quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O QUE UM BÊBADO ME ENSINOU

“Não se mete com política”
Estender “tapete vermelho” para que um “figurão” passe, enquanto que no caminho dos simples  espalha-se obstáculos, mostra-se atitude desumana.

Dificilmente se alcança o poder na terra
sem abrir mão dos princípios
 Ele era conhecido apenas por Valdir. Para alguns era um bebum, que vivia cambaleando pelas ruas, sem perspectiva de vida. Porém, para as crianças, ele era o artista do bairro, uma verdadeira figura folclórica. Aliás, para aquele bairro simples, sem ruas asfaltadas, sem linha telefônica e água encanada, sem praças e parques de diversões, Valdir era a atração. Bastava pegar sua flauta e começar a soprar. Ele era um verdadeiro perito no instrumento; tocava de músicas clássicas a hinos evangélicos populares. Não bastasse o instrumento, ele tinha um vozeirão, que quando começava a cantar em estilo ópera, era ouvido à distância. Valdir lamentava não estar mais nos palcos dos grandes teatros da época em que brilhou, nem por detrás dos microfones de emissoras onde se apresentava em programas de auditório, mas fez das ruas daquele pobre bairro o seu palco; as crianças, apenas, eram sua platéia. Algumas pessoas os  achava mais um “chato”, um bêbado iludido,  metido a artista, sem ter um lugar onde cair morto. Muitos não conseguiam ver o talento que ele tinha, pois sua aparência era um “ruído”, perdida em meio ao som que produzia. Era como pérola entremeada ao lamaçal da estrada.


Jesus não se aliou ao poder da Terra
para alcançar prestígio humano
Ele orgulhava-se em dizer que fora um artista dos anos dourados do rádio-teatro. Mas entristecia-se ao lembrar que mulher e bebida acabaram com o pouco que começara a conquistar como um artista de grande futuro. O que lhe restou foi uma sobrevivência que se resumia a prestação de pequenos favores a donos de botequins em troca de doses de cachaça; limpava os terrenos da vizinhança em troca de prato de comida. Assim levava a vida aquele velho sonhador com coração de estrela. Ele jamais perdeu a pose.

Despojado de bens, sobra o que somos.


Certa vez o encontrei na rua. Eu voltava da escola e já era noite. Ele ia à mesma direção em que eu seguia, e apertei os passos para alcançá-lo. Valdir estava descalço, com uma bermuda velha, sem camisa, e com um cheiro de cachaça curtida. Foi naquela noite fria, num mês de junho, esfregando uma mão na outra para se aquecer, que ele disse a mim a primeira de tantas outras vezes: - “radialista, não se mete com política; você vai ter oportunidade de lidar com muita gente importante, mas não se mete com política, faça o seu trabalho”.

Eu não sei se ele havia tido alguma experiência ruim com “política”, mas ele falava como se tivesse sofrido com isso. Naquele momento eu não entendi o porquê de sua preocupação em me dizer aquelas palavras, mas fiquei pensativo. Todas as vezes que eu o encontrava no caminho ele dizia: “radialista, não se mete com política”.

Eu estava recém chegado no rádio e começava a ficar conhecido no bairro. Com a experiência que estava adquirindo, passei a prestar atenção na maneira como as pessoas se relacionavam com o trabalho, com os cargos que ocupavam e o poder de decisão que alguns tinham.


Dificilmente sabe-se ao certo o que ocorre numa sala
para decidir o futuro das pessoas.
A política pode ser usada para promover ou promover-se, e muitos usam esse recurso mais para a autopromoção do que para a promoção; outros para ficar de bem com todos, deixando de expressar-se com sinceridade.  Onde usa-se política  em busca de algum resultado, ali pode estar faltando verdade, fidelidade, integridade. Para sustentar auto-interesse, esse “político” é capaz de negociar até consciência para conquistar o que deseja. É capaz de fazer até o que não acredita e vender uma idéia que nunca defendeu. Na política existem acordos, pacto de lealdade, há códigos de ética a serem cumpridos. Mas nem sempre cumprir um acordo significa agir dentro da moralidade. Há coisas que se tornam legais no âmbito do interesse de um grupo específico, mas que são abomináveis, no aspecto essencial. Ser leal a uma idéia ou a alguém, nem sempre significa ser honesto com a própria consciência.

