sábado, 17 de dezembro de 2011

"O MUNDO É DOS ANIMAIS"

Assim  falou  seu Machado com expressão triste e voz embargada, quando passou diante de um cachorrinho atropelado e morto na rua. Ele me levava de volta para casa em seu Escort XR3 prata, equipado com uma enorme e cromada caixa de som presa ao teto, com o qual fazia propaganda volante. Isso já faz mais de 20 anos. Eu era locutor e prestava serviço para ele. Foi numa dessas que, ao se aproximar de uma curva, eis o cachorro caído no meio da rua já sem vida e, diminuindo a marcha, tirou uma das mãos do volante, apontou-a em direção ao animal e disse: - Olha que tristeza, Elias. Um animal inocente morrendo atropelado na estrada, sem noção nenhuma do perigo. O mundo é dos animais - completou.  

Concordando com ele, emendei: - Faz sentido seu Machado! O homem foi criado depois dos animais, e foi colocado aqui para cuidar deles e da natureza. Assim está escrito na Bíblia, no livro de Gênesis.  

Ele pertencia à  seita  Universo em Desencanto. Deus em sua seita, era chamado de "O Racional Superior". Seu Machado, um  bom mineiro e, apesar de estar no Rio de Janeiro há muitos anos, ainda tinha o sotaque característico de sua terra natal. Ele demonstrava  profundo respeito pela vida dos animais. Na casa dele tinha cachorro e um louro. Quando ele chegava, o louro fazia a festa avisando à tia com aquela voz caracteristica da ave:  - Tia, Tia, Machado chegou...Machado chegou...
Os animais retribuem o carinho
Meu irmão certa vez, quase entrou em pânico quando atropelou um cachorro, que saiu do canto da rua, na tentativa de atravessar. Eu estava com ele numa pick-up Kombi, daquelas antigas de para brisa dividido ao meio,  com carroceria de madeira, com a qual ele trabalhava transportando mercadorias para um sacolão (comércio que vendia frutas e verduras a preço único). Foi muito rápido. Ele tentou desviar, mas não deu tempo. Ao ouvir o barulho do atropelamento, ele parou o carro, desceu para tentar socorrer o bichinho, mas ele estava no último momento da agonia, morrendo ali mesmo, diante de seus olhos.  Lembro-me perfeitamente que meu irmão voltou, debruçou ao volante, e chorou.

Um dia, meu pai quase arrumou confusão com um carroceiro. Fazia muito calor, com  um sol de rachar, quando o cavalo que puxava a carroça transportando sacos de cimento, empacou. Era numa subida, cheia de buracos feitos pela enxurrada. Uma das rodas da carroça caiu numa dessas valetas, formadas pela água da chuva,  e o cavalo fazia muito esforço para puxar todo aquele peso. Havia pelo menos dez sacos de cimento na carroça. Isso dá cerca de meia tonelada, considerando o peso de cada saco de 50 quilos. O dono do animal chicoteava-o para subir a rua. A cada chicotada o cavalo contraía o lombo. Seus olhos arregalados como que assustado; sua respiração ofegante podia-se ver ao longe pela barriga expandindo e contraindo com rapidez. O suor do animal, fazia seus pelos brilharem. Foi no momento em que aquele homem usava o cabo do chicote, cutucando com toda ira a barriga do animal, a ponto de perfurar seu couro, que meu pai, a uma certa distância, vendo toda aquela cena,  gritou: - Não faça isso com o bicho. Vai com calma. Já imaginou se fosse o senhor que estivesse no lugar do cavalo? – bastou dizer isso para ouvir um enorme palavrão daquele homem que já estava nervoso com o animal empacado.
Os animais confiam nos seus donos
Eles não conhecem suas intensões.

Na minha família sempre tivemos muito carinho pelos bichos. Meu pai tinha um sítio, e lá ele construiu um galinheiro. Todos os dias eu ia cuidar das galinhas, Era distante da nossa casa. Havia um barraco feito de pau a pique e paredes de barro e bambu, e lá ficavam os bichinhos. Eu chegava bem cedo e, quando ainda tentava abrir o cadeado do portão, o barulho da corrente já era o sinal de que eu estava chegando. Era uma cena linda. As galinhas, os galos, os pintinhos vinham todos correndo em minha direção, batendo as asas para ganhar mais velocidade,  voando baixo para chegar mais depressa. Os pintinhos ficavam em círculos aos meus pés, quando eu sentia o toque de seus biquinhos em meus dedos, como se estivessem me cumprimentando e pedindo comida. Era eu quem os alimentava todos os dias. E todos os dias eu vivia a mesma emoção, e pensava como alguém tem coragem de matar um animal que ele mesmo alimenta?

