sábado, 10 de dezembro de 2011

O RELIGARE

Nasci e Cresci num lar Adventista. Fui batizado em 05 de novembro de 1985, quando desci às águas do Rio D'ouro. Naqueles tempos, não havia o conforto que hoje há em muitas igrejas, que dispõem do batistério (tanque batismal) dentro de seus templos. Muitos dos irmãos da época, defendiam piamente que batismo correto tinha que ser em água corrente, de rio mesmo. A posição era polêmica, pois havia outros que diziam que a importância do batismo estava na sua forma: por imersão (mergulho). Opiniões à parte, a ida aos batismos dava  sempre uma sensação de  aventura. As crianças que acompanhavam o evento, queriam mesmo era brincar com a água do rio - se não podiam banhar-se, como era a ordem dos mais velhos, pelo menos, alguns se satisfaziam em pôr o pé na água, e admirar os "girinos" e os "barrigudinhos" como chamávamos os filhotinhos de sapos e peixes, respectivamente.

O calor sofrido durante o percurso, dava lugar ao frescor ao descermos às margens do rio de solo umedecido, contornadas por árvores frondosas e bambuzais altaneiros. As vezes, voltávamos para casa com os bolsos cheios de pedrinhas brancas, rajadas, e de várias formas -  que apanhávamos no local. Ficávamos curiosos para saber o que havia além dos grandes portões de ferro que separavam uma represa do local público, considerada reserva pertencente à Marinha. Se as águas, do lado de cá eram límpidas e correntes, nas quais podíamos ver os peixinhos nadando e os reflexos das folhas das árvores naquele verdadeiro espelho dágua, imagine naquela reserva, onde havia uma placa proibindo o acesso de " estranhos" ao local...

Chevrolet Gigante 1946 - modelo semelhante
ao que levava batizandos e convidados
O sabor de aventura era sentido, principalmente, quando avistávamos o velho caminhão Chevrolet gigante 1946, aproximando-se do portão da Igreja, de onde saíamos para o Rio D'ouro. O caminho era uma estrada de chão, esburacada, empoeirada, cheia de curvas e pontes para atravessar. E todos ali viajavam bem acomodados na carroceria de madeira, sem nenhum item ou equipamento de segurança. As "irmãs"  abriam as sombrinhas para protegerem-se do sol. Outros, não esqueciam de suas garrafas com água para refrescarem-se durante a viagem, que durava pelo menos 30 minutos, muitas vezes, debaixo de um calor quase que insuportável.




Desci às águas pelas mãos do pastor Silas Leal, do qual hoje não tenho mais notícias. O batismo, além de seu significado espiritual de " morte para o mundo e  ressurreição para uma nova vida", era um evento  de confraternização, observada por pessoas do local e até mesmo outros que se aproximavam, atraídos pelos cânticos de hinos temáticos, ao som de violão que se propagava pelo vento o qual ouvia-se ao longe.  A cerimônia batismal saía de entre as quatro paredes do templo e alcançava os de fora, e alguns,  curiosamente perguntavam sobre o batismo, demonstrando interesse pela igreja. Com aquela platéia, entre cristãos batizados e os que alí estavam apenas para assistir, costumeiramente o pastor oficiante aproveitava para fazer o apelo.  Dalí, saíamos ao trabalho missionário, distribuindo folhetos, de casa em casa, convidando a vizinhança para irem à igreja para ouvirem de Jesus.

Projetor de slides, semelhante ao usado nos anos 1970

Alguns colegas e irmãos mais veteranos da igreja diziam para mim que eu poderia ser um pastor no futuro. Sempre acompanhei meu pai e minha mãe, junto com meus irmãos em séries de conferências que ele realizava. Eu gostava muito de passar os slides, naqueles projetores antigos, de lentes grossas.  Quantas vezes queimei minha mão, pois o aparelho tinha uma lâmpada muito forte e aquecia muito o equipamento. Havia sempre um ventilador por perto para ajudar a esfriar. Ser pastor, como muitos "profetizavam" que eu seria nunca foi o meu desejo. Acho que esse é um chamado que Deus faz. Quando eu era menino, gostava de acompanhar o meu pai e o pastor local em muitas de suas visitas. Aliás, visitar membros em dificuldade, os faltosos e interessados em estudar a Bíblia, era tarefa comum dos pastores. Até mesmo auxiliar com alimentos e remédios aos mais pobres. Não havia telefone celular para o encontrarmos, por isso, ele estava sempre presente nos dias costumeiros. Telefone fixo nas residências, era coisa de gente rica. Nosso pastor andava a pé, subia morro debaixo de sol para visita missionária, sempre com sorriso e palavras de conforto. Os que possuiam carro, eram traídos de vez em quando, com um enguiço nas ruas. Dificilmente víamos um pastor de carro novo, do ano. Não havia o consumismo exacerbado como atualmente, nem a figura de pastor ser algo glamuroso, pelo status que muitos alcançam por suas habilidades e competências em várias áreas.
Elias Teixeira - 1977


