segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POR QUE NÃO EU?


Ele saiu de casa bem cedo, como fazia todos os dias. Depois de preparar  seu próprio café da manhã, com muito cuidado e máximo silêncio para não acordar a esposa e os dois filhos pequenos, se  despedia  deles com com um beijo. Eles ainda ficavam dormindo, mas sempre esboçavam pequenas reações quando o pai se aproximava para dar um beijinho de despedida à beira da cama. A rotina era a mesma. Mas nem ele, nem ninguém imaginava que aquele dia marcaria para sempre a vida de sua família.

Ao sair para o trabalho e pegar o carro na garagem como de costume, percebeu um barulho estranho no motor e, como não dava tempo de deixar o automóvel em casa e pegar uma condução, resolveu ir assim mesmo, pensando deixar o veículo numa oficina próximo ao seu trabalho. Mas, no trajeto, o carro enguiçou e acabou provocando um grave acidente que quase o levou à morte. Com ferimentos graves foi socorrido a um hospital local, numa ambulância do serviço de atendimento de urgência. A notícia do acidente chegou à sua família poucos minutos depois. A esposa ainda sentia o cheirinho do café que seu marido fez; a xícara, mal tinha acabado de respingar totalmente a água da lavagem no escorredor em cima da pia da cozinha.  

O que ocorreria à ponte
se o caminhão não estivesse lá?
Ele recebeu alta depois de 6 meses hospitalizado. Com o  benefício da seguridade social, os recursos eram menores, mudando quase que totalmente a rotina da família, pois não tinham acumulado economias suficientes para custear todas as despesas. A esposa, com muita dificuldade, agora com o marido preso a uma cadeira de rodas, teve que trabalhar e, para isso, precisou colocar os filhos numa escola e creche em período integral.  Até hoje ela pergunta: "Por quê essas coisas acontecem?  Por  quê as tragédias mudam a vida das pessoas para sempre?"
Na vida, vivemos sempre em busca de respostas, mas parece que mesmo aparentando resposta confortante, não era bem isso que gostaríamos de aceitar. É explicação que muitos procuram, mas a resposta parece não satisfazer, exatamente porque não nascemos programados para aceitar tragédias. A quem culpar? A sorte? O destino? A Deus? 

A linguagem que as vezes ouvimos para tentar minimizar a dor, e trazer algum consolo, só colabora para nos conformarmos com o que não podemos mudar. O que fazer? Perguntam alguns. A vida continua, dizem os mais práticos. Há os que apregoam que todos tem a sua hora determinada. Os espiritualistas consideram que mesmo não sabendo os motivos, precisamos aceitar que foi permissão de Deus, e até contextualizam a passagem Bíblica de que “não cai uma folha da árvore sequer, sem a permissão de Deus”. Os espiritistas consideram que foi simplesmente uma “passagem”  dessa para uma “melhor”, para um plano superior. Outros argumentos consideram até que os que morreram estão no céu, ao lado de Deus, olhando por nós. Não é raro ouvirmos que alguém morreu vitimado por uma bala perdida e, algumas correntes religiosas crêem que não existe bala "perdida", e que o projetil teria sempre um destino certo, no momento certo, para a pessoa certa. Outros procuram tirar "lições" das tragédias, fazendo uma introspecção de sua vida, imaginando se o fato lhes ocorresse, como estariam no momento. Outros dizem que essas ocorrências servem como um despertamento para cada um de nós reconhecer nossa fragilidade. 
Tragédia "anunciada" poderia ser prevenida?
Mesmo assim não estamos livres dela. 
O que não podemos negar, é que sempre recorremos a argumentos ou aceitação de idéias que nos confortem e que arranquem o pesar do coração, mas nada de concreto temos a não ser uma crença que conforte. Uma crença no invisível, em algo fora da nossa esfera de entendimento.

A aceitação daria um efeito analgésico para a alma, como um paliativo para convivermos com a dor, porém, sem o controle sobre sua causa.   Sejam  quais forem esses argumentos, contraditórios ou não, sob os variados pontos de vista e crenças, são meios  utilizados numa tentativa de  aplacar um pouco o sofrimento. 

E é proporcionalmente à maneira como se acredita, que naturalmente, como seres humanos, vamos tentando ajuntar nossos "cacos" pela estrada afora e nem sempre conseguimos recuperar o que perdemos completamente. No dia a dia,  vários casos ocorrem ao nosso redor. Quantos escapam da morte e  graves acidentes em frações de segundos, exatamente por não estarem no momento em que uma tragédia se abateu. Outros, simplesmente por não estarem no local costumeiro no mesmo dia e hora em que acidentes acontecem, nada sofrem. Mas quantos casos semelhantes em pequena ou grande escala podem estar acontecendo exatamente neste momento? Quantos escapam e quantos morrem? Mas é isso  que torna uma pessoa mais protegida, seja lá como acreditem pelo destino, pela sorte ou por Deus? Fatalidades ocorrem todos os dias e vivemos num ambiente propenso a isso: o trânsito, as construções, catástrofes naturais, as possibilidades e probabilidades de acidentes de todo tipo, seja  por falha humana, negligência, desatenção ou outros fatores determinantes, exatamente porque extamos expostos a isso, mesmo prevenindo. Prevenção não significa proteção. É a parte material e física que depende de nós.   

E, quantas vezes, não estamos na hora e no lugar que costumamos estar, e nada de extraordinário acontece e, nada, também, podemos provar que aconteceria se estivéssemos lá. Quantas vezes vamos e voltamos do trabalho e tudo ocorre dentro da normalidade, mesmo sendo espectadores de fatalidades ao nosso redor?

No ambiente em que vivemos,
as falhas de uns, de algum modo,
interferem na vida de outros.
Por que o outro e não eu? Para quem vive o drama, e para quem escapou ileso, é confortante dizer: “Deus olhou por mim”. E é importante crer assim. É confortante alívio quando vemos diante de nós, algo que consideramos miraculoso, atribuído a algo sobrenatural diante de um livramento. Mas o que dizer do outro? Deus o teria abandonado? 
Não creio que  há algo de especial nisso. O fato de alguém voltar para casa, exatamente antes de uma tragédia se abater no local onde estava,  talvez  não  teria muito a ver com proteção do além. Se o assunto for levado para o âmbito espiritual, Deus não haveria de salvar a uns e permitir que outros morram. Mas, nesse pensamento, caberia o que disse o Sábio Salomão: “a sorte  e o destino  estão sujeitos a todos”. 
Há algo que podemos prever e prevenir, mas nem tudo depende de nós; há muitas questões que fogem ao nosso controle. As interrogações são muitas. Não temos resposta. Por isso costumamos dizer, que todos estamos sujeitos a isso. Mas a palavra diz que "para Deus, a noite e o dia são a mesma coisa. A altura e a profundidade para Ele não faz diferença". A vida e a morte estão nas mãos dEle. 
Tudo está em Deus. Importa é saber como estaremos diante dEle no momento em que a nossa jornada aqui se encerrar. É nisso que vale a pena pensar.