sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

UM NATAL DIFERENTE

               O Natal dela parecia como os outros tantos que passou. Aos 23 anos, ela teve o natal mais emocionante de sua vida. Não a emoção de estar reunida em família como de costume e assentar-se diante de uma mesa farta como se faz naturalmente nesse período do ano.
Ela decidiu passar o natal num orfanato. Reuniu uma turma de amigos que compartilhavam a mesma idéia para então conseguir todos os meios e recursos para ceiar com 60 crianças, sem pai e mãe.

Em muitos outros natais passados, ela, ao levantar-se da mesa e caminhar para perto da janela de seu prédio, olhava nas calçadas, meninos e meninas de rua, revirando os restos de alimentos nos latões de lixo. Seu coração ficava apertado. Ela tinha muita vontade de levar alguma coisa para aquelas crianças, mas, seus pais e os parentes que se reuniam para a comemoração, diziam que aquelas crianças eram perigosas. Eram usadas por adultos criminosos e alguma aproximação com elas, poderia atrair assaltantes, por ela pertencer a uma família rica. Mas foi a partir daí que ela começou a planejar passar um natal diferente. Não agüentava saber que tendo tanta fartura em sua mesa, havia alguém, naquele momento, mendigando um pedaço de pão. E ouvia sempre o conselho daqueles que viviam de maneira fria e objetiva, de que cada um vive sua realidade, e ninguém pode mudar o mundo ou resolver os problemas de todas as pessoas. Mas, cada porção que colocava na boca, a cada gole de uma bebida, parecia doer na alma, talvez mais do que a dor da fome daqueles que não tinham  de  fato, o que comer.
Chegou o Natal. Ela foi a única da família a não participar da ceia daquele ano. Juntou sua mesada durante todo o ano, e na companhia de outros colegas que compartilhavam do mesmo pensamento, rumaram para um orfanato. Lá, depararou-se com o retrato da realidade que ela não conhecia de verdade. Criada num lar com todo o conforto, agora estava diante de crianças sem pai e mãe, indesejadas no mundo, sem afeto e sem amor. O que elas teriam naquela noite, era apenas um simples pão com manteiga, uma laranja e um copo de refresco de uva. Ao virem tanto alimento chegando, seus olhinhos brilharam; algumas, timidamente, encolhiam-se no cantinho da parede, sem saber como receber os presentes que ganhavam. Alguns, nem sabiam como usar.

Com o coração alegre, transbordante de tanta emoção, aquela jovem prometeu a si mesma fazer um natal diferente. Se nessa data comemora-se o nascimento de Jesus, nada mais importante que fazer o que Ele fez: Curar as feridas; dar de comer ao faminto, a água ao sedento; atender aos pobres e necessitados. Para ela, a fartura do Natal sem o compartilhamento e a compaixão com o próximo, é um contraste ao que o homenageado da data ensinou quando aqui esteve.

 

A caminho do orfanato
 Na vida, entendemos um pouco do valor de um ser humano, quando experimentamos o seu sofrimento, e, por compaixão, doamos um pouco de nós mesmos para minimizar a dor e enxugar as lágrimas que rolam sem esperança de uma solução. É verdade que não podemos resolver os problemas do mundo, nem matar a fome de todas as pessoas. Mas, dividir o pão, é algo que todos nós podemos fazer. As vezes, significa tirar um pouco do que temos, para entregar a quem nada tem.

Elias Teixeira