O desejo pelo céu era algo compartilhado nas conversas dos irmãos que se reuniam aos sábados, após o culto. Não se discutia futebol, política ou outros assuntos que se compartilham hoje. As conversas eram despretensiosas. Aliás, a postura que se adotava no sábado, era naturalmente a mesma adotada no dia a dia. Por inúmeras vezes, os irmãos se reuniam lá em casa, para almoçarem com a nossa família, antes de saírem em campo para o trabalho missionário. Eram momentos agradáveis e esperados durante toda a semana. As conversas comuns eram sobre a volta de Jesus, as coisas que Deus preparou para os salvos. São as lembranças que passam indelével em minha mente, quando reporto-me a este passado. Penso que os nossos propósitos, princípios e valores cristãos, não deveriam mudar como mudam as tendências e os costumes do mundo.
As crianças da IASD de Austin, década de 1970 (Só apareceu a minha cabeça atrás da menina-Sandrinha- de jardineira xadrez)
As condições da época eram desafiadoras. O pastor era alguém próximo, com o qual podíamos contar a qualquer hora, até mesmo de madrugada, quando era procurado para socorrer alguém em dificuldade. Certa vez, nosso pastor foi chamado às pressas para orar e expulsar demônio de um vizinho, cujos parentes diziam estar possuído. Realmente, era um chamado especial.  Ser pastor, parecia algo sagrado, respeitoso. Era muito trabalho diuturnamente à disposição da igreja sem medir esforços, diferentemente de um emprego, com horário para entrada e saída. Eu, particularmente, nunca me senti chamado para uma missão como essa. Para mim, ser pastor era esvaziar-se de seus interesses pessoais, para dedicação exclusiva ao próximo.  Minha vocação desde criança era falar, comunicar. E foi assim que comecei nessa área em 1987 ainda num serviço de alto falante; em 1989 iniciei no rádio como locutor noticiarista aos 17 anos.

Esse menino à esquerda, sou eu. Minha mãe com meu
sobrinho Marcelo, e minha irmã Raquel. 
Eu fui criado e cresci na IASD. Meu pai fundou e dirigiu, como ancião, a igreja De Austin-RJ (foto) nos tempos da administração da Associação Rio-Minas, que futuramente passou a ser Associação Rio de Janeiro na Rua do Matoso, na Praça da Bandeira. Ficamos por muitos anos alí. A casa da nossa família ficava no quintal da Igreja e meu pai cedeu parte do terreno para construí-la. Hoje ela tem dois pisos e continua no mesmo endereço: Rua Tamandaré nº 30 Austin - Nova Iguaçu - RJ. Depois como obreiro foi chamado a fundar uma Igreja em Bom Jesus do Itabapoana, a 400KM do RJ. Lá ficou de 1979 a 1982, voltando para Austin, onde fundou um outro grupo.

DO LADO DE FORA DOS "PORTÕES"

Cresci na Igreja Adventista, mas convivi com pessoas de vários credos. Aprendi com o meu pai a ser aberto com todos; fazer amigos independentemente de sua religião. Ele foi um bom pai, valorizava a amizade - não fazia da religião uma barreira, mas um meio de aproximação com todos. Em todos os assuntos do momento, usava sempre um " gancho" para falar de Deus e de suas promessas para o ser humano. Não era necessário criar uma " oportunidade" para falar de Deus, mas em todos os momentos que tinha contato com alguém, era muito atencioso e elegante com sua empatia. Não era chato, nem "pesado". Quem tinha a oportunidade de conversar com ele, naturalmente gostaria de encontrá-lo de novo. Meu pai foi um grande exemplo para todos os seus filhos e para todos que o conheceram, tanto em sua vida espiritual, quando em suas relações sociais.

