quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

DINHEIRO SÓ COMPRA O QUE SE VENDE


A  maneira  como desempenhamos nossa função, a dedicação que temos e a disposição em realizar,  não tem preço.
          
 Eu estava produzindo o Informativo Solimões das 10 horas da manhã, quando o telefone do meu ramal na sala de jornalismo tocou. Além de redator e  locutor noticiarista na emissora, fazia locuções de chamadas, aberturas e fechamentos de programas. Fui chamado à sala da diretora comercial exatamente para fazer mais um desses trabalhos. Era considerado trabalho extra e dava sempre um bom acréscimo no salário.

O dinheiro é apenas um instrumento usado para satisfazer
nossas vontades e decisões. Nem sempre nossas
reais necessidades. 
Ao chegar à sala, estava a diretora comercial em sua mesa, como sempre, bem expansiva, sorridente, com uma xícara de café ao lado da máquina de escrever, dando uma baforada, descendo a mão até o cinzeiro sobre sua mesa, para bater a ponta do cigarro que fumava  e descartar a cinza acumulada na ponta. Ela terminava de bater o contrato do novo programa que entraria na grade da emissora na faixa da madrugada. Ali na sala, ela negociava com um homem um pacote de gravações de comerciais, abertura e encerramento  do programa que ele havia acabado de fechar com a emissora. Ele era um Babalorixá (Uma hierarquia de liderança do Candomblé). Estava vestido com  roupas  características: uma túnica branca; vários colares no pescoço, pulseiras, e anéis nos dedos.  Um bracelete, parecia de palha de milho trançada que marcava a parte superior de seu braço. Muito simpático, falante, voz forte, tomando uma xícara de café, - ali nos cumprimentamos com um aperto de mão.
No pacote proposto pela diretora comercial, eu gravaria o prefixo do programa e também os comerciais de seus patrocinadores, como lojas de artigos religiosos de Umbanda e Candomblé.
-Pois não, o que deseja diretora? - me apresentei.
-Tenho um trabalho para você, estou fechando aqui e é para hoje -  respondeu.
Ao ser informado do que se tratava, pedi desculpas e disse lamentar não poder atender. Ela foi enfática e direta: ele escolheu a sua voz. Ele quer você fazendo a locução.
Eu me dirigi a ele dizendo, desculpe, mas eu não daria à gravação o tom que ela mereceria. Não faria isso com credibilidade.
-Mas você é um profissional. Ouvi a sua voz e gostei, eu estou pagando pelo trabalho, ou você não quer ganhar dinheiro?
-A diretora sabe dos meus motivos -  respondi.
-Se você me convencer dos seus motivos eu poderia aceitar de maneira razoável, mas até agora não estou entendendo nada!
E respondi a ele: - Eu sou um Cristão. Não me sentiria a vontade gravando a abertura do seu programa, nem os comerciais de seus patrocinadores. Poderia até fazer como um profissional, mas tem coisa para mim, que vai  além  disso. É uma questão espiritual. É o que a gente sente, nem sempre aquilo que fazemos. Não me sentiria confortável, e acho que isso pode até interferir na vibração da voz e comprometer a credibilidade. Espero que me entenda.
É preciso ter nossos propósitos bem definidos
para dizermos não, sem pensar duas vezes. 

Ele ficou surpreso ao ouvir isso. Não me criticou, nem mesmo me taxou de preconceituoso. Disse que nunca deparou com uma situação dessa, a de alguém deixar de fazer algum trabalho por causa de religião. Disse ter entendido a minha sinceridade e que respeitaria a minha posição.

A diretora comercial conhecia os meus motivos. Naquele momento ela disse, ali mesmo, na frente do Babalorixá: -Elias, você não tem jeito mesmo né? Dessa maneira você não será uma pessoa bem sucedida na vida. Você precisa ser flexível. Misturar religião com trabalho não é inteligente.

Meses antes, eu teria rejeitado receber dinheiro para divulgar um Deputado Estadual no meu programa. Teria que promovê-lo, mediante um pagamento mensal. Eu disse a ele: por que o senhor teria que pagar para eu divulgar projetos e propostas que beneficiam as pessoas? Boas coisas precisam ser divulgadas e, se elas ocorrem mesmo, para quê pagar? O deputado acabou fechando para ser divulgado em outro programa da emissora.

