediu o divórcio, dizendo que não amava mais o marido; mas no fundo, não era isso que ela queria. Ela desejava voltar no tempo para consertar o que fez. Precisava de uma nova chance. Mas como voltar? Como retornar nesse caminho cheio de bloqueios que ficaram para trás? Teria que reviver tristes experiências e sensações dolorosas, para remontar sua história. Impossível. O que ela tinha, era apenas o presente para o qual se fechou, mesmo diante de portas abertas para recomeçar. Mas até hoje ela não se perdoou. Sua vida paralisou, e vive em torno dessa dramática história. Apega-se a ela, como se fosse a maior prova de que um dia esteve viva e não soube aproveitar a vida; hoje, ela considera-se sem motivos para ter prazer nem esperança na vida. Nada a convence; nada a satisfaz; nenhuma palavra de conforto a conforta; nenhum argumento sobre perdãoé suficiente. Parece que tornou-se juíza de si mesma, decretando sua própria condenação.
Pagar penitência por um erro cometido, não elimina
o efeito do ato que nos condena. 


É verdade que na vida sofremos as consequências dos erros que praticamos. Mas, apegar-se aos erros e, tentar por meio da auto-punição pagar a pena, nada disso apagará o que foi feito. O orgulho, o sentimento de justiça própria podem acentuar ainda mais o sofrimento. A humildade em reconhecer que não somos auto-justificáveis e que precisamos de perdão e de nos perdoarmos, é que pode tranquilizar essa sensação de que temos que consertar o passado. Há coisas que jamais poderemos mudar; aceitar a Graça e o perdão de Cristo e nos sentirmos perdoados, pode não tirar por completo a nossa dor, mas pode nos fazer entender, que nada mais poderemos fazer por intermédio de nossos esforços. Talvez, com esse "espinho na carne" teremos que conviver a vida toda. É ele que nos faz lembrar o que somos e, por seus efeitos, entendermos que há sempre uma porta aberta para o nosso conforto; há sempre um remédio para aliviar a dor.