quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O ATAQUE SILENCIOSO DA SERPENTE


Morei num bairro de periferia e lá vivi a infância e adolescência.  Eu, meu irmão mais novo e os colegas  do bairro, volta e meia, se embrenhavam pelo mato para subir o morro e aproveitar o seu gramado, onde brincávamos escorregando morro abaixo em cima de folha de papelão, e, por vezes, utilizando um pedaço de fórmica qualquer, de alguma mesa encontrada no lixo. Não era raro sairmos dessa "aventura" com arranhões pelas pernas e carrapichos grudados à roupa. Quantas vezes machucávamos a mão, ao tentar segurar nas tiriricas com suas folhas longas de extremidade cortante como navalha, para frear a nossa descida.

Meu pai tinha um sítio. Muitas vezes o acompanhava, passando por  trilhas margeadas por mato e morros com vegetação virgem. As partes mais baixas, à beira da estrada, serviam como pastagens para gado.

O bote é minucuisoamente preparado

Havia o temor de sermos surpreendidos com o ataque de uma cobra. Nas caminhadas que fazia com o meu pai, rumo ao sítio, ele sempre conversava sobre sua experiência de vida na roça, e falava a respeito de coisas que ele achava importante eu conhecer, apontando para o que víamos na estrada.  

Me falava os nomes das plantas e de alguns pássaros que de vez em quando  sobrevoavam sobre nós ecoando sua cantoria. Era curiosa a maneira como as anús, timidamente iam se aproximando do gado no pasto, para alimentarem-se de carrapatos grudados ao couro do animal.  

E foi numa trilha bem estreita e com matagal mais alto que meu pai falou que, ao andar por uma trilha no meio do mato, que eu prestasse bem atenção onde estaria pisando. E foi enfático:  - se estiver acompanhado, nunca seja o último da fila! Ainda enquanto dizia  me  passava para a frente dele.  Disse a ele que não entendia o porquê, e assim, me respondeu que nos lugares onde pode haver cobras, o prejudicado é sempre o que vem atrás, exatamente porque a cobra não dá o bote de maneira brusca. Ela vai se preparando aos poucos, se enrolando, calculando. Enquanto os que passam primeiro começam a provocar seu instinto, ela vai esperando o momento certo de atacar.

O aprendizado é algo constante, até pela
observação das pequenas coisas.

Foram experiências reais, e orientações baseadas na realidade em que vivíamos. Mesmo nos protegendo em primeiro plano, a verdade é que a cobra ataca, pois esse é seu instinto de sobrevivência ao sentir-se ameaçada. Quando lidamos com animais, precisamos saber qual é o limite e como agir com eles para não provoca-los. Se o respeitarmos, seremos  de  igual modo respeitados. Aprendi isso lidando com um potrinho que meu pai me deu de presente. Depois que o “cavalinho” foi amansado, com muito cuidado, não precisávamos mais usar o cabresto para apanhá-lo no pasto. Chamar pelo seu nome era o suficiente. E ele vinha ao nosso encontro. Era uma troca. Ele sabia que quando eu ia apanhá-lo no pasto, era o momento de ir para casa, para o seu cercado, beber água e comer sua ração.
Os animais dão importância ao respeito que demonstramos a eles. As reações "adversas" ocorrem justamente quando sentem-se ameaçados.

O coração humano é terra que ninguém pisa.

Diferentemente de nós, que criamos neuroses, alimentamos pensamentos vingativos contra o semelhante, com base apenas na imaginação. Queremos fugir das sombras que imaginamos ser do outro, mas são sombras de nós mesmos. Assim como a cobra, muitos acreditam serem atacados pelos meninos que passam à beira da trilha, e nos protegemos primeiro, dando o bote. “Matamos um inocente, que não teve tempo sequer para defender-se”, porque de fato, todo o processo do ataque foi feito em silêncio, estrategicamente calculado.

Há os que constroem na própria mente e visualiza passo a passo o que fazer de maneira fria e calculista, apenas por se sentirem ameaçados. Isso se torna um grande perigo, principalmente quando essas emoções e sentimentos não são reconhecidos e passamos a lidar com o imprevisível.

Certa vez, ouvi uma entrevista com o ator Lima Duarte, que disse num programa de televisão, que um grande desafio que teve a enfrentar, foi lidar com o ser humano. “Na roça, minha mãe dizia: cuidado com o rio; ali tem cobra; cuidado com o coice do cavalo.” Dizia ele que na sua realidade, sabia de quem deveria proteger-se, sabia quem era seu “inimigo”. O lamentável, de acordo com sua explicação, é não saber o que se pode esperar do ser humano, nem descobrir o que ele é capaz de fazer contra o outro.
Mas essa questão acompanha gerações. Jesus conviveu com pessoas que estavam interessadas em tentar ver algum deslize de sua parte, em tentar pegá-lo nalguma contradição, exatamente porque não o aceitavam como o Messias. De alguma maneira, queriam encontrar argumentos para tentar difamá-lo. A vida deles girava em torno disso. Maquinavam o mal o tempo todo, até mesmo forjar um ato de adultério para fazer um teste em Jesus em como reagiria diante da pecadora que deveria ser apedrejada segundo a lei.
Antes de apedrejar, olhe-se no espelho da alma.

Jesus quis mostrar, que nenhum deles poderia atirar a primeira pedra. E que toda a justiça humana não serve para nada. Que a supremacia que muitos julgam ter, será reduzida a pó. Que a altivez de espírito, precede a queda.

Mas esses homens se revelavam como eram. Estavam errados, enganados, mas revelavam suas verdadeiras posições e opiniões. Foi em meio a esse episódio, que muitos deixaram as pedras no chão e saíram um por um do local. Eles, mesmo mal intencionados, permitiram-se deparar com a verdade.

Enquanto em nossas relações sociais, cristãs, e em todas as esferas em que atuamos não revelarmos nossos defeitos, jamais daremos a nós a oportunidade que aqueles homens deram a eles – de mostrar que eram hipócritas; que aquela cena foi um grande teatro montado para colocar Jesus à prova. A mensagem “vai e não peques mais”, não serviria apenas para os que tem pecados revelados, mas aos que tem pecados ocultos no coração, que só Deus é capaz de saber, mesmo que pareçamos bem aos olhos humanos. Não se pode provar o que aconteceu na vida daqueles homens depois. Mas, de fato, eles tiveram a grande oportunidade de assim como a mulher pecadora, receber o perdão de Cristo abandonando seus pecados visíveis e ocultos.