sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

VOCÊ É KARDEC?

Numa certa tarde fui surpreendido com  esta pergunta feita por um homem, já de meia idade. Era quase meio dia, e o sol estava de “rachar”. Passando a mão no rosto para livrar-se do suor, o homem me abordou enquanto eu caminhava pela calçada rumo a uma casa lotérica.
-Moço, o senhor não pode pagar um almoço para mim? Eu vivo olhando os carros aqui, mas até agora não consegui nada para o almoço.
O Bom Samaritano

Parei, e perguntei quanto custava   seu almoço, e ele me respondeu: -  R$ 5 reais. Disse a ele que não tinha o dinheiro naquele momento, mas que ao voltar, depois de pagar umas contas, eu passaria e pagaria o  “almoço”  para ele. Ele ficou desconfiado, e perguntou se eu voltaria mesmo, e afirmei que sim.

Ao voltar e entregar-lhe o prometido, ele me perguntou: - Você é Kardec? – ele se referia ao líder do espiritismo Alan Kardec, que é reconhecido pela prática da caridade.

Respondi a ele que eu era um cristão. E que os cristãos também seguem os ensinamentos de Jesus, de fazer o bem ao próximo. Ao me ouvir, ele começou a reclamar que "as pessoas são muito frias, cada um cuidando de sua vida sem olhar a necessidade dos outros". Voltei a reafirmar o princípio do amor, ensinado por Jesus, dizendo a ele: - se os Kardecistas são caridosos, eles também estão fazendo o que Jesus mandou. Se seu líder Kardec fazia caridade, ele também estava fazendo o que Jesus mandou.

Certamente não é a caridade que torna alguém melhor ou pior que o outro. O que nos torna melhores é seguir os ensinamentos de Jesus. Ele ensinou que devemos repartir o pão com o faminto; vestir o nu. Visitar aos aflitos e necessitados, os enfermos e os presidiários. Se assim fizermos, estaremos  atendendo ao que aprendemos como seguidores de Cristo.


Cada mão ao se separar
deve continuar o trabalho.

A prática da caridade nunca foi apresentada como um elemento para tornar alguém espiritualmente mais elevado ou  mais aperfeiçoado, como que por meio disso,  pudesse receber alguma recompensa em troca de suas boas ações. Se o espírito que nos move a fazer algo em benefício ao semelhante demonstra esse interesse ambicioso, estaremos, por outro lado, despertando nossos sentimentos egoístas. Muitas vezes, traçamos o perfil de quem "mereceria" nossa ajuda. E, assim, contrariamos o ensino: “Fazer o bem, sem olhar a quem”.  Na verdade, queremos ter o controle das coisas e, parece que quando somo traídos por quem ajudamos,  interpretamos a isso como “abuso”. As vezes, ficamos chateados em não sermos retribuídos nem com um "muito obrigado”. Olhamos sob essa ótica. Fazemos o nosso julgamento de acordo com experiências que vivenciamos, sobre pessoas que não fazem o que acreditamos ser o bom uso dos benefícios que receberam, mas esquecemos de entender que cada ser humano é único. Cada uma de nossas mãos tem responsabilidades. Podemos até participar em grupo, sendo dirigidos institucionalmente, vestindo a camisa de uma campanha. Mas essas ações devem ser continuadas no dia a dia, mesmo tendo que agir isoladamente. Isso ocorre quando o princípio da caridade está inserido em nosso coração, o qual não nos permite agir só em momentos de forte comoção, ou em momentos que percebemos que todos estamos sujeitos a passar necessidades. Há muitos que explicam-se diante de uma ajuda prestada: "Eu não sei o dia de amanhã".

A mensagem de Cristo mostra-nos que precisamos nos isentar de todos os sentimentos que nos fazem olhar para nós mesmos. Foi assim que orientou-nos: “Fazer o bem, sem olhar a quem”. Quando "olhamos a quem", estamos pensando em nós também. A caridade é algo que devemos desprender. Não esperemos que aquilo que foi, volte.

Há os que precisam de conforto e paz espiritual
Hoje em dia percebemos o mecanismo de troca ou  reciprocidade. As vezes recebemos ajuda, porque de alguma maneira poderemos retribuir. As pessoas de maior poder aquisitivo, por exemplo, são tratadas com distinção em todos os setores quer sejam sociais ou religiosos.  O crédito é concedido àquele que tem capacidade de endividamento. A adulação por motivos interesseiros já foi predito no livro de Judas, na Bíblia Sagrada.  Por outro lado, mediante um auxílio qualquer que damos a algum necessitado, solicitamos o "relatório" de como essa ajuda está sendo administrada. As vezes, também, ajudamos com o fito de  ganhar publicidade e mostrar que estamos fazendo alguma coisa boa para a sociedade. E outras vezes, a  ajuda está atrelada à alguma condição: "faça por merecer; se você for à minha igreja eu te ajudo; se a sua doença foi causada por sua alimentação, você terá que prometer mudar a dieta; eu te ajudo, contanto que você prometa me devolver depois". Quando temos o poder nas mãos, do mesmo modo queremos ter o poder de definir ou escolher quem merece a nossa ajuda e o nosso apoio. Ou seja, trabalhamos sob caráter permutativo. Na prática, essas atitudes não refletem o princípio da graça, com a qual todos fomos alcançados por Deus.

Pode ser um grande desafio “fazer o bem, sem olhar a quem”. Sim. Desafio quando nós queremos estar no controle. No momento em que procurarmos atender a uma ordem do Mestre, nosso querer será fazer a vontade dEle.

Jesus veio para libertar a todos.

Se somos salvos pela graça, como entendemos – foi o sacrifício de Jesus que nos trouxe a salvação -  as boas práticas resultantes da aceitação do seu amor, redundam em boas ações. Isso é tão importante, que finalmente, o “vinde benditos de meu pai” e o “apartai-vos de mim que nunca vos conheci” tem a ver com as obras que praticamos. Ou seja, se aceitarmos a “salvação pela graça, mediante a fé em Jesus, e isso não vem de nós, é dom de Deus” e virarmos as costas ao faminto; ou olharmos a quem ajudar, tentando fazer a nossa própria justiça diante dos homens, Deus sonda os corações. A hipocrisia não pode ser julgada pelos homens, por ser um elemento imaterial, mas Deus conhece a cada um. Por isso a surpresa com o "apartai-vos"  daqueles  que praticaram as boas obras diante dos homens, mas  não tinham amizade com Jesus.