quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

"EU NÃO SEI O QUE QUERO"


Ele subia a rua, caminhando lentamente,  como se o tempo não lhe impoortasse mais.  Com seu corpo encurvado pela idade, apoiava-se numa bengala improvisada com um galho seco de árvore. Ao lado de um repórter que fazia um documentário sobre os remanescentes de escravos, ele dizia ter 109 anos de idade e, segundo ele, ainda trabalhava na roça "todo santo dia". Relembrava como em flashes de memória seus momentos de criança,  no período  em  que  seus  pais  e  seus  avós, serviam a senhores de escravos. Falou da dor e do castigo sofridos pelos seus ancestrais, de sol a sol, sob os olhares de feitores com chicotes empunhados nas mãos. Mas a idade e a dura experiência  de  vida,  parecia tê-lo tornado uma pessoa serena, quem sabe, anestesiada pelos calos d'alma devido os tempos de duros castigos e o amadurecimento do espírito. Certamente, essa disposição de espírito não se aprende noutra, que não na escola da vida. Pelo tom de voz com que falava ao repórter e pela expressão serena que, em alguns momentos, esboçava um riso tímido, apesar de enrugada pelos sinais do tempo, fazia-se notório o que a vida lhe ensinou.
Ao final da conversa, o repórter perguntou ao idoso cansado, como estava sua vida hoje,  e como estava sua saúde.
Os calos também ensinam e protegem. 

 - Hoje? Hoje eu tenho diabetes, graças a Deus! - respondeu.  O repórter ficou impressionado com aquela resposta. - Como o senhor agradece a Deus  pela doença? – e aquele ex-escravo acrescentou:
-Eu não sei o que quero, mas Deus sabe o que faz.
Foram palavras simples, numa resposta dada por um homem simples e sem estudo, um descendente de escravo, mas que mostravam nas entre-falas  grande sabedoria. Não sabedoria em agradecer por uma doença, mas por reconhecer a grandeza de Deus, diante de sua pequenez.
 Aliás, assim somos todos, quando reconhecemos que de Deus dependemos.
 Lembro-me de uma passagem do Salmista que diz: "...assim como a criança se aquieta nos braços de sua mãe, assim é minh aalma para comigo"...

É o espírito de aceitação das circunstâncias nas quais nos encontramos que nos dá serenidade para viver melhor em momentos difíceis. Pela nossa ânsia de nos livrarmos de situações que não queremos enfrentar, sofremos duplamente: por "espernear" como um ato de reprovação e, pela frustração, pois determinadas situações não temos como evitar.  O próprio cristo no momento de profunda angústia em seu "calvário" disse: "Pai, se possível passa de mim esse cálice, mas todavia seja feita a Tua vontade".  

Assim como a revolta do mar, a revolta da alma
é apenas estado de espírito. Nem sempre conhecemos
a causa. 

Aquilo que não entendemos direito, precisamos aceitar, pois não dominamos o que está fora do nosso controle. Quantas vezes reclamamos de algo que mais tarde, começamos a entender, juntando as "peças", montando o "quebra-cabeça". A verdade, é que individualmente, cada um de nós tem uma missão a cumprir; uma dor a sofrer; uma vitória a alcançar. Mesmo havendo necessidades comuns a todos, assim como necessidades e desejos, cada indivíduo precisa aceitar para entender, agir ou reagir, de acordo com suas percepções, não apenas físicas, mas sensoriais.  O desenvolvimento de um espírito inabalável, não significa insensibilidade, ou viver numa outra esfera ou dimensão, como se estivesse imunizado contra os impactos negativos da vida. Esse espírito "inabalável" tem um significado profundo, de que mesmo diante das adversidades da vida, é possível manter-se em paz - com a consciência de que os momentos vividos, são como um mar revolto, que alterna sua agitação com períodos de calmaria. Quando inclinamo-nos espiritualmente a enxergar a calmaria, além da tormenta que se abate sobre nós, a tempestade nos trará apenas lições de como sobreviver em toda e qualquer situação.
É por disposição espiritual que conseguimos visualizar a
calmaria além da tempestade. 

Aceitar, não quer dizer concordar, ou viver como se não houvesse saída. Aceitar é o primeiro passo para adotarmos um comportamento ou condição menos dolorosa. Aceitar que a nossa vida é instável. Aceitar que não somos perfeitos. Aceitar que falhamos. A aceitação diminui a ansiedade e nos faz refletir sobre a maneira como encaramos as adversidades da vida e de que maneira pode nos tornar pessoas mais seguras e resilientes diante das provas.
Não é a bonança que nos ensina. É a tempestade. Dificilmente aprendemos com a fartura, mas com a escassez. Tudo é válido, quando nos reconhecemos no todo. Não viva ansiando a bonança, lutando para antecipar o nascer do sol. Viva bem a tempestade! A ansiedade por dias melhores, rouba-nos as energias para viver os bons momentos que o amanhã certamente nos trará, se aprendermos com os conflitos de agora.

Que valor daríamos à alegria se não houvesse tristeza? São dois paralelos necessários enquanto a imperfeição for parte de nossa vida. Jamais desejaríamos a plenitude se já estivéssemos fartos de bens.