quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A CULPA FOI MINHA



Ela sempre foi diferente das irmãs. Começou a namorar muito cedo. Dos 15 aos  17  anos perdeu as contas de quantos namorados teve, até que engravidou. Seus pais já não sabiam o que fazer para educar a moça. No bairro onde ela morava, todos comentavam sobre o comportamento dela; sobre as roupas que usava e a maneira considerada vulgar como se comportava.

Num ato impulsivo, adolescentes interrompem
sonhos por uma gravidez não programada.

O pai dela culpava a mãe, por não colocar "freios" na filha. Ao descobrir sua gravidez, ela tentou esconder dos pais, dizendo que tinha muita vontade de passar uns tempos na casa de uma tia, que morava em outro Estado. O namorado não quis assumir o filho e,  ainda sugeriu que ela fizesse um aborto. Como não aceitava a idéia de aborto,  resolveu ter o bebê  sozinha, longe do namorado e dos pais.


Foi nessa fase crítica de sua vida que marcou o dia da viagem, arrumou suas malas e rumou para a casa da tia por parte de mãe. Mas foi lá, que não teve como esconder o que se passava com ela. Os sinais característicos da gravidez apareceram. A tia ficou desconfiada, quando chamou a sobrinha para conversar. A moça confessou o que estava ocorrendo e pediu, pelo amor de Deus, que a tia não contasse nada a seus pais.

A tia considerou algo muito sério para esconder da família e, passados alguns meses, ela viajou à casa da irmã, para contar pessoalmente o que estava acontecendo com a sobrinha.
Seus pais ficaram suroresos com a notícia e, resolveram  então, viajar com a tia para ver sua filha, para saber como ela estava, pois, mesmo reprovando a atitude dela, era filha, e entendiam não poder deixá-la desamparada naquele momento.
Mas foi nesta viagem que uma tragédia aconteceu. Seus pais e sua tia morreram num acidente enquanto se dirigiam ao encontro dela. Foi um choque tremendo. Ao saber da notícia, ela passou mal e, pelo choque emocional sofrido, acabou abortando o bebê que esperava.
A sensação de não ter os sentimentos compreendidos
leva muitas vezes ao isolamento. 

Hoje, aos 42 anos, ela vive com uma de suas irmãs que a amparou, construindo um quartinho nos fundos de sua casa.  Desde sua dura experiência, jamais teve outro relacionamento. Solteira e depressiva, traz consigo um sentimento de culpa que paralisou sua vida. 


O passado a persegue dia e noite. Só consegue dormir com a ajuda de medicamentos fortes, que tem lhe causado grande  mal. Tentou buscar na religião acalmar sua alma, mas, ainda não conseguiu perdoar-se a si mesma.

As sombras do passado a perseguem. A imagem do acidente com os pais, tenta remontar em sua mente. Os dias vividos com eles,  as cenas em família, as festinhas de aniversário, os sorrisos, as broncas, os abraços, eram coisas que se perderam no passado que jamais poderá reviver. E isso a machuca até hoje.

O estabelecimento do diálogo, constrói uma relação
de confiança entre pais e filhos.


Não consegue mais sorrir. Jamais imaginou que sua atitude do passado, pudesse trazer tantas marcas em seu rosto e em sua alma.

É bem verdade que ninguém pode mudar o passado. Mas o tempo dá conta de si mesmo. O amanhã sempre refletirá o que vivemos hoje. Se não podemos prever como será o amanhã, podemos ser previdentes nas atitudes que tomamos agora. Não é possível voltar no ontem para refazer o que se destruiu. Mas hoje é o dia em que podemos tomar decisões conscientes. Mas existe o perdão. A sensação de sermos perdoados e de perdoar-nos a nós mesmos, é que revitaliza a alma. Isso não significa  minimizar a gravidade dos erros que cometemos, mas dar-nos a chance de recomeçar a vida, mesmo trazendo as marcas conseqüentes de nossas ações.

A fatalidade ocorrida com seus pais, não poderia ser prevista, pois não ninguém conhece o futuro.  Por isso mesmo, é que devemos viver bem com todos em todos os momentos. No que depender de nós, mantenhamos um coração puro e consciência limpa, com a certeza de que estamos fazendo o melhor agora.

Diante  de coisas que podemos prever, é possível  prevenir. Todos os atos praticados por uma ação impulsiva, podem trazer resultados não desejados. A escolha do nosso comportamento diante das nossas inclinações, pode educar-nos à prevenção. Há coisas  na vida consideradas irrecuperáveis - mas todas as coisas irrecuperáveis podem ser prevenidas com ações racionais, com base nas observações diante do que ocorre à nossa volta. A liberdade que todos nós possuímos para escolher a decisão a tomar, jamais deveria levar-nos à escravidão, ou prender-nos a circunstâncias que devemos assumir pela responsabilidade que contraímos. 

O isolamento, a sensação de fracasso, pode ser até o reconhecimento de atos que praticamos que nos levaram a um resultado que nos perturba. Mas jamais esse sentimento nos será útil para sobressairmos dessa sensação que nos aponta culpa, que tentam remontar o nosso passado, ou até mesmo, coisas do presente que nos ocorrem, diante das quais nos vemos sem saída,  estáticos, como se uma corrente nos prendesse impedindo que tomemos uma decisão. Tentamos nos proteger com o isolamento, pois temos medo de enfrentar a realidade, porque diante dela "cutucamos"  nossas feridas que, para serem cicatrizadas serão necessárias outras ações e tomadas de decisões. As vezes não nos sentimos  preparados e em condições de enfrentar essa realidade. A prostração e o isolamento, tornam-se uma fuga, mas que jamais conseguiremos apagar da mente. 

É preciso retomar a vida e usar essas experiências positivamente a ponto de fazer-nos entender, que não podemos mudar a realidade daquilo que nos ocorreu, mas o momento presente convida-nos a refletir a mudança que necessitamos para vivermos em paz com a consciência.