domingo, 8 de janeiro de 2012

PRA IR PRO CÉU, VOCÊ TEM QUE...


O trem da linha 33 Japeri estava lotado voltando da Central do Brasil. É muito comum até hoje, nos horários de pico, pessoas disputarem espaço melhor dentro dos vagões. É uma grande correria entre os que querem entrar primeiro. Alguns se acotovelam, esbarram-se uns nos outros; é comum  pisadas  no pé, e até mesmo gritos e xingamentos.  Quem está habituado com essa situação, já não estranha mais. Cada um acaba dando o seu jeitinho para viajar sem se importar muito com esse estresse do dia a dia.  
Em lugares considerados inapropriados,
muitos podem ouvir de Jesus


Foi num dia desses, voltando para casa, depois de terminar o meu trabalho na rádio em Nova Iguaçu, que entrei no trem, no momento em que os vagões eram esvaziados por passageiros que desceram naquela estação. Quanto mais o trem vai chegando ao seu destino final, mais vazio fica. Quem embarca nas estações mais próximas ao fim da linha, conseguem um melhor espaço, com mais conforto.

Vendedores que passavam de um vagão para o outro ofereciam de tudo: desde comprimidos para dor de cabeça, até biscoitos, pilhas para rádio e cortadores de unha. Entre esses “camelôs”, muitos pregadores do evangelho se misturavam, esforçando-se para serem ouvidos, falando em voz alta em meio ao tumulto do ambiente, e o barulho característico do trem com suas rodas  ruidosas  sobre os trilhos.

Eu estava ali, vivenciando aqueles momentos, até que chegava mais perto um homem de barbas longas, com uma roupa que destoava dos demais passageiros. Era uma espécie de túnica de cor bege, com um cordão amarrado na cintura.
Muitos leigos são criticados por exporem o evangelho
a seu modo nas ruas. 


Ali ele pregava, já com voz rouca e cansada: “Para ir pro céu, tem que parar de fumar, parar de beber, parar de  xingar  palavrão”...

Alguns olhavam para ele com ar de deboche; outros com desdém; alguns até se acotovelavam, chamando a atenção para o que aquele homem dizia e, repetidas vezes continuava o seu sermão, chamando atenção para as atitudes das pessoas como uma condição para se salvarem: “Para ir pro céu, você precisa fazer as coisas certas; não pode fumar, beber; não pode xingar palavrão.

De fato, eu fiquei muito pensativo sobre a fórmula que aquele homem usava para despertar a atenção das pessoas sobre o que deveriam fazer para entrar no céu. Certamente, estava repassando da maneira como aprendeu. 

Preocupação semelhante teve o jovem rico que procurou a Jesus para perguntá-lo o que devia fazer para ser salvo: “Guarde os mandamentos”, respondeu-lhe Jesus. Mas aquele homem conhecia os mandamentos e disse que já os cumpria. E, finalmente Jesus disse: ”Vá, venda seus bens e dê aos pobres, e terás um tesouro no céu”.

O conhecimento dos mandamentos, principalmente o amor a Deus e ao próximo, fazia parte da teoria de vida daquele homem. Mesmo assim, entristeceu-se  quando Jesus pôs seu conhecimento à prova: “Venda seus bens e dê aos pobres”.

Jesus, de certo modo, mostrou que o conhecimento e a teoria que temos, até mesmo determinado comportamento que decidimos adotar para parecermos bem diante das pessoas, não nos transforma na essência. 

A  Nicodemos,  Ele disse: “É preciso nascer de novo”.

Aí pode estar o grande segredo do milagre que passa a ser operado em nossa vida, por intermédio da graça de Cristo, por meio da qual alcançamos a salvação. O nosso primeiro  e último passo para a  salvação, é a nossa decisão de querer. Quem realiza a operação que transforma a nossa vida é Jesus.
A vida espiritual não pode ser definida por teorias
ou fórmulas humanas. 


Várias vezes nos deparamos com situação assim. Nosso comportamento considerado  inadequado, é colocado em primeiro plano, como um empecilho à salvação, no mesmo momento em que o cumprimento de regras de conduta, coloca-nos em uma situação melhor diante de Deus.

Aprendemos que para irmos para o céu, precisamos pagar penitências para alcançarmos por meio dos nossos esforços, a condição necessária para a salvação. A salvação não vem de nós mesmos. É pela graça, Dom de Deus.

Aparentemente, podemos deixar as práticas consideradas destoantes daqueles que seguem a Jesus e, até somos orientados a isso. Para alcançarmos uma vida digna numa comunidade religiosa, precisamos declarar que estamos de acordo com os pontos doutrinários considerados fundamentais  para   o  exercício  da  nossa fé e manter as boas relações institucionais e sermos reconhecidos como membros daquela comunidade por comportamentos compartilhados entre seus filiados, desde uma saudação diferenciada, a logomarca, o emblema; até mesmo os hábitos de leitura e outras orientações formalizadas por decisões institucionais.  Mas isso nada tem a ver com a salvação em Cristo. Não é isso que nos garante a Salvação. A salvação em Cristo não é tribal; não é exclusividade de grupos distintos que tentam se ajudar mutuamente a manter seus princípios inabaláveis por condutas que estejam apenas na superfície, na nomenclatura impressa nas fachadas dos templos.  

Primeiro a aceitação da nossa condição de dependentes da graça de Cristo. Essa é a decisão que cabe a cada indivíduo. É Cristo quem opera em nós, a mudança que precisamos. É o caminhar com Ele, que nos torna melhores a cada dia.

Todo o processo de salvação começa e termina em Cristo. Todos os métodos que utilizemos que fujam desse princípio e fim, são ações tolas pelos esforços meramente humanos e limitados. Todo o método ou maneira usada para nos aproximarmos de Cristo, se perderá pelo caminho e, afundaremos como Pedro, ao desviarmos o olhar do Mestre. 

Nenhuma fórmula religiosa; nenhum voto que fazemos diante de uma congregação; nenhuma  prática que faça ressaltar a nossa própria justiça e merecimento, devem estar em primeiro lugar, senão a aceitação de Jesus como nosso salvador pessoal.  


O fermento dos fariseus levedava a massa para que o sabor leve e suave do evangelho da graça de Cristo fosse alterado e se tornasse amargo. A leveza do perdão que Cristo oferecia,  era trocado por fardos pesados, difíceis de se carregar, por causa das fórmulas legalistas, que faziam com que a mensagem da salvação não fosse compreendida em sua essência. 
A morte de Cristo, rasgou o véu da separação, que impedia que pecadores  chegassem a Ele. Não devemos correr o risco de nos tornarmos fariseus modernos, tentando "recosturar" o véu do templo, tomando o lugar de Cristo como o nosso único Salvador e mediador diante do Pai.