segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A LEI PODE SALVAR


O rapaz vinha “arrastando” seu pai, cujo braço arranhado pela queda que sofrera, firmava-se em volta de seu pescoço. Não conseguia trocar os passos. Literalmente era arrastado pela rua pelo próprio filho, que, com muita dificuldade, fazia de tudo para manter o pai em pé.

Ele era o mais novo de dois irmãos. A família já havia desistido de ajudar o pai, dependente alcoólico.  Se a teoria que sugere aos filhos seguir o exemplo dos pais fosse praticada, esse jovem também seria um alcoólatra.  Mas nunca bebeu. Não  se sabe o porquê. Se pelo sofrimento que via no pai toda vez que ele bebia; ou por não querer passar pelos mesmos constrangimentos do pai ao cair na sarjeta. Podemos levantar várias hipóteses sobre o porquê daquele jovem não fazer o mesmo que o pai fazia, pelo contrário, tornando-se uma mão companheira para ajudá-lo no momento em que todos da família já haviam desistido daquele homem.
A lei social penal jamais julgará a consciência. 


Certa vez perguntaram a ele: - Isso não te cansa? Por que você insiste em ajudar seu pai, se ele nem se esforça para deixar a bebida? O rapaz deu uma resposta simples e surpreendente: - Eu o ajudo, porque ele é meu pai.

Seria até relevante, se disséssemos que o menino se esforçou demais para ajudar ao  pai e, se levarmos para o lado do pensamento coletivo, poderíamos até considerar que esse menino não teria obrigação nenhuma de fazer pelo pai o que fazia e, como diz a regra, - os pais é que tem obrigação de amparar os filhos, ensiná-los e educá-los. É bem verdade, que essa reflexão não é condescendente quanto ao que chamamos de irresponsabilidade de certos pais a não cumprirem com seu papel. Mas é um olhar, que nos faz refletir, que nem tudo é como o que esperamos que seja.

A vida da gente não é como um cálculo matemático, mesmo havendo a lei das probabilidades. Aprendemos a tratar as coisas por “atacado” e pouco valorizamos as ações que fazem a diferença, no  “varejo”. O que de fato deveria ser  a  regra,  torna-se exceção, exatamente pela supervalorização que damos ao que ocorre em grande escala e, que, nem sempre, representa o amor, a solidariedade e a justiça.

Assim funciona em todos os aspectos da vida. O ensino que recebemos tem um “quê “ de ditatorial, até mesmo sob o pretexto positivo, de que as regras são inquestionáveis, e alguns julgam até que não aprendemos ainda sobre a liberdade, e  que, por isso, não estamos preparados para sermos livres. Por isso, vivemos sob uma alienação “propositiva”, como se fosse um cuidado para proteger os indivíduos,  que muitas vezes impede a nossa reflexão sobre muitas questões que nos ocorrem. Aprendemos a tomar decisões com base na cartilha que “decoramos”; vivemos até uma religião sob formato manipulado por sentimentos humanos  e percepções de determinados indivíduos considerados especiais, cujos discursos ou teorias são  difundidas como se fossem algo elementar a ser praticado. Isso, de certo modo, acaba tirando de cada indivíduo o poder de pensar; de exercer o juízo; de entender a razão das coisas. Não foi sem propósito que Deus nos soprou nas narinas - há algo especial nessa ação: O que haveria além do fôlego de vida no sopro de Deus, se os animais, que também possuem o foôlego de vida foram criados apenas pelo poder da palavra?
É mesmo o conhecimento das leis
que nos ensina os erros?
Aprendemos que a lei existe para nos mostrar o pecado, mas nos fazem esquecer, que a lei da consciência é a única capaz de nos fazer mudar de rumo. Ela extrapola a linha do direito e alcança o terreno do juízo. Aprendemos que as leis precisam ser respeitadas para a nossa proteção; mas nos fazem esquecer, é que seremos julgados pelo “juízo” mesmo, ainda que as  leis pelas quais somos submetidos nos proteja  por suas "brechas". A reflexão sobre o juízo que temos, e a consciência que formamos, é que finalmente trará às claras, diante de nós mesmos, não dos outros, nem de um tribunal aquilo que realmente somos e o que fazemos em relação ao que pensamos.

A única lei capaz de “salvar”, é a lei da consciência, aquela que jamais nenhum outro ser humano terá acesso.  É esta “ lei”, (a  consciência do bem e do mal) -  que cada um de nós tem inserido na mente, a única capaz de fazer com que reavaliemos a nossa vida; reconsideremos nossos atos, mesmo que diante das leis convencionais nada devamos. É a mesma lei que "apontou" ao casal no Éden que eles estavam nus. É o mesmo princípio da  lei que Cristo mencionou acerca do pensamento: "Não fez, mas desejou no coração". Quem poderá julgar  o desejo do coração?

Quem foi que disse que você errou? 
É a mesma “lei” que leva uma criança a se esconder dos pais, quando faz algo errado, mesmo sem os pais terem visto. É essa  "lei” que nos leva ao arrependimento, sob pena de uma consciência culpada. Por outro lado, há tantos absolvidos pela lei penal, mas continuam penalizados no tribunal da consciência.  E não há uma explicação óbvia para isso. 
Se, ao ouvir essa voz da consciência, não buscarmos a Salvação, não haverá perdão que exerça efeito em nossa vida. 

Se por um lado admitimos que a lei "protege" admitiremos, também, que ela pode "salvar", se cumprida. E, se por meio dela, aprendemos o que é certo ou errado, ela também nos salvaria da prática do erro se  a cumpríssemos. Talvez, seria muito mais fácil ser salvo pela lei, rezando por sua "cartilha". É só cumprir as regras. Seria muito mais fácil deixar de "pecar" pela lei e vivermos "certinhos", irrepreensíveis e piamente diante dos homens, cumprindo-a à risca. É só  olhar suas previsões e obedecer.  As regras nos salvam do castigo físico, material, dentro do plano previsível. Mas pela "lei" da liberdade, somos julgados pela razão, pelo juízo. Foi essa "lei" que a graça implantou.  Fomos perdoados para a liberdade, cuja lei, é mais espiritual do que física. Por isso, Jesus tratou tanto sobre hipocrisia, que é algo extremamente imaterial.