sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

QUANDO PERDEMOS O TREM...


O caminho está sempre aberto para a volta.
É a nossa decisão
que nos motiva a fazer o sentido inverso. 

Foi num domingo à noite, no verão de 1992, que experimentei um pouco a sensação  que vive alguém que não tem para onde voltar. Lembro-me de uma frase que disse certa vez o avô de minha esposa ao chegar em casa: “Coisa boa é ter um lugar para voltar”.  E isso o que ele falou eu senti, na prática. Entendi o que significa isso.

Nessa época, eu apresentava um programa de rádio na Solimões em Nova Iguaçu, e fui convidado por um pastor da Assembléia de Deus, que fazia programa na mesma emissora, a pregar em sua igreja, que ficava no 3º Distrito da cidade de Engenheiro Paulo de Frontin, chamado Morro Azul do Tinguá, distante mais de 100 km do  Rio de Janeiro.

Preguei para uma igreja cheia, fervorosa, pois a  programação daquele dia foi divulgada em vários lugares, além do rádio.

Ao sair, quase perdi o último ônibus que descia estrada abaixo, na serra esburacada e escura, ainda  sem pavimentação. Cheguei à estação de Paracambi, quando fui informado que o último trem, que descia para a estação D.Pedro II (Central do Brasil) já havia partido. O próximo voltaria a circular só às 04h da madrugada.

Não tinha o que fazer. Fiquei alí, no banco da estação e já passava da meia noite.  Era bem em frente a uma das principais avenidas da pequena cidade e, de onde eu estava, fiquei observando o que se passava do lado de fora das grades que cercavam a linha férrea. Aos poucos, o movimento foi diminuindo. Os últimos bares fecharam as portas. Os carros, aos poucos, passavam com menos frequência. Os que estavam estacionados à beira das calçadas, começavam a deixar o local. De repente, as ruas ficaram vazias. Poucos andarilhos sem teto, eram vistos falando alto, com garrafas de bebida na mão que lhes serviam de companhia.  Eles acomodaram-se num banco de praça logo adiante. Os cachorros farejavam os latões de lixo em frente às lanchonetes. Alguns deles foram deitar-se perto dos mendigos, que os acariciavam. 

O movimento foi diminuindo. E eu ali, sentado no banco da estação, contando as horas para a volta do trem.
Saber que temos um lugar para voltar
é sempre um alívio. 


E comecei a pensar: Eu sabia que tinha uma casa para voltar. Ali, no banco da estação, sabia que tinha uma cama para dormir; roupas para trocar.  A expectativa  do  trem voltar a circular era uma realidade. Mas o que me restava era esperar. Esperar o momento de embarcar de volta para casa.

Quão horrível deve ser viver ao léu; sem rumo, sem expectativa; sem esperança. O andarilho, talvez, adaptado com a vida que leva, tenta superar suas “dificuldades” com os meios que desenvolvem. Acabam fazendo das ruas o seu lugar; o banco da praça a sua cama; o céu, o seu teto - acomodam-se, pelo simples fato de aceitar a situação porque parece não haver outra alternativa. É assim que somos orientados. Se não podemos mudar, precisamos aceitar. Mas essa visão de vida pode até acalmar-nos em certos momentos; trazer-nos conforto, pois, se não podemos fazer nada para mudar, deixa de recair sobre nós o "peso" da responsabilidade. Mas, vivemos uma vida mal resolvida. Há sempre algo lá no fundo da alma que clama. 

Se pararmos para pensar um pouco, vamos perceber que todos  somos como andarilhos aqui, esperando que um dia encontremos um rumo. Parece que estamos sempre no banco da estação, esperando o trem chegar. E nesse intervalo, quantas vezes procuramos meios para vivermos com mais conforto, ainda que  não sendo aquilo que realmente desejamos. Algumas vezes, muitos se acostumam com a situação e criam até raízes profundas onde vivem, como uma maneira de sobreviver. Mas, de fato, isso não nos tira da condição  de  “andarilho”, porque não completamos a caminhada. Ainda falta alguma coisa. 

Nosso deserto pode até florescer e nos dar conforto.
Mas corremos o risco de parar a caminhada.


Assim, vamos “costurando”, driblando nossos problemas; tentamos amenizar os impactos dos empecilhos do caminho; fazemos amizade com o perigo, para que ele não seja tão assustador; consideramos amigo aquele que nos dá um pedaço de pão ou que nos oferece alguma oportunidade. Assim vamos sobrevivendo. E, de vez em quando, no momento em que refletimos sobre a nossa vida, percebemos que algo nos falta. É algo profundo, espiritual; um vazio que não sabemos explicar. E, diante disso, tentamos nos distrair, para passar o nosso tempo buscar alguma coisa que disfarce nossa carência e que alivie a ansiedade. Mas esse vazio continua gritando dentro de nós. Porque temos uma casa para voltar. Com o tempo, vamos nos esquecendo, acostumando-nos, criando mecanismos de sobrevivência, no momento da espera. Se por um lado, esse mecanismo de sobrevivência nos conforta, por outro lado, pode nos fazer perder a vontade de voltar para casa. Porque, certamente, todos nós possuímos a capacidade de adaptação  e  de  renovação e,  isso desenvolvemos exatamente por termos saído de casa pela primeira vez.  Por isso é preciso manter o foco, o propósito, o objetivo de voltar para casa. É esperar no banco da estação, sem se distrair. É manter no coração o desejo de voltar. Porque a casa está sempre no mesmo lugar. O caminho pelo qual saímos de casa, é o mesmo que está aberto para que voltemos. Podemos até encontrar o oásis no deserto desta vida, mas ele não representa o fim da estrada.