Hoje   os pregadores da “inteligência emocional”, adotando a filosofia de que é preciso criar imunidade para que essas coisas não nos afetem. Por outro lado, há também conselhos para fazermos “vista grossa” diante dessas questões. Nesse ponto, corremos o risco de ser como um deles pela condescendência, unicamente com o objetivo de livrar a nossa pele e permanecermos aonde estamos, talvez “usufruindo” os benefícios e calmaria de uma zona de conforto.    

Creio que onde é necessário recorrer ao jeitinho, jogo de cintura e política  para conseguir promover ou conquistar alguma coisa, é preciso saber a quem estamos recorrendo ou que tipo de proposta estamos apresentando, e que comportamento adotamos diante disso. É importante que semeemos a nossa semente em todos os lugares possíveis. Mas semente de transformação, que façam a diferença.

Quando somos orientados a tratar certas pessoas com distinção, principalmente aquelas apontadas como “superiores”, podemos perceber a falta de trato sincero. Esse trato condicional pode revelar apenas interesses pessoais, por alguém que de alguma maneira poderá ser canal de algum benefício nesse sentido. Estender “tapete vermelho” para que um “figurão” passe, enquanto que no caminho dos simples espalha-se obstáculos, é atitude desumana. Por outro lado, os que detêm o poder e agem de maneira opressora, desrespeitosa e desumana, podem estar despertando em seus liderados um respeito imposto e consequentemente atraem esse mesmo sentimento.

Não há vitória mais justa do que
a conquista com igualdade
de oportunidade
Os que se sentem poderosos porque ocupam uma confortável cadeira e dizem não, fecham portas, restringem acessos, e burocratizam o que deveriam facilitar para obter reconhecimento de seu poderio, podem estar agindo de maneira equivocada. Nesse caso, a aproximação de seus liderados se dá através de bajulações e dissimulações, pois falta uma abertura sincera e sem “joguetes” para esse contato. As relações entram num círculo vicioso de “jogo”, e isso leva a quebra de confiança uns nos outros. Há os que para acharem-se poderosos, tendem a supervalorizar as restrições, até mesmo por temer a perda de controle sobre o grupo. Manter um clima de “mistério” pela falta de verdade, acaba por atravancar o avanço e desestabilizar as relações com os liderados.  

O termo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, já mostra a falta de trato sincero, e o comportamento subserviente que os comandados devem adotar, é apenas um mecanismo de defesa.  Por outro lado, analisando, nem todos os que “mandam” apresentam esse juízo; há os que agem de maneira inconseqüente como aquele filho que põe a mão na herança sem considerar o sacrifício do pai para construí-la. Simplesmente podem e mandam muitas vezes guiados por seus caprichos sem uma visão justa da causa que recebeu em mãos.

Quando agimos com sinceridade no trato com as pessoas, sem distinção, com respeito ao ser humano; quando agimos com honestidade, decência e solidariedade e, sobretudo, quando desenvolvemos o amor pelas pessoas, a tendência é sermos bem aceitos em qualquer lugar, pois no fundo, todo ser humano procura essas virtudes e qualidades, porém, há os que “fraquejam” diante das tentações de terem que agir de maneira conveniente, usando as mesmas armas do “inimigo” para conseguir aprovação.

Sem fazer apologia ao alcoolismo, “não se mete com política” foi a frase de um bêbado, mas em seu estado etílico, esse homem demonstrou uma sobriedade de muito poucos, envolvidos com as buscas e disputas meramente interesseiras, embriagados com o vinho das ambições banais.

Dificilmente os que não se metem com política conseguem alcançar postos de destaque, pois não aceitariam tomar decisões que não tomariam fora da esfera do poder, ou pensar o que não pensariam do lado de cá. Do outro lado, teriam que mudar o discurso para não contrariar certos interesses simplesmente para se protegerem.  