Eu fico impressionado com a ligação que se faz do "bem sucedido", com o “ganhar” dinheiro. O fato de ganhar dinheiro,  pode estar desvinculado do sucesso como um todo. Ganhar dinheiro  é  um outro trabalho, é outra função. O  trabalho por si mesmo, não é necessariamente um meio de ganhar dinheiro. O trabalho é um meio de sobrevivência.
Dificilmente alguém ficará rico, fazendo parte do quadro funcional de uma empresa, com salário fixo, exercendo sua atividade como reza a cartilha da consciência.  Todo trabalho formal é remunerado, segundo o que é fixado pela empresa, por contrato assinado, por acordo.  Mas há outros fatores que devem ser observados. 
O dinheiro um dia acaba. A marca que deixamos é
para a vida. 
Há muitos bons profissionais que se sentem realizados na carreira, apenas sob o ponto de vista  do serviço  que  prestam e da disposição em serem úteis, mas essas questões  não tem valor comercial. Isso é impagável.  Esses valores imateriais não têm preço. É por isso que para alguns alcançarem os objetivos  sustentados pela ambição da riqueza, desprezam alguns desses valores, que, de fato, são inegociáveis. É preciso rejeitá-los para avançar nesse aspecto. As vezes, é preciso usar máscaras; não ter olhos nem ouvidos; acenar positivamente quando a consciência diz não.
Tive uma experiência crucial logo no início, quando estava entrando para essa rádio. Na primeira emissora em que iniciei carreira de locutor noticiarista, minha mente entrou em conflito em frações de milésimos de segundo. Pensei no meu futuro trabalho, como eu seria interpretado; como minha atitude interferiria na relação de trabalho com o diretor de jornalismo. Eu nem estava contratado ainda, estava no período de conhecimento da emissora, estagiando na redação. Mas minha decisão foi pela minha consciência, os valores que eu defendia.
Foi numa segunda feira pela manhã. Cheguei à sala de jornalismo para iniciar os trabalhos de estágio, quando o diretor de jornalismo me chamou. Antes, ele abriu a gaveta, pegou umas moedas, e levantando os olhos disse: -Elias, faz um favor para mim. Vá  ali  no bar da esquina e compra um Ritz longo? - Ritz longo? O que é isso? Perguntei. -É o cigarro que eu fumo. - Cigarro? Olha amigo, desculpe. Eu não fumo, sei que isso é um veneno, não gostaria de ajudá-lo nisso. Naquele momento ele se dirigiu à  auxiliar de limpeza a quem fez o mesmo pedido. Ela também fumava.
No mesmo momento me senti realizado em enfrentar  o temor sobre o que supus que poderia acontecer daquele momento em diante. Eu era um jovem, estava com 17 anos, cheio de sonhos para a carreira no rádio. O diretor olhou para mim, com uma expressão séria,  e  disse: -O primeiro teste que costumo fazer, é pedir para comprar cigarro.  Naquele instante minha mente já  havia se condicionado a  aceitar a reprovação segundo o critério dele. O diretor disse logo depois: -Eu gostei da sua sinceridade. Você é um menino em quem posso confiar.  Dali  para a frente ele demonstrou muito respeito por mim, pelo que eu pensava, inclusive em questões religiosas. De vez em quando pedia alguns conselhos; na área do jornalismo ele me deu oportunidade para acompanhar testes, dar opinião sobre pessoas que seriam contratadas, etc. Isso não me rendeu dinheiro. Essas  coisas  não tem valor comercial.
A  maneira  como desempenhamos nossa função, a dedicação que temos e a disposição em realizar,  não tem preço. Essa  característica  levamos pela vida, não importa o lugar onde desempenhamos nossas funções. É preciso ser flexível sim, mas essa flexibilidade não pode pender para o lado em que a nossa condição espiritual seja afetada.  É  preciso  estarmos  bem resolvidos em relação ao que fazemos e que propósitos temos na vida. Quando encaramos o nosso trabalho como uma missão, é um grande desafio ser “missionário” e negociador ao mesmo tempo. E ser um bom negociador também é um dom. E é bem sucedido aquele que o desenvolve de maneira coerente, ética e honesta, mas dificilmente também alcançará tão elevado grau de ascenção financeira, pois num mundo competitivo e de disputas acirradas, para um ganhar, outro tem que perder. Há os que preferem estar alheios a esse jogo. Não ganham, nem perdem, e jamais farão alguém perder. O que conquistam na vida é com muito esforço e sacrifício. O espaço que querem conquistar está sempre vazio. A zona de conforto  e a rotina sem maiores avanços tornam-se deprimente. Acreditam que é preciso fazer para acontecer. Para esses, se boa vontade e disposição não  tem preço, o maior pagamento é a sensação de missão cumprida. E dinheiro não compra tudo.