Esses dias meu filho foi brincar na quadra com um coleguinha. À margem da quadra, vi os dois pisando firme no chão, batendo o pé com força, e fui ver de que se tratava. - O que foi filho? - Estou matando a formiga, papai - respondeu. Observei que a  formiga estava a caminho do formigueiro carregando uma folha, e alí eu abaixei perto dele, e olhando em seus olhos, disse: - Filho, essa formiguinha estava voltando para a casa dela, para levar comidinha para os filhotinhos... Da próxima vez, deixa a formiguinha ir.


 

A carne de porco é considerada imprópria para o consumo
Segundo a Bíblia Sagrada.
Certa vez, quando criança, eu estava deitado para dormir. Comecei a ouvir forte grunhido de porco. O barulho vinha da casa do vizinho ao lado.  Era grunhido forte, em meio ao som de vozes e passos, barulhos de objetos caindo no chão. E começou o sofrimento do animal. O grunhido de um bicho atacado sem nada poder fazer. Dominado. Não havia quem o defendesse ali. Os que estavam em volta, queriam matá-lo. Estava entregue, amarrado.  A minha vontade era me levantar e ir até lá e salvar o porco. Mas como faria isso? Eu ficava ouvindo a agonia daquele animal, até que sua voz ia sumindo aos poucos, entremeado com grunhidos mais fortes, até que ia sumindo, sumindo, até ouvirmos os gritos de comemoração da turba. Parecia até um espetáculo.

Pessoas paravam para assistir aquela cena de crueldade. O porco estava morto. No outro dia de manhã, o sorriso no rosto do vizinho, cumprimentando as pessoas que iam à sua banca, forrada com folhas de bananeira comprar a carne daquele animal que agonizou, sofreu de estresse e muitas dores para morrer.  Uma morte sofrida, com um longo punhal enfiado ao coração. Diz-se que as vezes dá trabalho para achar o coração do animal e com o punhal cravado no peito o matador  manipula a ferramenta até encontrar o ponto certo.  Aí o sofrimento é bem maior.


O fim dos nossos propósitos, justificariam os meios
que usamos para comemorar.
Ainda mata-se animal para comer, mesmo  com os supermercados cheios de alimentos e tantas outras opções. Ainda matam-se frangos e galinhas, onde a terra produz frutos. A justificativa é que, se é para comer, pode! Pode matar. Na verdade, o ser humano é capaz de tornar legal, natural, comum,  a matança de animais para satisfazer seu apetite. Fazemos festa e confraternizações diante de um animal que sofreu a agonia da morte. 

É lamentável assistirmos animais sendo maltratados. Cachorros atropelados. Choramos quando perdemos nosso animalzinho de estimação, mas deixamos de refletir, também, sobre os animais que são assassinados para nos servirem de alimento.


Em comemoração à  vida!

Por que é mais chocante a cena de um cachorro sendo espancado pela dona até a morte, e não nos choca o fato de outros bichos, longe dos nossos olhos sendo abatidos para nós? Seria o apego ou a convivência? Não estaríamos sendo egoístas dizendo com o silêncio de nossas ações, que a morte de um animal criado para morrer é compreensível?

"O que os olhos  não  vêem, o coração não sente", como diz o ditado popular, e  é isso o que dizemos muitas vezes. É o argumento mais fácil para tentar "apaziguar" a nossa consciência. Mas o nosso coração deve sentir a mesma coisa ao imaginar, ao refletir um pouco sobre isso. Vamos perceber que dói em nós também, mesmo sem vermos os últimos instantes daquele animal que levamos para a nossa mesa. É verdade. Dele não vimos o  último suspiro, sem nenhuma resistência ou reação, a mercê das mãos de seus matadores.  

Se estimularmos a imaginação sobre os últimos momentos de vida de um animal, neste ponto, não importará se é um bichinho de estimação, ou um porco, boi, cabrito ou galinha. Vamos, assim, finalmente, despertar o nosso sentimento de amor pela vida, diante dos conceitos e argumentações que  praticamos para tirar a nossa responsabilidade individual de decidir amar também os animais, sem distinção. 

FAZ SENTIDO:  


A Bíblia nos leva a entender, que a alimentação a base de carne foi permitida por Deus, logo após o Dilúvio, até que a terra voltasse a ser cultivada e desse frutos novamente. O capítulo 11 do livro de Levítico, traz a relação de animais que seriam próprios para o consumo durante aquele período em que Noé e seus descendentes precisavam de tempo para lavrar a terra. Muitos animais, cujas carnes eram consideradas nocivas à saúde, não eram usadas para alimentação, de acordo com as orientações dadas pelo próprio Deus.