sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

OS CRIADORES DE COBRA

Lembro-me bem de uma história que meu pai certa vez me contou. Minha curiosidade a respeito do nome de um lugarejo do interior, onde ele tinha amigos, o levou a me explicar a origem do nome do lugar: “arranca tripa”.
Os que "apunhalam" pelas costas
são sempre os que estão por perto

Contava-me ele que havia nas redondezas um homem muito violento, temido por todos. Quando ele passava com o seu cavalo, muitos homens simples, trabalhadores da roça, tiravam o chapéu, em sinal de “respeito”.  Todos abriam caminho para ele passar. Quando   chegava  em  algum lugar onde as pessoas faziam festa, ao notarem sua presença, todos ficavam em silêncio, até que ele dava a ordem para continuarem.

Nos botequins onde apeava de seu cavalo, bebia e comia sem pagar. Se alguém olhasse em seus olhos, era capaz de matar. Assim o  fez  certa vez, a um homem que o questionou, por que as pessoas o temiam. Sempre armado com uma garrucha e um punhal bem afiado, suas botas com espora, cinturão de couro com fivela grande e um enorme chapéu na cabeça,  sua presença era sempre uma ameaça. Homem de poucas palavras, que parecia maquinar o mal o tempo todo. Foi assim que antes de matar aquele pobre homem, o embriagou. Pegou uma garrafa de cachaça, encheu o copo, raspou suas unhas e misturou o pó  à bebida e forçou o pobre homem a beber. Foi assim, que depois de atordoado, foi morto, sem dó nem piedade,  na frente das pessoas que ali estavam. Ninguém ousou falar nada. Todos, de igual modo em silêncio, num misto de revolta e medo.   A injustiça ali, se fortalecia com a "lei do silêncio". Afinal, todos que ali estavam foram testemunhas e, qualquer perseguição que o criminoso sofresse, saberia de onde partiu. Sua vingança certamente seria cruel.

Um menino, vizinho daquela vendinha, assistiu a tudo pela freha da cerca de bambu do quintal de seu barraco. Devia ter seus 09 anos de idade. Ele ficou chocado com aquela cena sangrenta, num ato violento gratuito.

Passadas algumas semanas, o homem voltou ao mesmo local. Lá estava o menino, o pai dele e outros homens, que saíram das lavouras para comerem alguma coisa. Outros faziam compras para casa, na  vendinha do seu Juca, a única que havia nas redondezas. 

Todos ficaram temerosos com a aproximação daquele homem. Ele apeou, desceu como de costume pedindo uma bebida. Dessa vez, ele embriagou-se a ponto de apoiar-se no balcão daquele botequim, quase a cair. O menino estava de olho em seu punhal embainhado na cintura. Foi quando num momento vulnerável, surpreendentemente o menino arrancou-lhe o punhal da cintura, ferindo-o com violência na barriga. O ferimento foi grave. As tripas ficaram expostas. E ele ali, agonizante começava a puxar as vísceras para fora. Ali, ele morreu,  nas mãos de um menino. Daí o nome do lugarejo: "arranca tripa", que relembrava esse eposódio.

Um homem que todos temiam. Um homem  que  fez inimigos, mas nenhum deles se atreveu a enfrentá-lo. Foi um menino, a quem ninguém esperava. Ainda criança, tornou-se um assassino, depois de ver aquele homem de má indole e cruel, praticar tanta maldade contra pessoas indefesas e inocentes, por puro prazer.  
Dificilmente somos unanimidade.
O poder alcançado  por defesa de interesses pessoais
causa muitos estragos no caminho da subida.


É uma história violenta, sangrenta, mas a nossa história está cheia de ocorrências desse tipo.

Quando os grandes se exaltam, uma pedrinha, apenas uma pedra, atirada no momento certo, é capaz de derrubá-los. Nem sempre isso ocorre com estranhos. As vezes, com pessoas próximas.

No sistema político, onde se acirra a luta pelo poder, e a sinceridade e transparência passam ao longe,  todos tornam-se vulneráveis, principalmente os que fazem do poder, um meio de usar pessoas. Criam aliados, que de fato, conhecem as intenções de seus criadores, participam de suas maldades, compactuam com suas sandices, também com interesses escusos de conseguirem alcançar seus objetivos. É um enganando o outro. Dificilmente, pessoas não confiáveis confiam  nos outros. Por um lado, se promovem e exaltam suas crias para satisfazerem suas vontades, por outro lado, essas “crias” sabem que estão sendo usadas. A cobrança pode ser dura. Aqueles que parecem inofensivos no âmbito do poder, são, muitas vezes, os responsáveis pela queda de muitos. São os que comem do mesmo prato; compartilham apertos de mão; elogiam-se mutuamente diante dos outros, mas no fundo, são capazes de revelarem-se grandes desafetos. Os que trabalham injustamente, prejudicando aqueles que pensam ser ameaça aos seus planos, precisam estar alertas. Por fim, podem ser picados pela própria cobra que ajudaram a criar.  Em todo o sistema político, essa é a fórmula. Usar pessoas para alcançarem seus objetivos. A uns, conquistam por benesses oferecidas e promessas de crescimento; a outros com promoção pessoal e status. Dessa forma, arregimentam aliados interesseiros, não a adesão de pessoas que compactuam com suas fórmulas e defendem suas idéias. Todo aquele que se sustenta por essa filosofia, constrói castelos de areia. 

As mesmas mãos que se unem, se afastam,
quando o mais influente
impõe suas regras.
Verdade, transparência, sinceridade, podem excluir muitos desse âmbito de política e jogo do poder por entenderem estar sendo usados. Os justos não resistem, e pagam  a pena. São pisados, humilhados, porque tem ideais elevados  e  nobres. Mas, esses, jamais correrão o risco de serem abatidos por quem menos se espera. Pelo contrário, sua visão mais elevada, identifica de, fato, quem são seus inimigos. Pela sensibilidade imune a sujeira que embaça a consciência, são suficientemente capazes de ler os olhos dos que não os desejam por perto.   É essa percepção que os afasta, esfriando as relações ou, são afastados pela postura alheia a esses interesses.


As "cobras criadas" pela política, tem os olhos abertos para a ambição, despertando seus mais baixos sentimentos egoistas. Esses répteis, podem fazer de tudo para concretizar seus objetivos, até mesmo atacar seu próprio criador. Só o tempo dirá quem é quem nesse jogo. O certo é que nesse jogo, é cobra engolindo cobra. É a mais forte que prevalece, até que outra mais forte a engula. Mas, pode ser até aquela cobrinha inofensiva, um filhote enrolado no canto da parede, da qual menos se espera um ataque.