terça-feira, 20 de dezembro de 2011

NELA, VI O MEU PASSADO

Esses dias  fui  surpreendido  pelas declarações de uma moça, que me deixou muito emocionado. Não foi pelos elogios que  recebi dessa  adolescente de 18 anos, que disse admirar o meu trabalho desde pequena. Na verdade, nunca liguei para elogios, mas nunca minimizei o carinho de palavras elogiosas de quem parece estar falando de coração, com sinceridade. Porém, sempre consciente do meu papel, do que posso e não posso fazer, do que sei e do que tenho a aprender.  Sempre mantive comigo a idéia de que fazer bem um trabalho para o qual fui chamado com o melhor que posso oferecer, não é algo  excepcional, fora do comum. Aliás, todos nós avançamos até onde podemos avançar. É preciso ter consciência dos nossos limites, porque, diferentemente do que tentam nos fazer entender, limites existem e, devemos ser sóbrios para aceitá-los a ponto de não sermos afetados pela desmotivação, fruto de uma frustração ao projetar a nossa satisfação tentando ignorar a nossa identidade para parecermos com os outros. É nesse ponto, que percebemos o quanto somos diferentes uns dos outros, e essas diferenças tem o seu lugar, e podem ser muito bem aproveitadas.

Mas, as críticas me deixam intrigado. Procuro tentar entendê-las, antes de tomar qualquer atitude para mudar. Quero avaliar tanto as razões que o crítico apresenta, quanto de quem vem a crítica. Quando posso, fico atento aos gestos, às palavras, à vibração da voz, ao brilho do olhar.

Nos idos 1993 ela nasceu. E, nessa época, eu já fazia rádio. Em 1998 ela já estava com 05 anos de idade e, foi a partir desse tempo que, junto com seus pais, ouvia o jornal que apresentei durante 12 anos, segundo o que me revelou.  Mais tarde, continuou me acompanhando quando bem cedo, eu começava com um programa, agora como apresentador. Ela finalmente afirmou que gostaria muito de me conhecer, porque tanto ela, quanto a família dela, tem um carinho muito especial por mim, e pelo trabalho que tenho feito até hoje.
O tempo não furta a nossa vontade


Confesso que, ao ouvir as palavras dessa jovem, reportei-me ao meu passado também. Eu admirava os comunicadores que ouvia e   desejava conhecê-los. Eu era criança, mas ouvia o que os adultos ouviam, diferente de hoje em que há maior exploração comercial do público. No passado, era comum crianças ouvirem  o que os pais ouviam. O grande problema de hoje, é que os produtos passam a ser aleatórios; a programação e comunicadores descartáveis, quando deveria-se prezar pela fidelização e o respeito ao público.  O que torna o  público  insaciável, é exatamente essa ânsia pela velocidade nas mudanças e o apelo à modernidade pela modernidade e, em muitos casos, transmite uma impressão de despreparo e insegurança. Muitas vezes, criamos "concorrentes" imaginários, fazendo parecer que estamos fugindo da própria sombra e, isso fica transparente em nosso produto final.  O ouvinte precisa ter segurança e saber que pode contar com o comunicador, que torna-se parte de sua vida.  Por isso,  acredito que existe muita relatividade sobre o pensamento de que é necessário fazer estilos variados numa grade de programação, com o objetivo de atrair  variados públicos.  

Faz pouco tempo deparei-me com um menino cantarolando música MPB dos anos 80. E eu disse a ele: - Essa música não é do seu tempo. Mas eu nem desconfiava que, na verdade, ele aprendeu a música  com seu pai, como ele mesmo revelou. –"Meu pai tem uma coleção de músicas antigas" – disse. Ou seja. O "tempo" é sempre o presente, quando o passado caminha junto, no mesmo espaço, harmoniosamente.

Equipamento estranho à nova geração.
Mas música continua sendo ouvida.

 Hoje, pendemos para uma necessidade sugerida de inovar, fazer diferente, “dançar conforme a música; vestir como manda o figurino”.

Mas a velha fórmula funciona até hoje. Podemos dar voltas, mas sempre partimos para o mesmo ponto de onde saímos. E ouvinte, como antes,  quer saber com quem contar.   

Confesso que em muitas circunstâncias num passado recente em minha carreira, imaginei que tinha que repensar o meu estilo de fazer rádio. Mas, não aprendi fazer outro, que não um rádio companheiro, respeitoso, prestador de serviço, instrutivo, sem vulgaridades, sensacionalismo e banalizações da linguagem. Um rádio simples, sem coisas espetaculares.
Graças a Deus, que foi uma jovem de 18 anos, que disse admirar o meu trabalho, a essa altura dos meus 23 anos de rádio. Isso me trouxe certo consolo, não conforto, mesmo tendo minhas convicções, com as quais tenho conduzido  minha trajetória profissional e a linha que sempre defendi.  Na vida, aprendemos muito. Mas, como percebo, todo ser humano, ainda compartilha  sonhos, planos, esperança; busca amizade, fé, confiança, verdade, honestidade. Comunicação, em quase todos os sentidos, se resume nisso, apesar das "luzes coloridas", que tentam desfocar a visão da consciência de cada um. E, assim sendo, mais cedo ou mais tarde, cada um consegue perceber que está faltando alguma coisa.

As fórmulas são outras. Mas a necessidade
 é sempre a mesma

Perdoe-me os mais modernos. Mas se o rádio que aprendi  fazer, ainda tem seu  lugar, é nesse   lugar que quero estar. As fórmulas podem até mudar, mas o princípio da comunicação continua o mesmo.    As novas tecnologias são a fórmula, mas elas jamais poderão  suplantar a qualidade do conteúdo. As novas ferramentas podem nos dar  conforto pela sensação de estarmos ultrapassando fronteiras. Mas necessário é, também, romper a fronteira do individualismo e da auto-suficiência, do bastar-se a si mesmo, desconsiderando a necessidade real das pessoas. Por isso, precisamos adotar linguagem universal, falar de coisas comuns, propor mudanças dentro de uma percepção da realidade do mundo,  com visão clara, consciente e respeitosa.  A função do rádio continuará sendo a mesma, mesmo diante de novas configurações tecnológicas e até de tendências sociais. Mudar o princípio, tem mostrado ser o fracasso de muitos projetos.  Comunicação é feita para gente. E gente é gente, em qualquer tempo, em qualquer lugar. As necessidades humanas, continuam as mesmas.