É incerto e imprevisível o que uma pessoa é capaz de fazer nos bastidores do poder, para manter-se no cargo e benquisto pelos superiores. Dificilmente alguém se arriscaria contrariar interesses da maioria, pois poderia lhe custar caro.  Os acordos são um meio de estar de bem com o grupo. De certo modo, quem participa dessa “política”, coloca muito peso sobre os ombros. Há forte desgaste emocional, pois de algum modo o indivíduo acaba “represando” o que sente diante daquilo que pensa em relação ao que o posto lhe obriga a fazer. Falar a sua verdade pode custar muito caro.  Se a verdade e a sinceridade fossem práticas comuns e aceitas em todos os setores da vida, não seria necessário o estabelecimento de regras de conduta ou comportamento ético. Nesse contexto é preciso deixar de ser como somos para adotar um modelo criado pelo grupo e, consequentemente o indivíduo é tentado a “disfarçar” seus sentimentos e percepções para que obtenha essa aceitação, ou auto-proteção. Crescemos ouvindo que devemos aceitar as pessoas como elas são, mas na prática ninguém se prepara para isso.   E é por causa disso que as máscaras sociais acabam pesando com o tempo e causam estragos emocionais desastrosos quando começam a cair e desnudar a face real de quem se sustentou por trás delas.

É admissível que essas pressões levem o indivíduo a problemas psicológicos e de estima, ansiedade e depressão, pela necessidade imposta  à adequação  de  certos modelos. Nesse contexto pessoas são vistas como concorrentes e  a  ascenção de uns, pode tornar-se ameaça para outros; para alcançar o patamar desejado, outros são derrubados ou severamente prejudicados de diversas maneiras direta ou indiretamente. Não há “inteligência emocional” que cure as feridas de nossos valores ou nos convença de que é possível viver nessa sociedade de maneira passiva, no momento  em  que  os valores precisam ser “reconstruídos”.

Aqueles que, por consciência solidária ou por convicções morais se recusam a usar as mesmas armas para sobreviver à essa demanda, corre o risco de serem “atropelados” em seu próprio caminho invadido por oportunistas  à espreita. Ouvimos orientações de grandes motivadores de mercado que não devemos respeitar portas fechadas. É preciso ser ousado para conquistar o que queremos. Mas essa “ousadia” nem sempre é compreendida apenas como coragem, e ultrapassa os limites da ética e do respeito ao outro. A vitória acaba sendo conquistada, em muitos casos, pelo mais esperto, não pelo mais inteligente ou pelo mais ousado ou inescrupuloso do que pelo abnegado e persistente em sua postura solidária e humanista. Essa inversão é estimulada e aceita sem questionamentos exatamente pelo modelo que o sistema capitalista moderno implantou em diversos setores da sociedade e, essa “educação” vai, aos poucos, formatando o comportamento das pessoas e, matar para não morrer, torna-se prática comum e natural, sob o ponto de vista da “legítima defesa”. É vencer a qualquer custo. É ser o primeiro lugar independentemente do caminho que esteja trilhando, onde os fins justificariam os meios. Nossas crianças estão sendo treinadas  para serem “águias”, não gente.

Não é fácil viver na contra-mão dessa filosofia  e, ao mesmo tempo, sentir-nos felizes e realizados, pois a percepção desses comportamentos acabam afetando a nossa vida em grandes proporções, se não estivermos bem resolvidos com a postura que  adotamos, dispostos a pagar o preço das nossas decisões.  

Se a nossa motivação não estiver centrada em nossas reais convicções, não as sugestionadas pelo meio com relação a atividade que exercemos, não teremos como sobreviver a essa selva moderna. Trabalhar com foco numa missão que abraçamos, esperando aplausos e reconhecimento, pode ser uma expectativa frustrante.  As mesmas mãos que nos aplaudem quando correspondemos ao que esperam de nós, são as mesmas que acenam a desaprovação quando não correspondemos às expectativas da platéia.

Formatar o nosso comportamento com base nas expectativas da maioria, é de certo modo, um mecanismo de defesa, e há muitos que se submetem a esse jogo. É mais fácil para alguns acreditarem na ilusão de um suposto"poder"que lhes entregam, do que olhar para si mesmos e para seus rastros no caminho    e ver se merecem mesmo o que receberam. É doloroso "deixar a vida que ao “mundo” nos prende". Parece mais "leve" a primeira vista, tentar agradar a Deus e a Baal. Nesse plano, nos respaldamos apenas em nossas conveniências.

Nosso trabalho deve ser abraçado como uma missão a ser cumprida. Decidir por isso é estar disposto, em muitos casos, a abrir mão dos próprios interesses.  É difícil ser missionário e profissional ao mesmo tempo. Com muita frequência entramos em rota de colisão entre a  nossa  necessidade temporal com o ideal que defendemos.