Nem eu, nem meus irmãos, tivemos a oportunidade de estudar nas instituições da igreja. Não havia tanta abertura e avanço como há hoje. Por outro lado, não tínhamos muitos contatos influentes que pudessem ajudar num encaminhamento. Vivíamos todos segundo a nossa realidade, e éramos felizes assim. Meu pai não nos ensinou sermos ambiciosos por coisas materiais  - pelo contrário, ensinou-nos o princípio do amor ao próximo, a dividir o pão, a solidariedade e o respeito. Minha entrada para a Escola Adventista durou pouco, pois o projeto não foi adiante, ainda na década de 1970, quando uma de nossas escolas ensaiava sua implantação nas dependências da Igreja Adventista de Queimados. Era um lugar de pessoas sem muitos recursos financeiros para pagar uma escola particular. A falta de alunos tornou inviável a manutenção da escola, reconhecida por sua qualidade e "sonho de consumo" de muitos filhos. Acabei estudando em escola pública, onde convivi com colegas de outras igrejas - sempre aprendi muito com eles, e eles, comigo.

Quando iniciei no Rádio, o patrão tinha origem judaica; a emissora alocava horários para muitas igrejas e, até mesmo, para outros credos como umbanda e candomblé. Nâo tive a oportunidade de ser " protegido" do mundo e de suas influências - mas o temor a Deus e os princípios aprendidos em família, me deram suporte para conviver com todos, sem perder o alvo. Na rádio,  todos, de igual modo eram respeitados. Curioso era ver pastores e "pais de santo", cruzando os mesmos corredores e, cada um, em seu horário de programa, falando de suas crenças.

Foi alí que conheci Joana D'arc, mãe de santo que possuía um " terreiro" numa cidade vizinha. O filho dela era um dos operadores de áudio da emissora - um rapaz muito educado e de um respeito tremendo a Deus e ao próximo. Quem não o conhecia, podia dizer que era filho de crente.  Mas era filho de uma "mãe de santo", que tinha um enorme carinho pelo filho e o educou sozinha e com muita dignidade. Seu marido havia falecido, quando o menino ainda era bem pequeno.

Ela chegava na emissora com vestido vermelho rodado; várias pulseiras coloridas; cordões e patuá; um batom forte vermelho; unhas grandes e pintadas com vermelho forte; seus olhos contornados com sombras pretas e a sobrancelha desenhada com lápis bem fino.

Quantas vezes conversei com Joana Darc. Era muito simpática e sempre com sorriso no rosto e fala mansa. Tinha uma conversa agradável. Falava tanto de Deus, que parecia ser evangélica. Dividia com ela a minha crença, sem discriminá-la, assim como ela não fazia com ninguém.

O filho dela tornou-se evangélico. Casou-se com a filha de um pastor que tinha um programa na emissora. Fabrício continuou sendo aquele jovem prestativo, amigo, companheiro de seus colegas de trabalho. Futuramente soube que sua mãe, pouco antes de morrer, tornou-se evangélica e seu " terreiro" foi transformado numa igreja.

Quando saímos um pouco do ambiente que estamos acostumados a conviver, percebemos quantas pessoas há, que compartilham de pensamentos comuns, que se respeitam um ao outro, e que são maleáveis quando percebem que nos importamos com elas.

A religião é para nos religar a Deus. Mas jamais seremos religados a Deus, sem, primeiro em nosso ciclo de convivência, demonstrar amizade, respeito e amor com os nossos semelhantes. " Se dissermos que amamos a Deus que não vemos, e não amamos nosso semelhante, que vemos" , estaremos mentindo a nós mesmos.


À esquerda, minha mãe; Irmã Zuliná ao centro,
e eu, 25 anos atrás.
Vivi momentos em que pude entender, o quanto é importante fazer amigos, sem pretensões.

Não precisamos usar artifícios, nem armadilhas para levar pessoas a refletirem que há algo muito mais maravilhoso do que podemos imaginar, e ao alcance de todos.  Aliás, quando nosso coração vive as coisas do céu, o nosso compartilhar ao outro não é uma maneira de auto-afirmação, mas flui tão naturalmente, que tornamo-nos companhia agradável.

Jesus veio para todos. E fazemos parte desse " todos". Assim, cada um torna-se o alvo, o motivo pelo qual Cristo se entregou. Jesus e seu sacrifício, jamais poderão ser escondidos, por mais sofisticados que os discursos pareçam hoje. Por melhores condições e argumentos que encontremos para defender a nossa fé, nada é mais convincente do que o nosso testemunho pessoal. É estar com quem consideramos  "pecadores", sem tentar provar que estamos certos diante de suas práticas que aprendemos ser contrárias da verdade que abraçamos, sem condescendência com seus supostos erros. A luz não precisa dizer que está presente. O sal, não precisa falar para mostrar-se. O testemunho das ações fala mais alto que qualquer outro artifício que utilizemos, ou qualquer outro recurso que tenhamos em mãos, porque, afinal, seremos conhecidos não pelo que dizemos de nós mesmos, mas pelo que fazemos.