segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O QUE ME IMPORTA O MEU PASSADO?


Ela ainda se recorda de quando era criança. Seu pai chegava em casa bêbado, gritando com sua mãe, vociferando palavrões. Quando surgiam as brigas e agressões físicas, ela se encolhia no cantinho do quarto, agarrada à sua boneca de pano que ganhou da avó, com tanta força, como se o brinquedo lhe trouxesse alguma segurança. Era sempre a mesma cena  quando o pai chegava. O medo e o terror entravam com ele porta adentro. Ela foi crescendo nesse ambiente, até que ficou adolescente. Começou a namorar um rapaz que morava na vizinhança e, com o namoro, o seu tormento. O pai, muito violento, não aprovava o namoro da filha. Disse que se a encontrasse com o namorado não teria idéia do que seria capaz de fazer. A mãe tentava remediar a situação. Mas a opinião dela não valia muito. Pelo contrário, só instigava ainda mais a  ira do marido. Depois dessas discussões,  ele  saía para os botequins e bebia até  altas horas, quando voltava novamente para casa completamente bêbado.

A filha já não suportava mais aquela situação dentro de casa. Os dois outros irmãos dela, já haviam saído de casa por causa dos  maus-tratos do pai. Ela pensou fazer o mesmo, mas tinha medo de deixar sua mãe sozinha na mesma casa, sob ameaças constantes. Ela pensava que estando em casa com a mãe, poderia ajudá-la em caso de necessidade.

Essa realidade reflete passado mal resolvido
Foi numa noite de agosto de 1986. Ela se lembra como se fosse hoje. O pai chegou em casa, vociferando palavrões. Parecia possuído por uma força estranha. Mas na verdade, era o efeito do álcool que o deixava agressivo. Chegava procurando comida. Se algo não lhe agradasse, quebrava tudo dentro de casa e partia para a agressão contra a esposa. Nessa noite,  ele chegou como de costume, bêbado. Já não estava bem no emprego por causa do vício. Estava a ponto de perder o emprego. Os familiares dele já não o procuravam há muitos anos, por causa de seu temperamento que piorava com a bebida. Ao chegar em casa e pedir comida, não se agradou, dizendo que estava salgada e, no mesmo instante, jogou o prato de comida contra a parede. A filha tentou chamá-lo à razão e foi agredida por ele. Ela sofreu ferimento na cabeça. A mãe, para defender a filha foi tirar satisfação com o marido e da mesma maneira foi agredida. A vizinhança percebeu a confusão e chamou a polícia. Ele foi preso. Filha e mãe foram socorridas a um pronto socorro para tratar dos ferimentos.

Hoje essa filha lamenta. Gostaria de ter tido momentos felizes em família. Mas para ela, família feliz era coisa de ficção. Não era a realidade em que vivia. Foram momentos de tormentos e aflições, desde seus tempos de criança, quando sonhava passear na  “cacunda”  do pai, dar uma voltinha de bicicleta nos fins de tarde, ganhar uma boneca, tomar um sorvete no parque. Do pai, ela mão tem boas lembranças. Nunca recebeu um carinho ou um abraço.
O álcool ainda é uma droga permitida
que ajuda a desencadear a violência doméstica.


O pai faleceu com doença hepática por causa da bebida. A mãe, sofre de depressão profunda pois não conseguiu se desligar do passado triste que viveu.

Mas  hoje essa filha vive uma vida diferente. Casou-se com um bom homem. Ao contrário do que foi o seu pai, ele é carinhoso com os filhos e muito presente.  

Na vida temos sempre novas oportunidades para fazer diferente. É o auto-conhecimento sobre nós mesmos e a nossa história de vida, que pode tornar o futuro menos traumático. É comum vermos pessoas presas à sua história de vida  como se agora  fosse uma obrigação levar consigo essa carga e  as sombras do passado que destroem a alegria de viver.  Não adianta passarmos a vida inteira lamentando o que nos aconteceu,  sem  tomarmos uma decisão de começar a trabalhar pela mudança necessária para que nos  tornemos melhores a cada dia.  As vezes nos prendemos ao passado, como se fosse o nosso refúgio. Nos isolamos dentro dessa realidade e não nos permitimos a chance de viver sem medo. Tememos “apagar” a nossa história, o que de fato não conseguimos. Mas a nossa reflexão e conhecimento sobre o que se passou, é elemento que não devemos desprezar no processo de aceitação das condições necessárias para o nosso restabelecimento. Certamente, nossos sentimentos tem muito  a ver com o que pensamos e, o que pensamos, tem muito a ver com o que aprendemos e vivenciamos. Um outro pensar e um outro olhar, e um outro aprendizado, são capazes de causar mudanças, também em nossos sentimentos. Algo melhor só poderá ser experimentado em nossa vida, se decidirmos renovar a nossa maneira de pensar. Os pensamentos destrutivos com os quais vivemos no passado, construídos pelas más experiências e que alimentaram os nossos sentimentos, poderão se tornar elementos a partir dos quais poderemos dar uma nova sequência, desviando-nos do rumo iniciado. É uma corrente que pode ser quebrada. 

Viver a alegria hoje, não significa ignorar o passado
mas é uma prova visível de que podemos decidir
pensar e sentir diferente. 
O passado pode nos machucar, quando as cenas indeléveis em nossa mente nos fazem lembrar da violência sofrida, dos dissabores vividos, das palavras ofensivas que ouvimos. Mas o hoje, é a única oportunidade que temos de tomar decisões diferentes, escolhendo o que queremos para a nossa vida.